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À SOMBRA DOS QUEPES »

Personagens da história

Enquanto alguns políticos se tornaram grandes lideranças, como Leonel Brizola, lutando contra o golpe de 64, outros mancharam a biografia, a exemplo de Carlos Lacerda

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postado em 24/03/2014 14:00

Renata Mariz

Radicalização tanto das forças liberais quanto das conservadoras, conspiração militar com o apoio de setores produtivos, interferência da maior potência mundial contra o governo civil e traições de última hora são ingredientes do golpe de Estado que mergulhou o país em mais de duas décadas de ditadura. Prestes a completar 50 anos, a ação militar que depôs o presidente João Goulart ainda é um capítulo da história brasileira analisada de forma diversa por pesquisadores.

O caminho tem sido, além da busca por documentos, unir a memória dos pouquíssimos personagens vivos do período ao que se sabe sobre a maioria que já morreu. Figuras que entrariam para a história como grandes lideranças políticas, a exemplo de  Tancredo Neves, ou nela seriam pouco reverenciadas, como o folclórico general Olympio Mourão Filho, que deflagrou o golpe.

A ação precipitada de Mourão, a despeito de iniciar concretamente a operação que vinha sendo gestada por setores das Forças Armadas, levanta o debate sobre o nível de organização dos militares. Professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Fico, que acaba de lançar a obra O golpe de 1964, sustenta que “havia uma articulação que incluía dinheiro e tropas norte-americanas”. “Mourão, que conspirava quase que abertamente, sendo mal-visto até pelos próprios pares, de fato se adiantou. Castello Branco inclusive liga para Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, pedindo que as tropas de Mourão fossem paradas, pois havia o temor de que Jango resistisse”, afirma Fico.

Se o apoio de Magalhães Pinto aos militares era esperado, surpreendeu a postura de um personagem crucial na decisão de Jango de não resistir. Compadre do então presidente, Amaury Kruel chefiava o importante II Exército, em São Paulo. A certeza de que podia contar com as tropas paulistas terminou com um telefonema de Kruel, em 1º de abril. O general foi incisivo. Apoiaria Jango se ele declarasse a Central Geral dos Trabalhadores (CGT) ilegal. Ouviu um não do presidente e aderiu ao golpe. “Seria um suicídio político para Jango, naquela altura do campeonato, contrariar o principal setor que o apoiava”, diz o doutor em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Versão contestada
A tese de que Kruel aderiu de última hora, entretanto, é contestada ainda hoje, o que destaca o general, falecido em 1996, como personagem controverso dos acontecimentos iniciados em 31 de março de 1964. Documentos da CIA, agência de inteligência norte-americana, mostram que o general teria se reunido bem antes, em 18 de março de 1963, em Petropólis, para planejar a derrubada de Jango.

Além disso, o coronel reformado Erimá Pinheiro Moreira, de 89 anos, relatou, em depoimento prestado à Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, em fevereiro deste ano, que Kruel recebeu malas de dinheiro, em  31 de março de 1964, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Dificilmente, esse suposto suborno, passado tanto tempo, poderá ser provado.

Outro aliado que teve a lealdade questionada à época foi o general Assis Brasil. A história, entretanto, tratou de colocar em xeque mais a sua competência do que sua fidelidade. Era responsabilidade do chefe da Casa Militar da Presidência a manutenção do chamado dispositivo militar — um grupo importante dentro das Forças Armadas que ficaria ao lado de Jango no caso de uma ameaça.

“Não havia o dispositivo como imaginava Assis Brasil, que criou muita animosidade no meio militar com gestos e promoções equivocadas. Confiar no dispositivo foi um dos maiores erros do governo João Goulart”, analisa Fico. “É difícil dizer que foi um erro de cálculo. O fato é que Jango perdeu o apoio de gente importante, como o Amaury Kruel ou Jair Dantas Ribeiro, ministro do Exército, que não se esforçou muito para fazer algo”, diz Argelina Cheibub Figueiredo, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autora da obra Democracia ou reformas? Alternativas democráticas à crise política: 1961-1964.

Sem ânimo
Nas ilhas de conspiração, um personagem-chave foi o general Castello Branco, apontado como a ponte entre os Estados Unidos e entidades como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad). As organizações, de acordo com os estudos mais aprofundados da época, foram financiadas pelo governo norte-americano para congregar empresariado e imprensa contrária ao governo Jango. Castello Branco viria a ser o primeiro de uma série de cinco presidentes que governaram o país sem o lastro do voto popular nos 21 anos seguintes.

Além de Magalhães Pinto, foram determinantes para a queda de Jango os governadores de São Paulo à época, Adhemar de Barros, e do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Esse último contava que seria alçado à Presidência após o golpe. Em defesa da permanência de Jango no poder e da legalidade, destacaram-se figuras importantes, como Tancredo Neves, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.

Dos três, Tancredo era o mais moderado na ideia de resistência ao golpe. Ao encontrar o presidente no Palácio do Planalto, convenceu-o a redigir um manifesto à população. A decisão de não enfrentar as Forças Armadas, por muitos tachada de covardia, foi uma saída refletida, analisa Maria Helena Capelato. “Como resistir, se os operários, sindicalistas, trabalhadores dispostos a lutar, não tinham sequer armas?”


Nomes do dia D
Conheça figuras importantes, dos dois lados, na sucessão de fatos decisivos para o golpe:

Conspiradores

 (O Cruzeiro) 

Olympio Mourão Filho
Conspirador contumaz a quem é atribuído o Plano Cohen, relatório falso sobre uma revolução comunista que justificou a permanência de Getúlio Vargas no poder após um golpe de Estado em 1937, o general Mourão Filho deu início, por conta própria, à movimentação das primeiras tropas rebeldes — de Juiz de Fora (MG) para o Rio de Janeiro, em 31 de março de 1964. A deflagração do golpe de maneira antecipada não foi, exatamente, uma surpresa para os conspiradores que tramavam a ação para meados de abril.

 (Polylerus/Wikimedia Commons) 

Lincoln Gordon

O embaixador norte-americano no Brasil conspirava, com os militares, desde antes do golpe. Em 1962, durante uma reunião com o então presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, Gordon fez o alerta de que João Goulart estaria entregando o país aos comunistas. Nela, ficou acertada a ajuda em dinheiro para financiar a campanha de oposicionistas nas eleições daquele ano. Gordon compartilhava com os militares brasileiros a ideia de que Jango instalaria uma república sindicalista no país, abrindo caminho para os comunistas. Garantiu a presença de tropas norte-americanas na costa brasileira em caso de resistência.

 (Cece/CB/D.A Press) 

Magalhães Pinto
Governador de Minas Gerais, o udenista se posicionou contrário ao governo de João Goulart antes mesmo da posse do então vice-presidente, após a renúncia de Jânio Quadros. Mas foi em 1963 que começou a se envolver diretamente na conspiração, ao articular com diversos generais oposicionistas. Alinhado com os EUA, Magalhães Pinto deu aval para o golpe durante uma reunião no aeroporto de Juiz de Fora, em 28 de março de 1964. Ele nomeou figuras de peso para um governo alternativo, que daria um ar de constitucionalidade à derrubada do governo.


Governistas

 (Arquivo Pessoal) 

João Goulart
Com eleições separadas para presidente e vice, a popularidade nas urnas do fazendeiro gaúcho conhecido como Jango era impressionante. Elegeu-se para vice-presidente duas vezes. Na primeira, em 1955, teve mais votos (3,5 milhões) do que o próprio presidente eleito, Juscelino Kubitscheck (3 milhões). Na segunda, em 1960, chegou à marca dos 4,5 milhões. Com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, Goulart enfrentou muitos obstáculos — incluindo a implantação do parlamentarismo no Brasil e um plebiscito — para assumir. Às vésperas do golpe, defendeu reformas de base, como distribuição de terras e estatização de empresas.

 (Arquivo/EM/D.A Press) 

Darcy Ribeiro
Chefe da Casa Civil do governo João Goulart, o antropólogo articulou uma resistência em Brasília, entre 31 de março e 1º de abril, no Teatro Nacional. As cerca de mil pessoas, entretanto, nem armas tinham para uma eventual luta contra as Forças Armadas. Depois de uma conversa com Jango, em 1º de abril, no Palácio do Planalto, Darcy encaminhou ao Congresso mensagem informando que o presidente tinha viajado para Porto Alegre, de onde governaria. Mesmo assim, o Senado declarou vaga a Presidência por abandono, dando posse ao presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli.

 (assisbrasil.org/Reprodução da Internet) 

Assis Brasil
Chefe da Casa Militar, o general Argemiro de Assis Brasil era responsável por articular o dispositivo militar — um grupo das Forças Armadas supostamente leal a João Goulart. O desenrolar rápido do golpe mostrou que o dispositivo havia sido mal avaliado pelo general, apontado como traidor por alguns analistas da época. Ele permaneceu, entretanto, ao lado de Jango até o exílio no Uruguai, acompanhando-o de Brasília para o Rio Grande do Sul. Em 9 de abril de 1964, teve os direitos políticos cassados e chegou a ser preso.


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Confira infográfico interativo sobre as figuras importantes, dos dois lados, na sucessão de fatos decisivos para o golpe de 1964. Reportagem de Renata Mariz e edição de Fred Bottrel e Fernando Braga.
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