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Ciência

A terra dos imperadores mimados

Estudo de universidade australiana publicada na revista Science indica que a política do filho único fez surgir na Chinaumageração mais pessimista e menos preocupada com os outros.Para as autoras da pesquisa, o fenômeno pode trazer problemas à economia do gigante asiático

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postado em 16/01/2013 13:33 / atualizado em 16/01/2013 13:38

Eles são os “pequenos imperadores”. Frutos da política do filho único adotada na China em 1979, cresceram como o centro da atenção de suas famílias, sendo chamados de “geração mimada” ou “geração perdida” pelos críticos. Os impactos negativos dessa medida de contenção populacional sobre o comportamento dos jovens adultos chineses foram confirmados por um estudo publicado na edição de hoje da revista Science. Pesquisadores da Universidade Monash em Clayton, na Austrália, constataram que, de fato, eles são mais egoístas, pessimistas e menos dispostos a confiar nos outros do que os indivíduos nascidos antes de o Partido Comunista proibir os casais das áreas urbanas de terem mais de umfilho.

A pesquisa foi conduzida em Pequim, onde a política é extremamente rigorosa, e contou com a participação de 421 chineses nascidos em 1975, 1978, 1980 e 1983. Enquanto apenas 27% dos voluntários do primeiro grupo eram filhos únicos, o percentual subiu para 90,7% entre os que nasceram em 1983. Os cientistas aplicaramtestes econômicos que avaliaram questões como altruísmo, competitividade, sensibilidade e disposição para se envolver em situações arriscadas, além de questionários sobre a personalidade dos entrevistados.

Em um dos experimentos, por exemplo, eles eram divididos em duplas aleatórias, sendo que um assumia o papel do “ditador” e tinha de decidir quanto, de um total de US$ 30, ele dividiria com seu par. Já o questionário incluía 44 perguntas, como “quais as chances de fazer sol amanhã?”, emuma escala de 0 e 100. Segundo os pesquisadores, esse tipo de questão avalia o nível de otimismo do indivíduo. Todos os resultados mostraram que, quando comparada às pessoas nascidas antes de 1979, a geração que surgiu após a política do filho único é mais nervosa e desconfiada, tende a dividir menos, prefere não se comprometer com riscos e demonstra um grau de interesse menor nos problemas dos outros. Variáveis como nível educacional dos pais, idade e estado civil foram ajustadas e a única característica que se sobressaiu foi o fato de ter nascido sob esse regime populacional.

“Há muita preocupação na China sobre a geração do filho único e como ela difere das anteriores. Muito dessa discussão no país se foca em como as pessoas se comportam umas com Mulher caminha com bebê em rua de Pequim: governo anuncia que planeja mudar aos poucos a política e passar a permitir dois  filhos por casal as outras”, disseram, por e-mail, as professoras Lata Gangadharan e Lisa Cameron, que conduziram a pesquisa. “Estudos prévios sobre os efeitos da política do filho único têm se baseado em entrevistas feitas com pais, professores e crianças. Em alguns casos, em observações na sala de aula.Diferentemente, nós conduzimos testes da literatura econômica que foram feitos para extrair emoções como altruísmo, habilidade de confiar e ser confiável, preferências de riscos e competividade. Esses experimentos têm a vantagem de permitir ao pesquisador observar tipos de comportamentos particulares e bem definidos”, explicaram. Essa também é a primeira vez que se pesquisam os efeitos da política populacional da China entre os filhos únicos já adultos.

Presidente e fundadora da ONG Direitos das Mulheres sem Fronteiras,uma coalizão internacional que tem como objetivo se opor ao aborto forçado (leiamais abaixo), ao preconceito de gênero e à escravidão sexual na China, a ativista Reggie Littlejohn concorda que a política do filho único tem importantes impactos comportamentais. “Em alguns casos, a criança é o foco deamore esperança de dois pais e quatro avós. Isso tem levado à ‘síndrome do pequeno imperador’, na qual a criança espera sempre ser o centro da atenção e receber mimos. Em outros casos, esses meninos e meninas têm passado por uma tremenda pressão para vencer na vida, já que são as únicas sobreviventes de duas linhagens familiares”, acredita.“Uma visão de mundo autocentrada tem sido uma marca da geração de filhos únicos. Eles são menos preparados para a socialização que as gerações anteriores”, observa o dissidente chinês HarryWu, diretor executivo da Fundação de Pesquisa Laogai, em Washington.

Segundo Gangadharan e Cameron, é possível que ser filho único em outros países tenha efeitos similares. Porém, o caso da China deve ser considerado à parte por um motivo crítico: lá, essa não é uma opção. “Na maioria dos países, os pais podem escolher quantas crianças querem ter, e a mesmas características que determinam isso influenciam na maneira como eles vão criar seu filho”, afirmam. Na sociedade chinesa, contudo, ter apenas uma criança não é opção familiar. Muitas vezes, o casal gostaria de ter outros filhos, mas precisa se contentar com o primogênito, no qual vai depositar todas as expectativas e esperanças que os pais costumam ter em relação aos descendentes.

Alterações

Lançada pelo presidente Deng Xiaoping para frear o crescimento populacional e permitir o desenvolvimento econômico, a política do filho único deve ser revista pelo Partido Comunista Chinês.De acordo com a agência oficial Xinhua, estuda-se aumentar para dois o número de crianças toleradas por casal em algumas províncias, até que a medida se torne nacional em 2015. O governo argumenta que a estratégia evitou o nascimento de 400 milhões de pessoas desde 1979 e, com isso, diminuiu problemas como fome, desemprego e falta de acesso aos serviços básicos em um país que, hoje, tem 1,3 bilhão de habitantes.

Em um artigo publicado no British Medical Journal, os pesquisadores Penny Kane e ChingY Choi, da Universidade de Melbourne e do Instituto de Saúde Australiano, reconhecem que a política estimulou o aborto e o preconceito de gênero, mas destacam o sucesso da medida em termos econômicos. “O sucesso da política não deve ser desprezado. A redução na fertilidade aliviou ao menos alguma parte das pressões sobre as comunidades, o Estado e o meio ambiente em um país que ainda tem um quinto da população mundial”, escreveram.

O problema, em termos econômicos, é que a população chinesa está envelhecendo. Além da redução da força de trabalho —a ONU estima que o encolhimento será de 17,3% em 2050 —, o comportamento dos filhos únicos pode ser outro empecilho. “No nosso estudo, descobrimos que aqueles nascidos sob essa política são menos propensos a escolher ocupações mais arriscadas, como trabalhar no setor financeiro ou ser autônomo. A preocupação é falte nessa geração a habilidade empreendedora, o que pode ter consequências econômicas negativas”, dizem Gangadharan e Cameron. “Do mesmo modo, níveis baixos de confiança podem impactar na capacidade dos indivíduos de negociar e trabalhar de forma cooperativa com os outros”, completam.
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