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Um abismo social barra a igualdade

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postado em 14/05/2013 11:24 / atualizado em 14/05/2013 11:26

Grasielle Castro /Correio Braziliense

Uma abolição incompleta. Os indicadores sociais brasileiros comprovam que os negros são mais mal assistidos que a população branca. A população negra têm 1,6 ano de estudo a menos que a branca; representa 65,1% das vítimas de homicídios; e sustenta taxa de mortalidade infantil 60% maior que a da  população branca.

“Hoje, o negro não tem como não se revoltar. É fato que deram mais oportunidades ao filho do imigrante italiano, que era tão pobre quanto seus antepassados, do que deram para ele”, compara o historiador Bruno de Cerqueira, da Unicamp. E ele ressalta que o racismo nunca foi tão cruel quanto na República Velha, depois da queda da monarquia. “Não havia código negro, como em outros países, mas o apartheid que se faz de forma institucional é ainda melhor do que aquele não declarado. O que se fez com os negros aqui foi, simplesmente, não dar oportunidades, deixá-los à margem, nas posições menos qualificadas.”

A ideia de inferioridade determinada pela cor da pele só foi questionada abertamente em 1932, com a publicação de Casa Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre. “A sociedade brasileira é racializada. Quando o negro aparece em um restaurante de melhor nível, todos olham com surpresa. Isso é um fato”, assegura Carlos Sant’Anna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.
Colaborou Renata Mariz

O PAÍS EM 2013

População
190,7 milhões

Expectativa de vida
74 anos

Analfabetos
8,6%*

Unidades da Federação
27

Sistema político
República federativa presidencialista

* população acima de 15 anos

Memórias da infância
Aqueles dias que antecederam a abolição da escravatura parecem, hoje, apenas registros dos livros de história. Mas pulsam vivos na memória de quem ainda guarda alguma relação com os acontecimentos da época. As irmãs Maria das Dores Andrade, de 97 anos, e Dalva do Nascimento, 94, são descendentes de quem viveu aquele período. “Quando nós nascemos, a escravidão já tinha sido abolida, mas, até hoje, eu me pergunto se foi abolida mesmo”, questiona Maria. “É claro que o progresso veio e muita coisa mudou, o país está mais humano, mas ainda sinto que as coisas precisam continuar mudando.”

Da família de oito irmãos, só elas estão vivas. Acreditam que os antepassados vieram do Congo e de Moçambique. “Nós moramos numa fazenda, em Prata, no interior de Minas. Nessa região tinha muita gente desses países. Logo depois, convivemos com árabes e italianos, que também chegaram para ajudar a construir o país”, conta Maria.

Outra lembrança da época é a diferença de tratamento dado a negros e brancos. “Diziam que o país não ia para frente porque estava cheio de negros. Mas eles precisavam de gente para trabalhar. Os negros eram muito inteligentes e trouxeram muita coisa boa para o Brasil.”

Não era fácil enfrentar o preconceito racial. Dalva lembra que, quando tinha 15 anos, participou de um concurso na escola. Quem tivesse o melhor desempenho ia coroar Maria em uma cerimônia religiosa: “Eu tive a melhor nota. Quando a diretora comprou as coisas para me vestir de anjo, falaram: ‘você está doida, já viu anjo negro?’” Dalva ficou revoltada. “Fui à igreja, e o cônego me disse que anjo não tinha cor. Conversou com as pessoas que reclamaram e eu acabei sendo o anjo. Esse tipo de coisa acontecia”, lembra.
(GC e RM)

Bibliografia: A abolição no Parlamento — 65 anos de lutas (volumes I e II); Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre; D. Pedro II, de José Murilo de Carvalho; Imperador Cidadão, de Roderick J. Barman; O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco; O Castelo de Papel, de Mary Del Priore; O Eclipse do Abolicionismo, de Joaquim Nabuco; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Visões da Liberdade, Sidney Chalhoub. Arquivos do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, do Museu Imperial e da Biblioteca Nacional Digital do Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada // Especialistas consultados: Arethuza Helena Zero, doutora em desenvolvimento econômico e autora da tese Escravidão e Liberdade: as alforrias em Campinas no Século XIX, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Bruno de Cerqueira, historiador, fundador e gestor do Instituto Cultural D. Isabel I — A Redentora; Carlos Sant’Anna Guimarães; pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco; Diva do Couto Gontijo Muniz, professora doutora da Universidade de Brasília especialista em Brasil Império; Marcos Magalhães, professor doutor em história colonial do Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília e consultor legislativo do Senado.
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