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Lembranças da periferia do DF

depois de 50 anos, Moradores de lugares fora do plano piloto falam sobre como a ditadura chegou até eles. o medo da violência policial não era o pior: a miséria e a falta de segurança ocupavam o dia a dia

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postado em 27/03/2014 15:43 / atualizado em 27/03/2014 16:02

Rodolfo Costa

O período em torno do golpe militar de 1964 foi marcado por um processo de evolução, que tirou o país de uma crise econômica, que vinha com altos índices de inflação e baixo crescimento. Em contrapartida, também trouxe uma época de repressão e censura, que culminou em prisões, exílios e até mortes de rebeldes políticos. Foi um ano marcante para toda uma geração, os “filhos do golpe”, pessoas que em 2014 também completam meio século. Entre os que mais sofreram com a ditadura, está a classe menos abastada — distante do crescimento financeiro e perto da violência.

“Lembro que eu morava em um barraco de madeira, feito de restos de construções. Era tudo muito precário: passei três anos sem acesso a energia elétrica e a água potável. A água que chegava vinha de carros-pipa. Para buscar, andávamos algo em torno de dois quilômetros com baldes e latas”, relata a servidora pública Marta Maria Pereira, 49 anos, à época com 7 anos, filha de José Cosme, um carpinteiro que trabalhou na construção de Brasília.

Natural de Boqueirão (PB), ela morava com o pai, a mãe e três irmãs na antiga Vila do Iapi, que ficava próxima ao Núcleo Bandeirante. Em setembro de 1971, a família de Marta e tantas outras foram removidas para Ceilândia. “Eu lembro que tinha muito mato, poeira, cobras e outros animais. Tinha muito toco de madeira no chão. Como andava bastante, ficava sempre com os dedos feridos. Estranhei bastante porque vim de uma cidade que já tinha uma certa urbanização e me deparei com redemoinhos de areia”, conta Marta, que nasceu em 4 de julho de 1964.

Apesar de não ter sofrido diretamente a repressão militar, para Marta, o sentimento não era muito diferente de estar dentro de uma prisão. “Meu pai me alertava bastante sobre os militares desde criança, mas nunca me atentei para isso. Foi na adolescência que eu fui ter ideia do que realmente significava o período em que eu vivia. Eu me sentia presa, como um passarinho enjaulado. Nem sonhava em me expressar. Agora, eu posso falar o que quero, e digo que não gosto da política que se faz neste país”, diz.

“Para os filhos dos candangos, a ditadura simbolizou um processo de consolidação da exclusão social”, afirma o jornalista Edson Beú, autor do livro Os filhos dos candangos: Brasília sob o olhar da periferia. Ele diz que muitos operários saíram do Nordeste brasileiro abandonando o permanente flagelo da seca e o desemprego para vir trabalhar na construção da capital federal. Em meio ao cerrado, a cidade foi levantada e tudo era motivo de orgulho e sucesso pela conquista. Mas o problema viria a seguir.

Beú conta que havia um discurso oficial pelo reconhecimento do trabalho dos operários. “O governo começou a adotar um discurso de louvação aos candangos, de tal forma que eles também se sentiram donos das terras. No entanto, eles não faziam parte do programa de moradia e, portanto, não teriam direito a áreas no Plano Piloto”, explica. O golpe de misericórdia veio com o golpe militar “João Goulart foi deposto e Juscelino, exilado. Isso deixou os candangos órfãos de pai e mãe. A esperança de adquirir moradia no Plano Piloto ou próximo do centro foi por terra”, emenda.

Para ele, os militares tiveram uma grande preocupação estética, e não social. Além do deslocamento para as regiões periféricas, as famílias sofreram com outros problemas. “A pobreza atrai a violência. Pessoas foram criadas em um ambiente muito hostil e violento, socialmente degradável e marginalizado. Os próprios moradores de Ceilândia eram discriminados. Os pais das crianças dificilmente conseguiam emprego no Plano Piloto. Essa exclusão acabava causando um efeito dominó, que atingia os filhos”, pondera.

Partilha
Apesar de não ter passado fome na infância, Marta lembra que a receita dos pais para sustentar a família era na base da partilha. “Um pão alimentava três bocas. Mal tínhamos condições de colocar comida na mesa”, diz. Do pouco que a família tinha à disposição, ainda tinha um cuidado especial para não ser furtado. “Minha mãe trancava a barraca do jeito que dava quando saía. Não tínhamos dinheiro para construir muro, era tudo a céu aberto, sem nada. Eu mesmo não observava muita polícia na rua. Cada um era dono da sua própria vida e tinha que procurar sobreviver”, conta.

"Foi na adolescência que eu fui ter ideia do realmente significava o período em que eu vivia. Eu me sentia presa, como um passarinho enjaulado. Nem sonhava em me expressar”
Marta Maria Pereira, servidora pública

"João Goulart foi deposto e Juscelino, exilado. Isso deixou os candangos órfãos de pai e mãe. A esperança de adquirir moradia no Plano Piloto ou próximo do centro foi por terra”
Edson Beú, jornalista

Remoção de invasões
Em 14 de abril de 1964, o Correio deixava clara a preocupação do governo com a situação de algumas moradias. Com o título “Vila Planalto e invasões do Iapi continuam enfeiando a capital. Urge transferência para cidade satélite”. À época, a Vila Planalto, destinada a acampamentos provisórios de funcionários, não fazia parte do plano urbanístico. A sujeira e os barracos no local “desafiavam” as autoridades. Já a Vila Iapi era considerada um problema até mais grave, porque grileiros vendiam ou alugavam terrenos para retirantes. Começava, então, o serviço de Remoção de Invasões, como ficou conhecido.

Sofrimento e aprendizado


Dom Bosco não foi o único que sonhou com a construção de Brasília. “Minha mãe sonhou com um lugar novo, descampado e poeirento em que ela poderia prosperar. Quando Juscelino anunciou a capital, ela se lembrou do sonho e disse que cresceria nessa cidade. Meu pai veio sozinho, ainda no início de 1964, e viu que, até então, era um canteiro de obras. Não quis trazer os parentes para sofrer em meio ao barro”, afirma a servidora Rosane Francina Ribeiro Gonçalves, 50 anos, nascida em Goiânia, em 21 de fevereiro.

A família veio mais tarde. Primeiro, eles moraram em um quartinho erguido onde hoje ficam as quadras 900 da Asa Norte. Depois, foram para uma chácara no Guará, local em que Rosane vive até hoje. “Como toda criança, brincava de muitas coisas”, comenta. Mesmo as dificuldades da época eram superadas. “Não me importava muito com a situação. Minha adolescência é que foi horrível. Não tinha energia, telefone, contato com os amigos”, lamenta. Ela se lembra que, diferentemente da atualidade, o consumo era mais restrito. “Levar para casa frutas, verduras, roupas e calçados custava caro. Fora itens básicos, quase tudo era de difícil acesso.”

Dificuldades

Filho de pioneiros operários, o servidor público José Anselmo Coelho de Oliveira, 50, nascido em 19 de março, se deparou logo cedo com as dificuldades da vida. “Aos 16 anos, comecei a vender jornal. Depois disso, vendi pastel, picolé e fui engraxate. Morávamos em uma casa de madeira e até o barraco era alugado”, conta ele, que nasceu em Taguatinga e até hoje mora na região. Mesmo com o fim da ditadura, em 1985, Anselmo acredita ainda existir uma certa censura política. “Houve épocas em que os próprios servidores eram discriminados por falar mal do governo, de algum partido ou outro em um órgão público. Mas imagino que até hoje ainda há determinadas restrições”, pondera.

O sentimento de gratidão pela família também é uma característica da geração. “Agradeço muito aos meus pais por ser quem eu sou hoje. Desde cedo, com 9 anos, me ensinaram a varrer e a limpar a casa”, lembra Anselmo. “Posso dizer, com muito orgulho, que tenho história e tenho como provar o que foi bom e o que foi ruim. Na nossa época, não tinha os mesmos programas do governo de hoje. Tínhamos que lutar e correr atrás do nosso futuro. Tomo como exemplo a vida que tive, o que comia e não comia”, orgulha-se Rosane.
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