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Juventude engajada

Os prejuízos provocados pelas falhas dos serviços públicos e a preocupação com o bem-estar do próximo estão entre os motivos que levam os mais jovens a se envolverem em ações sociais

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postado em 22/04/2014 10:39 / atualizado em 28/04/2014 11:31

Isabela de Oliveira /

Publicação: 22/04/2014 04:00

Felipe Tomasi e Gianlucca Rech promovem o Futebol Solidário.  As doações arrecadadas nas partidas vão para creches e asilos (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 
Felipe Tomasi e Gianlucca Rech promovem o Futebol Solidário. As doações arrecadadas nas partidas vão para creches e asilos

O estudante de arquitetura Felipe Fuentes acompanha o desenrolar  do PPCub, plano que determinará o futuro urbanístico da cidade (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press) 
O estudante de arquitetura Felipe Fuentes acompanha o desenrolar do PPCub, plano que determinará o futuro urbanístico da cidade

André Dutra batalha pela melhoria da saúde, da educação e do transporte públicos:  
André Dutra batalha pela melhoria da saúde, da educação e do transporte públicos: "Resolvi fazer alguma coisa ao me sentir incomodado com a qualidade deles"


Em 1984 e 1985, a participação cívica dos jovens brasileiros era notada por qualquer um que assistisse ao noticiário, lesse jornais ou escutasse rádio. Milhares ocuparam as ruas em apoio às Diretas Já, movimento civil que exigia eleições presidenciais diretas. O descontentamento também se refletia em canções de Cazuza, da Legião Urbana, entre outros grandes nomes que marcam a história com arte. Em junho de 2013, as principais capitais do país foram tomadas por um novo universo de insatisfeitos. Os governos mudaram. A tecnologia avançou. E, apesar disso, parece que uma coisa não sumiu: a vontade de mudar a realidade.

Mas o que desenvolve o senso de cidadania entre os adolescentes? Cientistas sociais tentam responder a essa pergunta desde a década de 1960, quando houve o levante da contracultura hippie nos países ocidentais. Estilo e expectativa de vida, vivências pessoais, influência dos pais e de figuras icônicas estão entre as respostas encontradas. No livro Teenage citizens: the political theories of the young (Em tradução livre, Adolescentes cidadãos: as teorias políticas dos jovens), Constance Flanagan, pesquisadora da Universidade de Wisconsin–Madison, nos Estados Unidos, investigou como os mais novos entendem o debate político e contrariou a ideia de que os direitos civis só são perseguidos por aqueles que tiveram a oportunidade de receber um alto nível de educação.

Segundo o raciocínio equivocado, esses jovens orientam-se para a liderança a partir de reflexões formais que os fazem temer pelo futuro. Malala Yousafzai e Martin Luther King, porém, não desfrutaram dessas experiências (veja quadro) e isso não os freou. Para a pesquisadora, pode ser que as experiências não institucionalizadas vividas por ambos tenham sido mais atraentes do que a educação formal. Flanagan propõe que o pensamento político é um domínio distinto e inclui compromisso conceitual, afetivo e ativo na sociedade. Há, então, uma necessidade da construção de uma conexão afetiva desses jovens com a sociedade que integram.

Felipe Burle dos Anjos, psicólogo clínico e professor do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), explica que o homem, por natureza, é um animal político. Esse traço peculiar começa a se manifestar na adolescência, quando o indivíduo adquire direitos civis plenos, além de obrigações. A parte perigosa de crescer, ressalta Burle, é a forte tendência à alienação. Estudos, preocupação com a carreira e competição acirrada, por exemplo, são ocupações que consomem muita energia e tempo. Nem sempre dá para se preocupar com coisas que estejam fora dessa bolha. “Mas o pior é o grande acesso às futilidades. Elas acabam distraindo os adolescentes das reivindicações de condições melhores”, diz o especialista. “A qualidade de vida também aumentou. Quando as condições são piores, como inflação muito alta e falta de oferta de emprego, a tendência é se mobilizar contra elas”, analisa.

Isso aconteceu com o funcionário público André Dutra, 28 anos. “Sempre fui usuário dos serviços públicos: escola, transporte e saúde. Resolvi fazer alguma coisa ao me sentir incomodado com a qualidade deles”, justifica. O início da vida cívica começou na escola, quando André foi representante de turma. Em 2009, já na universidade, deu um passo além utilizando uma das ferramentas preferidas da juventude, as redes sociais. “Comecei o movimento Fora Sarney no Twitter. Ele teve uma grande aceitação, o que foi engraçado. O Marcelo Tas retuitou a hashtag #fora sarney e a coisa tomou uma proporção grande. Eu saí para almoçar e, quando voltei e acessei meu e-mail, tinha recebido 300 mensagens de apoio”, conta. Agora, André luta pela implementação de um bilhete único para o transporte público. “Mas um de verdade, com viagens irrestritas, sem limite de horário. O governo quer integração que dure apenas duras horas e isso não é uma política pública de verdade”, critica.

Pais e filhos
As motivações dos estudantes Felipe Goulart Tomasi, 22 anos, e Gianlucca Santana Rech, 21, não estão relacionadas às falhas nos serviços públicos da cidade A interferência direta deles é pequena na vida da dupla. Nem por isso, deixam de se preocupar com o próximo. Os dois criaram, há um ano e meio, o Futebol Solidário, evento que levanta doações para creches e asilos. “Esse comportamento é uma coisa da minha família, que sempre fez ações sociais periódicas. Elas eram mais frequentes até meus 15 anos, mas, aí, deu uma parada. O Tomasi apareceu com a ideia do futebol e eu apoiei. Fazemos isso menos pelo objetivo e mais pela causa”, conta Gianlucca.

Tomasi conta que o exemplo dele também veio do berço. Além dos parentes, professores — o jovem é ex-estudante do Colégio Militar — o ajudaram a estreitar o envolvimento com o trabalho social em creches. “O retorno que temos é uma sensação indescritível, ainda mais porque o projeto envolve, além da solidariedade, a diversão com amigos e familiares. O esporte é uma boa ferramenta porque sempre atrai pessoas. Todo mundo gosta”, diz.

O psicólogo Felipe Burle dos Anjos lembra que os protestos de junho passado também tinham uma ligação com o futebol. Manifestantes foram às ruas contra a Copa do Mundo no Brasil. “O futebol é uma variação interessante por ser uma paixão nacional e um bom exemplo de uma mobilização que não acontece por si, mas pelo evento. Tanto no caso da manifestação quanto no caso dos meninos, o futebol exerceu papel central”, considera o especialista.

Quase sem querer

O estudante de arquitetura Felipe Fuentes, 24 anos, diz que o interesse pelas questões políticas surgiu quase que por acaso. A família dele nunca foi particularmente engajada e ele não é, necessariamente, influenciado pelas carências estruturais da cidade. No entanto, as políticas públicas do Distrito Federal têm o incomodado. “Eu despertei para essas coisas recentemente, e acho que elas estão me chamando de alguma forma. Antes, não tinha muito interesse (nelas)”, conta o também presidente do Centro Acadêmico do UniCeub.

 Em 25 de março, ele e mais 13 manifestantes protestaram contra o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub). Com apitos e cartazes, o grupo tentou acompanhar a votação do projeto de lei que determinará o futuro urbanístico da capital. “O povo não sabe o que está acontecendo porque esse assunto não é divulgado. Eu não votei nisso. Quem votou? Quem aprovou tanta vaga na Esplanada? Não fui eu. É um absurdo”, disse Fuentes ao Correio, no dia da votação.

 Nascido no Rio de Janeiro, o universitário mora em Brasília há 14 anos. “Foi a capital que despertou minha atenção e acendeu um brilho diferente para a arquitetura. Não me conformo nem consigo aceitar o que está acontecendo com a política daqui”, diz. O psicólogo Felipe Burle diz que a tendência é que a consciência cívica dos adolescentes aumente com o tempo — exatamente como aconteceu com Fuentes. No entanto, mesmo que adquiram visões mais críticas da realidade, nem todos se engajarão. “Muitas vezes, o acesso ao grêmio estudantil ou a outros tipos de instituições faz com que esses jovens conquistem espaços que não imaginavam antes. Existe diferença de índole, sim, e algumas pessoas têm mais tendência a se envolver com o ativismo do que outras”, analisa o especialista.

Inspirações

Malala Yousafzai
A adolescente paquistanesa desafiou o regime talibã e foi baleada aos 15 anos, na saída da escola, por defender o direito de educação às meninas. Ela foi premiada por diversas organizações — entre elas, o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, do Parlamento Europeu — e cotada para o último Prêmio Nobel da Paz. Malala nasceu em julho de 1997, em Mingora, no Paquistão, uma região em que menos de 34% das garotas vão à escola. Em 2008, o governante local emitiu uma determinação exigindo que todas as escolas interrompessem as aulas ministradas às meninas. Na época, Malala tinha 11 anos e estudava em uma escola que pertencia ao pai dela. No mesmo período, começou o blog Diário de uma estudante paquistanesa, em que, sob um pseudônimo, contava os problemas enfrentados pelo país e defendia o acesso à educação. Malala foi rapidamente identificada e passou a defender a educação feminina em público.

Isadora  Faber
Como Malala, Isadora, 14 anos, ficou conhecida nacionalmente pela página Diário de classe. A fama da estudante da Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho, que fica a 200m da casa da menina na Praia do Santinho, em Florianópolis, teve início quando ela passou a denunciar problemas da instituição de ensino na internet em julho de 2012. Ela delatou, por exemplo, a falta de conservação da quadra de esportes do colégio e contou ainda que o pintor contratado para fazer o serviço recebeu o pagamento antes de começar os reparos. As críticas foram hostilizadas, Isadora teve a casa apedrejada e até recebeu ameaças da filha do pintor. Ela chegou a registrar boletins de ocorrência na delegacia de polícia e, hoje, representa a ONG Isadora Faber, que, entre os objetivos, estão a criação de cursos para a qualificação de professores e a modernização das instituições de ensino.

Martin  Luther King
O americano de Atlanta nasceu em janeiro de 1929 e morreu assassinado em Memphis em 4 de abril de 1968. Teve uma infância comum, sem privações. Apesar da qualidade de vida, Luther King nasceu e cresceu em um país marcado pela segregação racial. Não podia, por exemplo, frequentar a mesma sala de aula que crianças brancas. Por esse e outros incidentes, começou a militar aos 14 anos. O adolescente venceu um concurso de oratória com o texto O negro e a Constituição. Durante a viagem para receber o prêmio, precisou ceder lugar a pessoas brancas no ônibus, o que atrasou a viagem em duas horas e aumentou ainda mais a motivação por uma sociedade justa. Em agosto de 1963, protagonizou um discurso histórico no Lincoln Memorial, em Washington. “Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença — nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.”

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