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Das superquadras ao Beijódromo

Brasília forjou o arquiteto dos pré-fabricados, da industrialização dos materiais. A urgência em construir a nova capital fez com que o recém-formado procurasse modos de racionalizar o canteiro de obras e surpreendesse até Juscelino Kubitschek

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postado em 22/05/2014 14:00

A notícia correu tão rápida quanto a construção de Brasília: um circo estava chegando à nova capital e, com ele, um show de striptease. Precisava-se de um músico para acompanhar a cantora Dora Lopes. Logo, alguém se lembrou: o Dr. Lelé toca acordeão! O arquiteto não se fez de rogado. Estava lá no local e hora marcados. Casa lotada — operários das construtoras desceram para a Cidade Livre. Mulher nua e, mesmo vestida, era uma raridade neste fim de mundo.

Lelé sentou-se no centro do palco. Um holofote lançou luzes sobre o músico, e a cantora começou a interpretar Babalu, inesquecível sucesso de Angela Maria. Já estava de bom tamanho para um arquiteto carioca e para os candangos nordestinos, goianos e mineiros, preponderantemente. Mas a celebridade circense queria mais. Enquanto trovejava “Babaaaluuu, Babaaaaluuuu”, ela ia tirando as peças de roupas e encenando uma sedução ao arquiteto. Sentava-se no colo dele, aproximava-se em volteios sinuosos para excitação tresloucada dos operários: “Agarra ela, doutor”, eles gritavam. No dia seguinte, todos queriam saber se, afinal, o doutor havia ficado com a cantora. “Estava completamente desmoralizado na obra.”

Esse mesmo Lelé varava noites estudando, sem luz elétrica. “Nessa época, em Brasília, não havia muita diferença entre engenheiro e arquiteto. Tínhamos de fazer o trabalho que houvesse. Levei uma porção de livros. De noite, pegava o lampião e ia estudar como era a fundação. Estudava feito um desesperado; não havia luz. Tínhamos um pequeno gerador na obra, que era apagado às 8h. Tinha de saber como era o traço do concreto, tinha de fazer as instalações elétricas. Tudo isso tinha de ser feito, senão Brasília não seria feita”, ele contou em O que é ser arquiteto (Editora Record, depoimento a Cynara Menezes).

Foi assim, por força das circunstâncias, que nasceu o mais importante arquiteto tecnológico do Brasil. Os candangos perceberam logo que havia algo diferente surgindo da terra vermelha — não era apenas mais uma das muitas obras daqueles anos 1957/1960. Juscelino ouviu o comentário: “Lá na W3 tem um arquiteto fazendo uma casa de cabeça para baixo”. Não aguentou e foi ver do que se tratava.

Naquele dia, Lelé conversava com os operários quando percebeu que todos se voltaram para quem estava às suas costas. Era o presidente da República, que visitava a casa de ponta-cabeça. Para que fosse possível prosseguir as obras, naqueles dias de chuvas torrenciais, Lelé fez a fundação e a cobertura para, depois, preencher os vazios entre uma e outra. Assim, operários, solo e material de construção estavam protegidos da chuva.

Do mesmo modo movido pela urgência, Lelé desenvolveu projetos de industrialização da madeira. “Montamos uma grande oficina de carpintaria para construir os alojamentos. Sem esquecer a intenção de fazer arquitetura também. O alojamento que construímos para a nossa equipe virou uma espécie de referência em Brasília nessa época, porque tinha um certo bom gosto. Oscar Niemeyer, quando ia lá, sempre almoçava no nosso restaurante. Foi feito com muito cuidado. Houve a intenção de fazer um mobiliário, de ser um espaço agradável, de não ser tanto aquela coisa de obra provisória”, disse a Cynara Menezes.

Brasília forjou também, ou aprimorou, o humano Lelé. “Brasília me despertou para valores que numa cidade grande não são levados em conta. As dificuldades de sobrevivência, a solidão, facilitavam as amizades. Como não havia família por perto, precisávamos de amigos. E eu tive muitos amigos.”,  lembrou ao Correio.

Talvez nenhum outro arquiteto (ou engenheiro) tenha alertado publicamente para um específico dano ambiental causado por Brasília, o gasto exorbitante com madeira. “Durante a construção da superquadra, ainda não existia nenhuma experiência sobre industrialização, e, para fazer o concreto, o desperdício de madeira era brutal. Lembro que o pinheiro do Paraná, 10 anos depois, estava praticamente extinto devido ao uso indiscriminado da madeira para fazer a forma de concreto.” Lelé tentou racionalizar o canteiro de obras, criando modelos para serem usados em todos os blocos. Afinal, lembrava, eles eram todos praticamente iguais.

Passada a inauguração de Brasília, Darcy Ribeiro convidou Lelé para dirigir o Ceplan — o Centro de Planejamento da UnB. Com Oscar Niemeyer, desenvolveu o concreto protendido usado no Minhocão. Projetou os blocos da Colina Velha, a quadra destinada a professores da universidade. Teve o esmero de desenhar até mesmo os armários dos apartamentos. Fez casas para os amigos (e também para o ministro do então SNI), e equipamentos urbanos para os moradores da cidade. Há bancos e passarelas para pedestres que são obras de Lelé.

Também na nova capital, Lelé se aproximou da arquitetura para serviços de saúde. Em 1968, projetou o Hospital Regional de Taguatinga. Em seguida, desenvolveu com o médico Aloysio Campos da Paz e o economista e engenheiro Roberto Kérstsz o que viria a se transformar na Rede Sarah. Suas duas últimas obras foram a casa do amigo Roberto Pinho e o Beijódromo de Darcy Ribeiro.

"Brasília me despertou para valores que numa cidade grande não são levados em conta. As dificuldades de sobrevivência, a solidão, facilitavam as amizades. Como não havia família por perto, precisávamos de amigos. E eu tive muitos amigos."
Lelé

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