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O único exilado do futebol brasileiro

Ideais políticos e barba e cabelo por fazer levaram Afonsinho, meia do Botafogo, a sonhar com a Seleção, mas acabar no Olaria. durante o regime militar, ele se tornaria o primeiro jogador a conseguir passe livre

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postado em 01/04/2014 16:00 / atualizado em 01/04/2014 11:17

Braitner Moreira , Gustavo Marcondes

Dirigentes do Botafogo se reuniram com Afonsinho para exigir barba e cabelos aparados: desobediência culminou no exílio profissional (Arquivo Pessoal ) 
Dirigentes do Botafogo se reuniram com Afonsinho para exigir barba e cabelos aparados: desobediência culminou no exílio profissional


O regime militar não dispensou aos esportistas a mesma patrulha com a qual conviveram artistas, intelectuais e políticos de oposição. Nos anos de exceção, havia pouco espaço para debates sociais dentro dos clubes, e as manifestações públicas dos principais ídolos do esporte — quando existiam — serviam apenas para consolidar os ideais da ditadura. Poucos tiveram coragem de se indispor contra o sistema. E o primeiro a afrontá-lo viu sua carreira redimensionada para sempre. O meia Afonsinho, cotado para a Seleção Brasileira, foi parar no Olaria por causa de seus ideais po
líticos.
Em 1970, aos 22 anos, o então meia do Botafogo começava a flertar com uma vaga na Seleção. Com seis títulos no currículo, a faixa de capitão em algumas partidas e uma técnica acima da média, Afonsinho tinha quase tudo para se tornar um dos principais jogadores do Brasil. Faltou-lhe a submissão. A barba e o cabelo cheios, em homenagem aos ícones comunistas, ajudaram a minar a relação dele com os dirigentes do Botafogo. Acusado de não se enquadrar no regime disciplinar do clube, acabou emprestado ao Olaria para que tivesse tempo de rever os próprios conceitos. “Alguns diziam que era bom que eu saísse, seria uma forma de me enterrar vivo. Uma forma de me exilar”, recorda, em entrevista ao Correio.

Naqueles anos, bastava a Afonsinho atravessar uma rua para entrar no Estádio de General Severiano para treinar ou jogar com o Botafogo. Os seis meses de exílio no time do subúrbio, enfrentados diariamente no banco dianteiro de um Fusca, fizeram com que o atleta repensasse a continuidade da carreira no futebol. “Só aceitei porque isso me daria um dinheirinho extra para que eu pudesse me formar em medicina, mas, no fim, foi bom. No Olaria, eu renasci”, analisa.

As boas apresentações fizeram com que o Botafogo lhe chamasse de volta, ainda em 1970. O retorno, contudo, durou apenas um treino: Afonsinho compareceu com a mesma barba e o mesmo cabelo de antes. “Ele estava avisado de que seria proibido de treinar com essa barba”, disse Zagallo, treinador do alvinegro, ao afastá-lo pela segunda vez em menos de um ano. “Por mim, paro com o futebol imediatamente”, rebateu o atleta, naquele dia. Não cumpriu a promessa e, por isso, entrou para a história do futebol brasileiro.

Passe livre
Vinculado ao Botafogo, mas sem poder jogar pelo clube, Afonsinho deixou de receber salários. Neste momento, decidiu recorrer aos tribunais para conquistar o passe livre, libertando-se de graça do alvinegro para procurar outro clube. Com isso, e para evitar o risco de se tornar refém dos dirigentes, tornou-se o primeiro atleta independente de uma equipe de futebol, alugando o passe para Vasco, Santos, Flamengo e Fluminense.

“No meio da ditadura militar, ter conseguido levar minha carreira até o fim desse jeito, jogando em grandes equipes até os 35 anos, era inimaginável. Eu estava sozinho na minha época, mas, mesmo assim, consegui mexer na estrutura”, comemora Afonsinho, satisfeito das escolhas que tomou durante a carreira. “A cada dia que passa, fico mais convicto de que optei pelo caminho certo. Fiz muitos amigos em áreas diferentes. O futebol é uma coisa muito fugaz. Então, se ainda sou lembrado, é porque lá atrás eu tomei uma posição”, diz.

Seguido e espionado
Um dos maiores rebeldes da história do futebol brasileiro não demorou a ter dois dossiês registrados no Serviço Nacional de Informações (SNI). “Se você falava de política e era barbudo, acabava diretamente ligado a Cuba ou a alguma guerrilha. Além da imagem, eu discutia política, algo mais consequente. A ligação era imediata, não tinha como não ser”, relembra Afonsinho.

Perseguição ao Rei


 

Por exigência de Geisel, punho erguido tirou Reinaldo da Seleção  (Arquivo EM/D.A Press ) 
Por exigência de Geisel, punho erguido tirou Reinaldo da Seleção

Um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro, Reinaldo, ídolo do Atlético-MG, foi o primeiro jogador a falar abertamente contra a ditadura. Ocorreu em 1977, quando o jornal independente Movimento publicou a entrevista com o craque sob o título “Reinaldo, bom de bola e bom de cuca”. Nela, o então centroavante da Seleção Brasileira defendeu eleições diretas, anistia aos exilados e pediu o fim do regime ditatorial. Não demoraria a sofrer retaliações.

“Na época, ninguém tinha a coragem de contestar a situação, mas, lentamente, se percebia uma abertura. Alguns setores da sociedade começavam a se posicionar para pressionar os militares”, recorda Reinaldo, hoje com 57 anos, em entrevista ao Correio. “Resolvi falar porque achei que os jogadores também deveriam opinar. O futebol sempre era considerado o ópio do povo, um instrumento da ditadura. Falei para mostrar que não era bem assim.”

Não era a primeira vez que o Rei da torcida atleticana se mostrava interessado em questões sociais. Antes, ele já comemorava os gols com o simbólico gesto do punho para o alto, ligado aos Panteras Negras dos Estados Unidos — consequentemente, contra o racismo —, mas que passava o recado de contestação ao sistema no Brasil. “Tinha a conotação racial, mas era um gesto político”, confirma Reinaldo, que faz questão de afirmar que não participava de nenhum grupo.

A liberdade tomada pelo jogador irritou os militares, personificados na figura do almirante Heleno Nunes, presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). A primeira retaliação veio na final do Campeonato Brasileiro de 1977 (ocorrida em 5 de março de 1978), quando ele foi suspenso às vésperas da final, entre Atlético e São Paulo, “por forças superiores”. O time paulista ficou com o título nos pênaltis.

Pouco depois, na despedida da Seleção para a Copa do Mundo da Argentina, Reinaldo foi levado para conversar pessoalmente com o presidente Ernesto Geisel, no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul. Recebeu o recado claro: “Vai jogar bola. Deixa que a política a gente faz”.

No primeiro jogo, porém, fez o gol do empate em 1 x 1 com a Suécia e não resistiu: punho para o alto. Só fez mais um jogo, o 0 x 0 contra a Espanha na segunda rodada. “Depois disso, o almirante Heleno Nunes foi pessoalmente à Argentina me tirar do time”, recorda.

A perseguição a Reinaldo continuou praticamente até o fim da carreira. Foi alvo de homofobia — só por ter amigos gays —, chamado de drogado e perdeu a chance de jogar a Copa de 1982, acredita, por influência política. “Mas não me arrependo de nada. Continuei participando de todas as ações em defesa da democracia que achava que deveria.”

O futebol sempre era considerado o ópio do povo, um instrumento da ditadura. Resolvi falar para mostrar ue não era bem assim”
Reinaldo, ex-atacante do Atlético-MG
Antes da abertura, a democracia

Coletivamente, o primeiro e único movimento de jogadores contra o regime militar foi a Democracia Corinthiana. Ela surgiu graças à eleição de Waldemar Pires para a presidência do clube paulista, em 1982, no lugar de Vicente Matheus. O sociólogo Adílson Monteiro Alves assumiu a diretoria de Futebol e abriu o diálogo com os jogadores. Liderados por Sócrates e Wladimir, o elenco passou a opinar sobre a gestão da equipe.

Um personagem importante para a Democracia Corinthiana foi o publicitário Washington Olivetto, responsável pelo marketing do Timão naquela gestão. Foi ele quem forjou o nome do movimento — após o jornalista Juca Kfouri perguntar se aquela era uma “democracia de corintianos” — e idealizou a marca do grupo, mesclando as logomarcas do PMDB, partido de oposição do governo, e da Coca-Cola.

“Passamos a utilizar mensagens na camisa do Corinthians para chamar a atenção da população”, explica Olivetto à reportagem. A primeira foi “dia 15 vote”, em 27 de outubro de 1982, no jogo contra o São Bento pelo Paulistão. O clube fazia, assim, um apelo aos brasileiros para que comparecessem às urnas, dali a 19 dias, para escolher os deputados estaduais. Em seguida, vieram recados como “diretas já” e “eu quero votar para presidente”.

“Aquele movimento só foi possível graças ao fato de os dirigentes terem a mesma idade e os mesmo anseios dos jogadores”, opina Olivetto. “Compartilhávamos a frustração de nunca termos votado para presidente e o fato de não gostarmos do governo militar”, diz o publicitário, ressaltando que os jogadores, principalmente Sócrates, eram a essência da Democracia Corinthiana.

Para o antropólogo José Paulo Florenzano, autor do livro A Democracia Corinthiana — práticas de liberdade no futebol brasileiro, os jogadores compartilhavam as ideias “dos movimentos dos operários do ABC paulista, dos setores progressistas da Igreja Católica e dos partidos de oposição”. “Veio em sintonia com a mobilização da sociedade brasileira pela redemocratização do país”, explica. Mas não durou para ver a abertura, já que foi esvaziada em 1984, com o fim da gestão de Waldemar Pires no Timão.

“Eu teria jogado na Seleção Brasileira se eu tivesse uma carreira comum. Mas, por ter feito as opções que fiz, isso me deixou numa situação diferente”

Afonsinho, ex-meia do Botafogo

 

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