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Ciência

Reconstrução exata do passado

Grupo internacional de pesquisa apresenta na revista Science uma nova forma de datar fósseis. O método deve ajudar a responder com maior certeza questões sobre a extinção dos neandertais ou a chegada do homem moderno à Europa

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postado em 19/10/2012 10:32 / atualizado em 19/10/2012 10:40

Ao se deparar com um fóssil, como calcular sua idade e, assim, reconstruir a história da vida na Terra? Em 1949, um pesquisador da Universidade de Chicago chamado Willard Libby inventou uma técnica que representou um significativo avanço para os estudos arqueológicos: o sistema de datação por radiocarbono. Desde então, o método se transformou em uma poderosa ferramenta de análise do passado. Contudo, apesar de conseguir resultados bastante aproximados, em alguns casos ele deixa a desejar, principalmente em estudos para os quais alguns anos podem fazer muita diferença nas conclusões. A boa notícia é que essa forma de datação acaba de ser melhorada.

Na edição de hoje da revista Science, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Japão apresentam um conjunto de estudos realizados com fósseis encontrados no fundo do lago japonês de Suigetsu e que tornam a medição de radiocarbono muito mais precisa para materiais que tenham idade entre 11 mil e 53 mil anos. O estudo é considerado o maior avanço na área desde que Libby criou seu sistema.

Como o nome indica, o radiocarbono é uma forma radioativa de carbono, produzida na atmosfera superior a partir da interação da radiação cósmica com elementos encontrados nessa região da Terra. Com isso, ele acaba sendo quase onipresente no planeta, incorporado a todo tipo de matéria orgânica. Quando um animal morre e se transforma em fóssil, por exemplo, a substância continua presente, mas é lentamente modificada por um processo químico chamado decaimento. É por meio da medição do decaimento que os cientistas conseguem calcular de forma aproximada a idade do fóssil.

O problema é que para estabelecer a relação entre a transformação do radiocarbono — ou seu resultante, o carbono 14 — e a quantidade de tempo que passou, os pesquisadores precisam saber como a substância era originalmente. A tarefa não é simples porque, em cada época, a emissão de radiação na atmosfera superior é diferente. Assim, é preciso recorrer a um parâmetro de comparação, alguma quantidade de matéria fóssil que tenha sua idade determinada por outro método e que sirva de referência.

Até agora existiam apenas duas maneiras de determinar esses parâmetros referenciais. A principal delas é por meio de depósitos de carvão no fundo dos oceanos. “Na maioria dos casos, os níveis de radiocarbono deduzidos a partir de registros marinhos foram muito imprecisos”, explicou Christopher Ramsey, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, um dos líderes da pesquisa. Isso porque, com base em estudos geológicos, os pesquisadores até sabem quando o carvão foi depositado na profundeza do mar, mas a interação da água com as rochas altera a composição do carbono 14, impedindo uma referência exata.

A outra forma está no mundo terrestre: os anéis formados no interior dos troncos das árvores. O estudo dessas marcas em fósseis vegetais pode ser um referencial valioso, mas seu uso esbarra em outro problema: os registros dos anéis se estendem por apenas 12,5 mil anos. As árvores serviriam de parâmetro apenas até esse período geológico.

É aí que entram as rochas do Lago Suigetsu. Como a região é de formação muito antiga e as águas extremamente calmas, o carvão depositado no fundo do lago sofre poucas mudanças. Depois de extrair núcleos de camadas de sedimentos preservadas no local, a equipe de pesquisa concluiu que o material é um excelente referencial de datação. “Os resultados oferecem um refinamento importante do registro de radiocarbono atmosférico”, afirmou em comunicado Jesse Smith, editor sênior da Science.

Centenas de anos
Desde 1993, os pesquisadores estudam os sedimentos depositados no fundo do Suigetsu na tentativa de ajudar a explicar a história dos seres vivos na Terra. “Uma coisa importante sobre o lago é que a região nunca foi coberta por geleiras. Mesmo durante as fases de glaciação, havia árvores ao seu redor”, explicou em uma conferência à imprensa da qual o Correio participou Takeshi Nakagawa, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. “As folhas dessas árvores caíram sobre o lago e, eventualmente, se fossilizaram. Elas nos ajudam, agora, a contar a história de um período com poucos registros fósseis”, completou.

Os resultados da pesquisa são extremamente importantes porque fornecem uma maneira muito objetiva de examinar a idade de materiais orgânicos para um intervalo de tempo entre 11 mil e 53 mil anos atrás. “Pela primeira vez, temos um meio mais preciso de escala de tempo, o que nos permitirá responder perguntas em arqueologia que permanecem sem resposta”, afirmou Christopher Ramsey. Entre as possibilidades apresentadas pela descoberta, estão a definição do momento exato em que os neandertais foram extintos ou quando ocorreu a migração dos humanos modernos para a Europa.

Em um primeiro momento, contudo, os especialistas acreditam que não haverá mudanças profundas na idade de fósseis já datados. “Esse registro não vai resultar em grandes revisões de datas, mas, em arqueologia pré-histórica, por exemplo, haverá pequenas mudanças na cronologia em escala de centenas de anos”, disse o especialista da Universidade de Oxford. Outro impacto importante deverá ocorrer nos estudos sobre a história do clima da Terra, o que ajudará, consequentemente, a prever mudanças climáticas. “Com base nesses dados, estamos trabalhando para reconstruir a história do clima em uma abordagem completamente nova”, explicou Nakagawa. “Eu, particularmente, estou estudando as mudanças do clima no passado por meio dos fósseis encontrados no Lago Suigetsu. Essa é uma questão que está em um artigo em fase de análise para publicação”, adiantou.

 

 

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