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"E agora?" ou "É agora"

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postado em 18/06/2013 19:22 / atualizado em 18/06/2013 19:28

O que quer a multidão que saiu às ruas, sem liderança, sem bandeiras claras? Os cartazes carregados por eles dão algumas pistas...

Os gritos animados de “é só o começo!” ainda ecoam nos meus ouvidos. Ainda meio atordoada com o movimento inesperado das ruas e acreditando na disposição dos que bradam que só está começando, pergunto-me: É só o começo de quê? Há dias me questiono: para onde vai essa história?

Algumas características dessa multidão meio sem forma que tomou as ruas brasileiras podem ser percebidas se olharmos um pouco mais perto as manifestações. Acompanhei os manifestantes em São Paulo e uma das coisas que observei, em meio à multidão, na última segunda-feira, foi que a qualquer movimentação mais agressiva de algum participante, o grupo gritava: “Sem depredar!!!”, preocupado com o que havia acontecido em outras manifestações e tentando evitar que se repetisse. Outro pedido constante: “Sem partidos!” era ouvido sempre que as bandeiras de tradicionais partidos políticos de esquerda (como PSOL e PSTU) eram erguidas.

A juventude sem partido é também a juventude sem bandeiras. Ou com muitas bandeiras. Ou melhor, com cartazes nas mãos – vi centenas deles – escritos com a velha técnica cartolina /canetão, que tanto ajudou nossos pais, e os avós deles, nas manifestações pró-democracia. Mídia rápida, barata, que passa longe da tecnologia, e que permite gritar o que se queira e mudar de demanda quando se bem entender. Cartazes são leves, podem ser escritos na hora, podem ser compartilhados, transmitem mensagens instantâneas, para quem está perto e também para quem está fotografando. A tecnologia das redes sociais ajuda a reproduzir o que foi escrito no papel. Uma análise geral desses cartazes ajuda a entender um pouco do que está acontecendo:

- “Justiça!”; “Liberdade aos manifestantes presos”; “Fora Feliciano”; “Fora Alckmin”; “Fora Dilma”; “Fora Haddad”; “Não a Belo Monte”; “Educação para todos”; “Fim da corrupção”; “Abaixo a repressão”; “Não pagaremos mais R$0,20”; “Não é só por R$0,20”! Esses foram alguns dos cartazes que vi nas mãos dos manifestantes, havia dezenas, centenas de outros com as demandas mais variadas. Essa quantidade de reivindicações mostra uma insatisfação geral, não focada, de uma geração que parece ter suportado todo tipo de incômodo calada, protegida do mundo real atrás das telas de computadores e que agora parece ter percebido a força que a presença física e a multidão têm. E isso dá gancho para entendermos mais alguns cartazes que encontrei por lá.

- Havia um grupo de manifestantes que apontava para a própria participação no ato: “Saí do Facebook”; “Verás que um filho teu não foge à luta”; “O gigante acordou”. Gritos de uma geração acusada de ser omissa, acomodada, alienada. E que, agora, resolveu se mostrar e mostrar que está se mostrando. Seriam alienados ou seriam superprotegidos? Meninos de classe média, “criados com leite A”, que não teriam nenhum motivo para protestar, como diria Arnaldo Jabor, antes de pedir desculpas e reconhecer que errou. “Rebeldes sem causa”. Não teriam causas mesmo? Ou será que nós, já mais velhos e que tanto defendemos o direito de ir às ruas protestar, os educamos para que não tivessem motivos – ou achassem que não têm? Entendo a surpresa de quem, como Jabor, num primeiro momento, não compreendeu o que eles estavam fazendo e porque estavam fazendo. Fomos todos surpreendidos! Eles não estavam alheios, embora pudessem, eles mesmos, acreditar que estivessem. Uma das minhas ex-alunas, hoje uma jovem jornalista, me escreveu “É difícil livrar-se de um estereótipo imposto... Cresci (crescemos) ouvindo que os jovens de hoje são despolitizados, apáticos”. Eles querem mostrar que não são e esses cartazes apontam para isso. A “geração leite A” viveu protegida demais do mundo e isso nos leva para um terceiro grupo de cartazes.

- Um dos slogans dessas manifestações é “vem pra rua!”. Ele é curioso, já parte de uma inversão, pois surgiu de uma campanha feita pela FIAT para a Copa das Confederações que convoca a participação do povo na festa e afirma: “Vem pra rua porque a rua é a maior arquibancada do Brasil”. O “vem pra rua”, assim transformado, assusta os organizadores da própria competição esportiva. Porque eles, os manifestantes, não querem ir para a rua e ficar na arquibancada. Eles querem a rua como palco. O “vem pra rua” que foi transformado em hashtag nas redes sociais e aparecia em grande quantidade nos cartazes, fazia um convite inusitado, vindo de quem veio. Historicamente, a ocupação do espaço público foi um dos grandes impulsos / impulsionadores do homem moderno. O moderno era o homem que queria ver e ser visto, circular pelo espaço público, “estar entre”.

Com o passar do tempo, sobretudo a partir do final do Séc. XX, a rua que atraia passou a expulsar. Os excessos da modernidade (barulhos, poluição, gente, violência, movimento) fizeram com que esse mesmo homem se afastasse do espaço antes ocupado por ele.

Em grandes cidades, como São Paulo, fomos criando bolhas de segurança e passamos a viver dentro delas, buscando um certo isolamento do ambiente que tanto nos atraia no passado. Bolhas-carros, bolhas-condomínios, bolhas-shopping centers. Bolhas que nos deram certa segurança artificial e que, como consequência, nos fizeram abandonar o nosso espaço público, o espaço público que ajudou a criar o que somos hoje.

A geração que hoje convida: “Vem pra rua” e que não aceita o “vocês não podem estar aí” é exatamente a geração criada em bolhas. Eles quiseram tomar a rua da qual sempre foram protegidos. Eles estouraram a bolha.

A análise dos cartazes e dos gritos entoados nas manifestações das últimas semanas ajuda a entender um pouco o cenário. Mas não permite perceber o que vai acontecer agora. Uma força enorme, sem lideranças, sem bandeiras claras é também uma força suscetível a virar massa de manobra ou a ser convencida por líderes de todo tipo. Pode apagar-se, exatamente por falta de foco ou porque acabou a graça da novidade. Ou pode significar mudança. Talvez as mudanças de que tanto precisamos. Vou continuar de olho na rua para tentar entender um caminho que me parece cheio de riscos, mas também de possibilidades. Por enquanto, estou entre o “E agora?” e o “É agora?”

Artigo escrito por Denise Paiero, jornalista e professora de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. É autora da dissertação de mestrado "O protesto como mídia, na mídia e para a mídia: a visibilidade da reivindicação", da tese de doutorado "Mídia e terror: a construção da imagem do terrorismo pelo jornalismo" e do livro-reportagem "Foices & Sabres: A história de uma ocupação dos sem-terra".

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