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Formação para toda a vida

Segundo especialistas, além de ensinar uma profissão, as universidades precisam ser um ambiente de crescimento humanístico. Jovens que buscaram no câmpus essa experiência não reclamam do conhecimento adquirido

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postado em 21/11/2012 08:00

Max Milliano Melo

 

 

Flexibilidade: apaixonado por música, Ênio Chaves fez um curso de farmácia em busca de estabilidade financeira. Hoje, vive das duas atividades (Luis Xavier de França/Esp. CB/D.A Press) 
Flexibilidade: apaixonado por música, Ênio Chaves fez um curso de farmácia em busca de estabilidade financeira. Hoje, vive das duas atividades

Para que serve a universidade? Para ensinar uma profissão? Garantir aprovação em um concurso público? Ou possibilitar o acesso ao mercado de trabalho? Ela até pode cumprir essas funções, mas, na opinião de especialistas, a função básica da academia está longe disso. Ajudar a desenvolver o pensamento crítico e promover o amadurecimento humano estão entre as funções primordiais do ensino superior, garantem. Embora esse papel venha perdendo espaço nos últimos anos, o ambiente acadêmico ainda mantém seu papel essencial na formação não de médicos, engenheiros ou professores, mas de seres humanos.

O mestrando em sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Edemilson Paraná, por exemplo, ressalta o aspecto libertador da educação. “O principal papel da universidade é, ou pelo menos deveria ser, abrir a cabeça das pessoas para o mundo a sua volta”, afirma o jovem pesquisador. “É para isso que serve primariamente o conhecimento: nos fazer pessoas melhores, capazes de, a partir do senso crítico, entender que todas as decisões que tomamos e as coisas que fazemos, profissionalmente ou não, têm implicações na vida de outras pessoas”, completa.

Nos anos de graduação e agora no mestrado, Paraná, como é chamado pelos amigos, buscou diversificar as experiências. “Eu fiz muita coisa na universidade: estágio, pesquisa, movimento estudantil. Depois que me formei, sigo os estudos fazendo mestrado.” Numa vida acadêmica tão agitada, nem sempre as tradicionais aulas foram as que mais o influenciaram de maneira humana. “Os debates nos corredores, as exposições, as festas, as movimentações políticas, tudo isso me permitiu viver esse ‘universo’ em intensidade, colocando em xeque, de modo crítico e criativo, os ensinamentos que obtive nos livros e na sala de aula”, conta.

Embora o momento do vestibular seja carregado de expectativas entre os jovens, para muitos que vivem a formação superior ou saíram há pouco tempo dela, independentemente do curso, as escolhas vão revelando um lado mais relativo. Assim como os gostos mudam, o amadurecimento adquirido durante a formação superior, que marca a passagem da adolescência para a vida madura, pode abrir muitas outras possibilidades que a visão juvenil frequentemente não percebe. Mesmo sendo alardeada como tal, a escolha do curso superior não é um contrato com o destino que seguirá a vida acadêmica e determinará os rumos da idade adulta.

Nascido em Santa Maria da Vitória, cidade no interior da Bahia, Ênio Chaves sempre teve o sonho de se embrenhar pelo mundo da música. Desde criança fez aulas com artistas autodidatas de sua cidade e, na medida do possível, desenvolveu seu talento para o canto e os instrumentos. Quando chegaram o fim do ensino médio e a hora de escolher o curso para o qual prestaria vestibular, contudo, não foi a música a opção marcada. “Escolhi farmácia porque é uma área de que eu gosto e que me ajudaria a me manter. No futuro, poderia continuar meu sonho”, conta. Na UnB, encontrou um ambiente que o ensinou mais do que mecanismos bioquímicos e tecnologias de produção de remédios. “A universidade é um lugar que te faz amadurecer, se abrir para o mundo”, conta, agora, depois de formado.

Ênio seria um cantor que virou farmacêutico ou um farmacêutico que ataca de músico? Isso nem ele mesmo sabe dizer. O fato é que a experiência no mundo dos medicamentos, dos laboratórios e dos pacientes lhe ajuda a hoje ser um artista mais completo. “Para começar, tem a questão financeira. Não sei se teria condições de investir no meus sonho se tivesse seguido na universidade um curso de música. Hoje, minha formação é algo que me ajuda a pagar as minhas contas”, conta o cantor, recentemente aprovado no concurso da Secretaria de Saúde do DF. “Por outro lado, tem a questão humana. Você cresce e amadurece muito na academia, se desenvolve, cria responsabilidade, organização”, conta.

Além dos fatores ligados ao amadurecimento pessoal, o conhecimento adquirido nos bancos da universidade ajuda o farmacêutico a ver a música de uma forma diferente. “Quando estudo técnica vocal, por exemplo, consigo compreender melhor do que outros alunos como funciona a minha voz e o aparelho vocal graças a conhecimentos de anatomia e fisiologia que aprendi na faculdade”, exemplifica Ênio. “Apesar de meu curso não ser o que eu pretendo seguir para a vida, com certeza, foi válido. Se fosse hoje, faria novamente”, completa o artista/farmacêutico, que agora sonha em cantar ao lado de uma grande estrela da música. Ênio é um dos 30 finalistas do concurso que escolherá os backing vocals da cantora Beyoncé em sua turnê brasileira do ano que vem.

 
"Os debates nos corredores, as exposições, as festas, as movimentações políticas, tudo isso me permitiu viver esse "universo" em intensidade, colocando em xeque, de modo crítico e criativo, os ensinamentos que obtive nos livros e na sala de aula" Edemilson Paraná, mestrando em sociologia

Crise existencial
Apesar do papel importante no amadurecimento, a universidade enfrenta uma crise existencial, opina a psicóloga e doutoranda em educação da Universidade de Brasília (UnB) Maria Emília Bottini. “Ela ainda tem um papel fundamental na formação dos seres humanos, mas esse papel não está sendo cumprido como deveria”, opina. Para ela, a moderna universidade brasileira tem, aos poucos, se distanciado do modelo que privilegia o amadurecimento profissional e se aproximado de uma formação mais tecnicista. “Vale uma reflexão: que universidade nós queremos? Aos poucos, as instituições viraram as costas para o social. Não conseguem incitar a reflexão, o debate. Uma recente pesquisa mostrou que 36% dos estudantes de uma determinada instituição se formavam pensando exclusivamente em prestar concurso público. Onde fica o papel de transformação social do conhecimento adquirido ali?”, lamenta.


Segundo Bottini, o processo é fruto de uma degradação das condições de permanência dos estudantes nas instituições. “Uma recente pesquisa mostrou que 25% dos alunos não conseguem se formar. Quer dizer, não estamos conseguindo sequer manter os alunos na faculdade quanto mais ajudá-los a ampliar a visão de mundo, desenvolver o espírito questionador”, conta a psicóloga e acadêmica. “A universidade ainda mantém o seu papel como principal espaço de reflexão, mas está em crise, ela precisa pensar, em um sentido universal, sobre qual o seu papel”, completa.

Na opinião do mestrando em sociologia Edemilson Paraná, é preciso que as instituições superiores encontrem o seu caminho em meio a um mundo que demanda cada vez mais delas. “Acho que a palavra de ordem é equilíbrio. É evidente que entramos na universidade em busca de uma profissão, mas esse fato não pode tirar de vista a importância de uma formação humanística e cidadã que nos permita exercitar o senso crítico. Antes de sermos profissionais, somos pessoas, somos sociedade, e tudo o que faremos profissionalmente, nossas escolhas e o modo de realizar essa profissão, impactará em nossa vida e na vida dos outros”, afirma o também funcionário do Conselho Nacional do Ministério Público. “Um profissional mais consciente, mais crítico e mais um humano é, sem dúvida, um profissional melhor. Os conhecimentos obtidos na universidade devem ser utilizados, profissionalmente ou não, em prol das pessoas para promover mudanças sociais. E é assim que acho que a universidade deve ser: um equilíbrio entre formação técnica — do fazer profissional — e da formação humanística e cidadã.”


Evasão preocupante

Um levantamento feito pelo Decanato de Ensino de Graduação da Universidade de Brasília (UnB) mostra que, embora tenha caído consideravelmente, ainda é alto o índice de evasão de alunos. A taxa, que já atingiu 42% há oito anos, bateu 11% em 2011. A média no período ficou em 25%. As maiores vilãs para que os jovens abandonem a formação superior são a demora para concluir a graduação, a mudança de curso, a falta de condições financeiras para se manter na universidade e a reprovação.

 

 

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