A SOMBRA DOS QUEPES

Só morto deixo o Brasil

No retorno do exílio,em abril de 1967,o ex-presidente disse que nunca mais sairia do País

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postado em 24/03/2014 16:53 / atualizado em 27/03/2014 16:09

Roberto Stuckrt/O Cruzeiro-30/09/63
Ao lado de familiares, amigos e aliados, Juscelino Kubitschek esperou, em 8 de junho de 1964, em seu apartamento na Vieira Souto, no Rio de Janeiro, o anúncio da cassação de seus direitos políticos.
Amargurado confidenciou à filha,Maria Estela, diante dos convites dos embaixadores da Espanha,do Paraguai e de Portugal:“Eu, um democrata, recebo a oferta de asilo político de Francisco Franco,
Salazar e de Alfredo Stroessner”.Maria Estela estava grávida de três meses.“Naquele dia, fumei o meu primeiro cigarro”,conta ela.Para deixar o país, JK optou pelo salvo-conduto espanhol, mas se fixaria em Paris.
Em 13 de junho, o ex-presidente e a esposa,Sarah, chegaram ao aeroporto acompanhados do embaixador da Espanha, Jaime Alba Delibes, e do coronel Affonso Heliodoro.
Ambos abriam caminho em meio a uma multidão que o saudava com o Hino Nacional e o Peixe vivo.Tumulto. Oficiais da Aeronáutica arrancaram as armas.“Querem matar JK”, gritaram alguns.Um militar encostou o cano do
revólver na barriga de Maria Estela.Sarah, que subia as escadas do avião, viu a cena. Deu meia volta,dedo em riste, avisou:“Tire essa arma da barriga da minha filha.Ela está grávida!”.Foi obedecida.
O relato é de Maria Estela.“Meu pai só conheceu o neto, João César, que nasceu em dezembro,quando ele já estava com seis meses.
Eu o levei a Paris. Foi batizadolá”, conta. A notícia do nascimento do neto, que recebeu o nome do pai de JK,chegou a ele e a Sarah por telegrama enviado pelo genro,Rodrigo, em 6 de dezembro de 1964. O ex-presidente e a esposa estavam em Lisboa.


Caneta tinteiro à mão,JK escreveu à filha e ao genro:“Adistância,a saudade e a solidão agravam qualquer estado de espírito e nos torna muito emotivos.Ao recebermos em Lisboa o telegrama do Rodrigo não dissemos uma palavra. A garganta secou e só o silêncio permitiu que a emoção não transbordasse em outras manifestações”. Nessa carta, publicada por Maria Estela na obra Simples e princesa, JK agradeceu, sensibilizado, a homenagem prestada ao seu pai:“Sei que você e Rodrigo quiseram me dar nesta hora uma prova excepcional de amizade.Assim a recebi. Por isso mesmo mais sensível fiquei ao gesto de ambos. Não sei se chegamos ao fim das provações”.Juscelino pretendia retornar ao Brasil em 22 de dezembro de 1964,para passar o Natal com a família.Ele explicou à filha, Maria Estela,por que desistira.“Sua mãe pediu à Senhora de Fátima que mandasse um aviso sobre se estava certa a data escolhida. Ao voltar a Lisboa,surgiu a história dos astrólogos.Foram tão persuasivos que a eles se renderam todos (...) Fizeram um cerco em torno de mim”, escreveu. Além da“astrologia”, JK havia tido informações, dias antes, de que nem ele nem Juan Domingos Péron,presidente argentino exilado em 1955,também afastado por golpe militar, entrariam na América Latina.“A notícia provinha de fontes muito seguras. A questão com o ditador argentino explodiu exatamente no instante em que os astrólogos sustentavam a tese do adiamento. Consequência: sua mãe meteu os pés no chão e não aceitou mais conversa.” JK prosseguiu na carta ironizando a interferência“esotérica”na decisão de adiar o retorno ao país:“Demos um rápido recuo para alguns milênios atrás, à época em que Alexandre deixava a Macedônia e por mares incertos efrágeis embarcações ia ouvir o oráculo de Delfos. Concordei, agora.É a última transigência”.
 
ACUSAÇÕES

JK ainda precisava se defender das acusações de Carlos Lacerda de que seria“a sétima fortuna” do mundo. Levava vida modesta em Paris, instalado num pequeno apartamento de dois quartos no Boulevard Lannes,n°65.Em cartas confidenciais dirigidas aos deputados Carlos Murilo e Renato Azeredo naquele ano, publicadas por Serafim Jardim na obra JK, onde está a verdade?,o ex-presidente tentava articular um movimento dereparação histórica, tentando restaurar a verdade sobre a sua situação financeira e sua conduta como homem público.Os tempos, entretanto, cada vez se tornariam mais difíceis. A expectativa manifestada por JK em carta só agora publicada aos seus compadres Joaquim e Bertha Mendes de Sousa,“de que o Natal de 1964 seria o último longe do Brasil, encerrando o seu inferno astral”, não se concretizou. O exílio de JK terminou em 9 de abril de 1967, durante o governo de Costa e Silva.“Só morto deixo o Brasil outra vez”, afirmou, ao desembarcar no Rio. O ex-presidente morreu em agosto de 1976, num acidente de carro naVia Dutra, até hoje envolto em polêmica.

MARCHA FRACASSA NO PÁIS

Mariana Topfstedt/sigmapress/folhapress
Janine Moraes/CB/D.A Press
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, convocada como uma reedição da passeata que legitimou o golpe de Estado em 1964, dando
início ao regime militar, ocorreu de forma esvaziada em várias capitais do país. Em São Paulo (acima), com expectativa de reunir 5 mil pessoas, o ato na cidade de origem do movimento contou com 500 participantes. Um senhor chegou a usar uma bengala contra um fotógrafo que cobria o ato.Ao mesmo tempo, cerca de 800 pessoas se juntaram para a Marcha Antifascista, em oposição ao primeiro movimento. Em Brasília (abaixo), um grupo de 30 pessoas caminhou embaixo de chuva pelo Setor Militar Urbano cantando contra a “ameaça comunista”. Para os presentes, a chuva justificou a baixa adesão. Na área da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, a Marcha da Família teve momentos de tensão, quando 150 pessoas que apoiam a intervenção militar no país se encontraram com 50 integrantes de movimentos sociais contrários.
 

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