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Ciência

Joia do cerrado

Pesquisa realizada na UnB confirma que a castanha do baru, fruto comum no Centro-Oeste, contém substâncias capazes de combater inflamações e fortalecer o sistema imunológico. O consumo diário de 50g da amêndoa torrada já provoca efeitos positivos à saúde

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postado em 19/09/2012 08:00 / atualizado em 18/09/2012 10:10

Sumaru, barujó, castanha-de-burro, coco-feijão, cumbary, meriparagé, castanha-de-ferro. São inúmeros os nomes dados ao baru, fruto típico do Centro-Oeste que costuma aparecer nas matas do cerrado em dezembro. Também são incontáveis as propriedades medicinais atribuídas pela sabedoria popular à fruta e à sua castanha, que costumam ser transformadas em um óleo que poderia ser usado no tratamento de diversas enfermidades. Atraída pelas místicas propriedades do vegetal, uma cientista de alimentos escolheu a leguminosa como objeto de sua pesquisa de doutorado na Universidade de Brasília (UnB). O resultado foi surpreendente.

Autora do estudo, publicado na revista especializada Food Research International-Elsevier, Miriam Rejane Bonilla Lemos demonstrou que a castanha do baru tem um alto potencial antioxidante, uma arma poderosa contra processos inflamatórios e doenças crônicas e degenerativas. Os fitoquímicos presentes na leguminosa, aponta a pesquisa, controlam os radicais livres que causam problemas como a hipertensão e a artrite, além de doenças como o câncer e o diabetes. “Os radicais livres são moléculas instáveis que, quando atingem o DNA, vão produzir doenças. A célula afetada pode produzir um câncer, atingir proteínas ou afetar o metabolismo”, explica a pesquisadora.

De acordo com a especialista em ciência de alimentos, em diversos aspectos, a leguminosa tem mais possibilidades medicinais do que alimentos semelhantes, como o pistache, a macadâmia ou o amendoim. A amêndoa também é rica em ômegas 3, 6 e 9, e tem alta taxa de ácidos graxos insaturados. O grande trunfo do baru, porém, está em seus oito compostos fenólicos: as substâncias, como a catequina e os ácidos gálico e elágico, têm poderes anti-inflamatórios e antivirais, e estão presentes em peso na semente do fruto. A ingestão diária de 50g da amêndoa torrada com a casca é suficiente para causar efeitos positivos na saúde (mas é necessário lembrar que essa porção também tem 250kcal).

A variação e a riqueza de compostos bioativos, aponta Lemos, são resultado do mecanismo de defesa do baru. Como o fruto cresce no ambiente rígido do cerrado, ele desenvolveu uma composição que o faz resistir a lesões e à falta de água por longos períodos de tempo. Essa resistência às condições adversas também deu ao núcleo do baru uma grande quantidade de antocianinas e tocoferóis, que evitam a produção de radicais livres e melhoram a circulação sanguínea. Essas características reforçam a crença popular, que já associava o baru ao tratamento do reumatismo e à regulação do período menstrual.

Aprofundamento O estudo foi inspirado por um experimento realizado anteriormente na UnB com a mesma castanha. Nesse estudo, ratos de laboratório foram induzidos ao estresse oxidativo e parte deles teve o baru misturado à alimentação por 17 dias. As cobaias que ingeriram a castanha tiveram o fígado, o baço e outros órgãos protegidos dos danos oxidativos causados pelo sulfato ferroso que tomaram. “Foram estudados 11 frutos do cerrado, entre eles o ingá, a guariroba e a mangaba. Mas vi que tinha algo de diferente no baru. Já vimos que ele tinha coisas muito boas, como tanino, zinco e fósforo, mas as pesquisas geralmente paravam aí”, justifica Miriam Lemos.

A então doutoranda adquiriu amostras da amêndoa de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais, e analisou o alimento na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mesmo sabendo dos benefícios que a leguminosa havia causado aos ratos, a equipe gaúcha se espantou com o que encontrou. “Os resultados foram muito interessantes, demonstrando alto conteúdo de alguns compostos bioativos na amêndoa. O conteúdo de gordura no baru também é muito expressivo, incluindo alto conteúdo em ácido oleico, os quais são benéficos em termos nutricionais”, avalia Rui Carlos Zambiazi, professor da UFPel e co-orientador do projeto.

A professora de ciências da saúde Egle Machado havia orientado o estudo com ratos em conjunto com a professora Sandra Arruda, do Departamento de Nutrição da UnB, e também decidiu acompanhar Miriam Lemos em sua pesquisa aprofundada. “Foi muito bom encontrar compostos com reconhecida atividade biológica na amêndoa do baru. Na literatura científica, têm sido reportadas as atividades anti-inflamatória, anticancerígena, antimicrobiana e antioxidante dos compostos fenólicos. Porém, estudos adicionais são necessários para que possamos afirmar qual dos compostos encontrados na castanha é o mais bioativo”, avalia a especialista.

Preservação Para a professora, estudos que envolvem frutos ricos em nutrientes, como o baru, podem ser tão beneficiais para a natureza quanto para as pessoas que consomem esses alimentos. O conhecimento e a valorização do cerrado poderia estimular a preservação ambiental e a produção de alimentos típicos dessa vegetação. “Nossa capital foi transferida para uma região em que o cerrado impera e, apesar de passados 50 anos, pouco ou quase nada conhecemos dos frutos produzidos nesse bioma. Agregar valor nutricional e até farmacológico aos alimentos da flora nativa estimula seu cultivo e preservação, acrescentando alternativas para o desenvolvimento sustentável da região”, estima.

Em sua pesquisa de pós-doutorado, também na UnB, Miriam deve continuar examinando as propriedades farmacológicas do baru. Ela vai colocar à prova os fitoquímicos da castanha no tratamento contra enfermidades como o envelhecimento precoce, o câncer e o vírus HIV.  

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O baru amadurece na época da seca e serve de alimento para diversos animais do cerrado. Assim como o núcleo, também podem ser aproveitados a polpa e o endocarpo, que correspondem a 95% do fruto, muito usado na alimentação do gado na estiagem. Além de Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso, o baru também é encontrado no Paraguai e em cercanias do complexo do Pantanal. A árvore pode alcançar até 25m e produzir 150kg de frutos numa única estação. A amêndoa é consumida torrada como aperitivos ou usada em receitas similares às do amendoim, como paçocas e bolos. A semente também é matéria-prima de bebidas alcoólicas e tem o óleo extraído para fins medicinais ou para aplicações industriais, como lubrificante de equipamentos.

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