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Linguagem secreta de amor

Antropóloga brasileira pesquisa dicionários do século 19 que dão significados às flores. As publicações eram usadas nas relações afetivas como um código de sigilo amoroso » Luciane Evans

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postado em 11/12/2013 14:00

Luciane Evans

 

Belo Horizonte — Da mulher que não pode se render àquela paixão, um botão de rosa-de-jericó. Para aquelas com peso na alma, um malmequer no cabelo. Ao homem traído, abacate. Àquela paixão arrebatadora, botão de cravo-carmesim. Olhando assim, essa ligação entre as flores e as relações afetivas pode não fazer sentido algum para os casais do século 21, que trocam mensagens instantâneas via Whats app, Viber ou SMS, compartilham vídeos e têm em mãos a liberdade de escolha e outras facilidades para expressar os sentimentos. No entanto, no século 19, quando o modelo de família patriarcal regia namoros e casamentos, e não havia a tecnologia disponível hoje, as flores eram a linguagem secreta daqueles que viviam suas paixões em segredo.
Esse recorte romântico da história brasileira foi e ainda está sendo pesquisado pela antropóloga e pesquisadora Alessandra El Far, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP), e revela muito de uma época em que o amor se mostrava por meio da natureza, ou melhor, de frutos e flores, pano de fundo do romantismo daquela época. “Quando comecei a fazer o meu doutorado, que defendi em 2002, fui atrás das obras que as pessoas liam no século 19. Ao contrário do que o senso comum pensa, de que havia uma população analfabeta que não lia, foi uma época de muita leitura, havia um mercado editorial significante e em desenvolvimento. Lia-se Machado de Assis e Aluísio de Azevedo, por exemplo. Havia ainda o interesse por gêneros literários que não existem mais hoje, como as narrativas de sensação e romances só para homens”, conta El Far, que atualmente é professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Entre essas descobertas, a antropóloga esbarrou em um verdadeiro tesouro: os dicionários das flores. “Eram uma espécie de linguagem secreta de amor. Os nomes das flores vinham em ordem alfabética. Não há autores, e, muitas versões. Cada flor tinha o seu significado para uma relação amorosa”, destaca a pesquisadora, que, depois de defender seu doutorado sobre a leitura do século 19, se dedicou por dois anos, de 2011 a 2013, ao estudo desses dicionários em um pós-doutorado, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Segundo ela, para entender a leitura dessas obras, que eram de publicação barata, foi preciso mergulhar fundo nos registros históricos para compreender as relações daquela época. “A popularização desse tipo de publicação no século 19 no Rio de Janeiro esteve intimamente ligada ao desenvolvimento urbano da Corte. Foi nesse período que as moças, em particular as nascidas na burguesia urbana, começaram a frequentar os espaços públicos”, diz. As primeiras publicações do tipo tiveram origem na França, na mesma época. A versão mais antiga conhecida, e também a mais famosa, foi escrita por Madame Charlotte de Latour, em 1819. Várias edições foram traduzidas e adaptadas a partir dessa.

No Brasil

O formato das edições variava bastante, indo desde o mais simples, de capa brochada, contendo apenas os verbetes e que somavam 50 a 70 páginas, até o ricamente ilustrado, de luxo, que trazia, além dos significados, jogos galantes e outras linguagens secretas baseadas no uso de leques, bengalas, pedras e cores, além de poemas que versavam sobre as flores. “Os leitores eram chamados de ‘fiéis súditos de Cupido’.” Entre os dois anos de pesquisa, El Far viajou para o Rio de Janeiro e para Portugal, onde se deteve no acervo da Biblioteca Nacional do país europeu. “Descobri que havia lá diversas edições tanto cariocas quanto portuguesas.”
Durante a primeira visita àquele país, em setembro de 2011, ela apresentou um trabalho sobre os dicionários no Congresso Internacional Pluridisciplinar realizado pelo Centro de História e Teoria das Ideias da Universidade Nova de Lisboa, que discutiu os diversos usos e significados das flores nos contextos filosófico, religioso, histórico e literário. “Depois de surgir na França, a linguagem foi traduzida para o português em Portugal e, só depois, chegou ao Brasil.”
Em território nacional, esses dicionários foram adaptados às espécies brasileiras. “Chegaram aqui como flores, ervas, raízes e frutos. E foram se adaptando à nossa linguagem.” O botão de cravo-carmesim, por exemplo, tinha como mensagem “desejo ser feliz contigo”. “Se alguém enviasse um botão de rosa-encarnada, queria dizer: ‘Meus olhos veem a ti’. Flores brancas, afeição. Se enviasse cenoura, estava dizendo que toda a relação era falsa. Um abacate, por exemplo, poderia significar uma traição. Receber o fruto podia ser até uma denúncia de infidelidade”, comenta a pesquisadora.

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