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Ciência

Duas novas espécies de aracnídeos no país

Os animais foram encontrados por pesquisadores brasileiros no Ceará e no Rio Grande do Norte. O achado está descrito em artigo na revista Plos One

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postado em 25/06/2013 19:00 / atualizado em 25/06/2013 11:35


Adalberto dos Santos, um dos responsáveis pela descrição das espécies: dados disponíveis para que outros pesquisadores estudem os animais (Edésio Ferreira/EM/D.A Press) 
Adalberto dos Santos, um dos responsáveis pela descrição das espécies: dados disponíveis para que outros pesquisadores estudem os animais



 (Plos One/Adalberto dos Santos/Divulgação) 

Exemplares de Rowlandius ubajara (acima) e Rowlandius potiguar (abaixo) foram encontrados em cavernas: a primeira, na Mata Atlântica cearense, e a outra, na caatinga do Rio Grande do Norte
 (Plos One/Adalberto dos Santos/Divulgação) 


Belo Horizonte — Embora muita gente não dê a importância devida aos artrópodes, eles estão intimamente ligados à existência do homem, por exemplo, interferindo no equilíbrio ecológico, transmitindo doenças ou influenciando as lavouras. Integrantes do filo de animais invertebrados que engloba insetos, aracnídeos e crustáceos, entre outros, eles se apresentam em grande variedade, incluindo inúmeros ainda não descritos pela ciência. Foi pensando em conhecer cada vez mais sobre esse rico grupo de animais que uma equipe formada por três pesquisadores brasileiros partiu para mapear a fauna subterrânea da caatinga brasileira. No estudo, o grupo se deparou com duas novas espécies de aracnídeos: a Rowlandius ubajara e a Rowlandius potiguar.

Enquanto a primeira foi encontrada no Parque Nacional Ubajara, no Ceará, e vive em regiões de cavernas de uma área remanescente de Mata Atlântica; a outra foi descoberta em uma região de caatinga no Rio Grande do Norte e, por isso, a denominação “potiguar”. Os novos animais foram localizados pelo especialista em biologia subterrânea Rodrigo Lopes Ferreira, pesquisador da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, e responsável por colher os espécimes.
Já há algum tempo, Ferreira desenvolve esse estudo. Ele fazia um mapeamento da fauna da caatinga brasileira quando se deparou com os espécimes. “O curioso é que eles são mais comuns na Amazônia e no Caribe, mas são raros e pouco estudados. O inesperado foi se deparar com eles em plena caatinga do Brasil”, observa o pesquisador, que chegou a descobrir outras espécies na região que ainda serão descritas.

O biólogo ressalta a importância de se encontrar espécies dentro de cavernas, pois ajuda a chamar a atenção para um patrimônio que está sendo ameaçado. “Até 2008, as cavidades naturais eram protegidas por lei pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e não podiam ser destruídas. Mas, hoje, isso mudou e foi, inclusive, permitida a mineração nessas áreas, o que pode gerar impactos ambientais e afetar essa fauna”, frisa.
Logo que detectou os aracnídeos, Ferreira contatou o professor de zoologia Adalberto José dos Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que ficou responsável pela descrição das novas espécies. Os autores — que incluem ainda o especialista em variações morfológicas (da forma) entre artrópodes machos Bruno Alves Buzatto — relataram o achado na revista científica Plos One. Com a descoberta, sobe para quatro o número de aracnídeos escavadores descritos no Brasil até agora, e para 25 os conhecidos em toda a América do Sul.

O professor Adalberto dos Santos explica que várias imagens e uma amostra desses pequenos animais foram enviadas para a UFMG e, assim, foi possível classificá-los e compará-los com a descrição de outros bichos. “As novas espécies foram descritas a partir de características microscópicas de seus genitais, que os diferencia de outros animais do mesmo gênero. Ainda há muitas informações a serem descobertas, mas já constatamos algumas, e os animais estão à disposição de qualquer estudioso para pesquisa”, diz.
 
Sem veneno


Segundo Santos, a Rowlandius ubajara e a Rowlandius potiguar são muito semelhantes e se diferem basicamente por sua ocorrência. A fêmea das duas espécies é maior e mede cerca de 4mm. Já o macho mede entre 2mm e 3mm. Um dado importante é que esses aracnídeos são escavadores e parentes de escorpiões, aranhas e carrapatos, mas não são venenosos. “Eles soltam uma substância que é uma secreção defensiva e tem ácido acético na sua constituição, um cheiro que lembra vinagre. Mas é pouco perceptível e não causa nenhum dano ao homem. Mas pode ser nocivo a alguma presa ou predador”, acrescenta o pesquisador. Ainda de acordo com ele, esses aracnídeos se alimentam de sementes depositadas nas cavernas e de outros pequenos insetos que são atraídos pelo guano, nome dado às fezes de morcegos quando se acumulam.

O professor diz ainda que a descrição acrescenta componentes até agora desconhecidos à já rica biodiversidade brasileira e mostra o país como hábitat de espécies que são mais comuns no Caribe e em áreas tropicais da América Central e do Norte. “No geral, é feito mais estardalhaço quando se descobre uma espécie de vertebrado, como um mamífero ou ave. No caso dos artrópodes não é bem assim. A gente não conhece a maioria deles. Nosso conhecimento é muito pequeno. Faltam dados e gente para gerar informação. E eles estão muito mais presentes na nossa vida do que imaginamos. Podem transmitir doenças, pragas na agricultura, por exemplo. Cada vez que descobrimos uma espécie nova, nossa ignorância diminui”, justifica.


Machos diferentes


Um dos participantes do estudo, o biólogo paulista Bruno Alves Buzatto, que atualmente trabalha como pesquisador da University of Western Australia (UWA), em Perth, ficou responsável por analisar o chamado dimorfismo entre machos em uma das novas espécies descritas. Ele explica que isso ocorre quando alguma característica dos machos varia em tamanho de maneira que existem duas categorias de macho. “É como se, no ser humano, existissem naturalmente homens com braços muito longos e homens com braços muito curtos, com poucos ou nenhum homem de braços de tamanho intermediário. Algo mais ou menos assim acontece nesses aracnídeos. Há machos com pedipalpos longos e machos com pedipalpos curtos”, esclarece.

Os pedipalpos são apêndices que ficam próximos à boca do animal. Em aracnídeos, eles podem ser usados para capturar alimento, segurar a fêmea durante o acasalamento e para brigar. “Não sabemos muito bem o que os Schizomida fazem com os seus pedipalpos alongados, mas talvez os machos com essa característica os utilizem para brigar com outros machos, enquanto aqueles com pedipalpos pequenos não briguem, mas utilizem alguma outra estratégia não territorial para atrair fêmeas. Tudo isso é especulação, mas é interessante descobrir o dimorfismo nesses animais”, ressalta. (ACB)
Recém-descoberto e já ameaçado


Coendou speratus: hábitat vulnerável ameaça sobrevivência da espécie (Antônio Rossano Mendes Pontes/UFPE/Divulgação) 
Coendou speratus: hábitat vulnerável ameaça sobrevivência da espécie


Mal foi apresentada à comunidade científica, há cerca de um mês, uma espécie de porco-espinho, a Coendou speratus, que tem no nome a palavra esperança em latim, já está praticamente ameaçado. O simpático animal vive em uma área remanescente da Mata Atlântica nordestina, onde há evidências de que muitas espécies estão desaparecendo antes mesmo de terem sido descritas pela ciência.
O estudo envolveu a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), sob liderança do professor Antônio Rossano Mendes Pontes, da UFPE. Segundo o pesquisador, mais de 50% dos mamíferos de grande porte, como onças e antas, estão extintos regionalmente, e qualquer animal de médio e grande porte na Mata Atlântica do Nordeste corre o risco de desaparecer, pois os fragmentos de mata são muito pequenos, têm características de borda, são isolados uns dos outros e não têm a estrutura suficiente para manter a comunidade biológica original.

De acordo com Rossano, os mamíferos remanescentes se distribuem de forma irregular e imprevisível no que resta dessa floresta. No caso do novo porco-espinho, ele foi encontrado depois que os pesquisadores fizeram o levantamento de cerca de 33 fragmentos de floresta, entre os estados de Pernambuco e Alagoas. Um pequeno grupo de cinco indivíduos foi avistado na Usina Trapiche, propriedade particular localizada no sul pernambucano que realiza um programa de restauração de suas matas e tem importantes fragmentos de floresta. O Coendou speratus tem hábitos noturnos, é predador de frutos e ocorre na mesma região em que há outro tipo de porco-espinho, mas um pouco maior, o Coendou prehensilis, mais conhecido como ouriço-caixeiro.

A descoberta fez parte de um estudo de cinco anos que contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo e da organização não governamental Conservação Internacional. (ACB)
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