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Vacina faz corpo reagir ao câncer de pâncreas

Cientistas dos EUA desenvolvem substância que, combinada com a quimioterapia, reforça o sistema imunológico para combater as células cancerígenas. Em teste, 66% dos pacientes foram curados

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postado em 20/06/2014 14:00 / atualizado em 20/06/2014 11:02

Bruna Sensêve

Para acabar com as células malignas, a quimioterapia precisa aniquilar também as estruturas normais que possam estar no caminho, até mesmo o sistema imunológico do paciente. Uma nova estratégia nessa guerra tem potencial de reforçar a resposta do exército de defesa em detrimento de arremessar uma “bomba de destruição geral”. Nesse sentido, a imunoterapia pode ser considerada uma das maiores promessas da medicina para o tratamento de doenças, incluindo o câncer. Mas é inócua para alguns tipos de enfermidade, como os tumores malignos no pâncreas. A falta de resposta a esse tipo de intervenção torna as opções de tratamento da grave doença restritas. Agora, uma vacina desenvolvida por pesquisadores da Escola de Medicina de Johns Hopkins, nos Estados Unidos, está prestes a mudar essa história.

A equipe liderada por Lei Zheng estudou entre 2008 e 2012 os efeitos da ação combinada de baixas doses de quimioterapia e a vacina GVAX, desenvolvida por eles. Cinquenta e nove pacientes diagnosticados com adenocarcinomas do duto pancreático (PDAC, em inglês) participaram do estudo. Eles foram divididos em três grupos. O primeiro recebeu somente a vacina, o segundo também foi medicado com uma dose única intravenosa de uma substância quimioterápica (200mg/m² de ciclofosfamida) e o último teve, além da GVAX, doses orais uma vez por dia em semana alternadas de quimioterápico (100mg de ciclofosfamida).

Aproximadamente duas semanas depois do pré-tratamento, todos os voluntários foram submetidos à cirurgia de remoção dos tumores. Dos 59, 39 permaneceram livres da doença após a cirurgia. Os tumores foram levados para análise, e os pacientes, submetidos a sessões de quimioterapia e de radioterapia contra recidiva. As avaliações laboratoriais mostraram que a combinação GVAX e quimioterapia resultou na formação de agregados linfoides dentro dos tumores de 33 dos 39 participantes curados. Os agregados linfoides são estruturas imunológicas funcionais, transformam tumores antes “não percebidos” em combatíveis. Os pesquisadores usaram para as análises comparativas amostras de tumores de 58 pacientes de outros estudos. Desses, quatro pertenciam a não vacinados e 54 foram colhidos anteriormente à imunização.

Sobrevida
Zheng analisou extensamente vários tipos de células imunes encontradas nos tumores e descobriu um crescimento da proporção de células T efectoras e células T reguladoras após o uso da vacina. Segundo o líder do time, esse aumento, além de estar associado a uma melhora na sobrevida dos pacientes, indica que os tumores se tornaram imunogênicos, isto é, as células do sistema imunológico passaram a ser capazes de combater as cancerígenas na área do cancro.

O cientista descobriu que a sobrevivência acima de três anos após o tratamento estava ligada a uma melhora nas vias de sinalização que promovem a resposta imune nos tumores retirados, se comparados aos pacientes que sobreviveram menos de 1,5 ano após a nova terapia. “Nosso estudo mostra, pela primeira vez, que o tratamento com uma terapia baseada em vacina é capaz de reprogramar diretamente o microambiente do câncer de pâncreas, permitindo a formação de agregados linfoides.

O trabalho foi publicado na edição desta semana da revista científica Cancer Immunology Research, jornal da Associação Americana para a Pesquisa do Câncer em colaboração com o Instituto de Pesquisa do Câncer, nos Estados Unidos. “Nosso estudo sugere um novo modelo para o desenvolvimento de imunoterapia mais eficaz para tumores tradicionalmente não imunogênicos, como o câncer de pâncreas”, acrescenta Zheng. “Estamos próximos de investigar terapias que aumentam os sinais de imunorreguladores bons ou bloquear os sinais de imunorreguladores maus.”

Inédita
Segundo o chefe da oncologia clínica do Instituto Brasileiro de Combate ao Câncer (IBCC) e professor de oncologia e hematologia da Faculdade de Medicina da Fundação ABC, Auro Del Giglio, o câncer de pâncreas sempre levantou um grande interesse para o desenvolvimento de novos tratamentos, especialmente pela baixa taxa de cura. “Apenas 5% dos pacientes se beneficiam da cirurgia e são curados. Essa é a primeira pesquisa a ter qualquer êxito em ativar a resposta imune contra o câncer de pâncreas”, ressalta.

Giglio explica que, feito o diagnóstico da doença, a primeira estratégia é descobrir se o tumor pode ser dissecado ou não. “Na maioria das vezes, não é possível. Então, usamos quimioterapia. Essa é uma nova arma terapêutica contra esse mal tão letal.” O oncologista ressalta que, para alguns tipos de cancros, esse tratamento já é bastante usado na clínica, como contra o melanoma.

A imunoterapia tradicional é classificada em ativa e passiva, de acordo com as substâncias utilizadas e os mecanismos de ação. No primeiro tipo, substâncias estimulantes e restauradoras da função imunológica, e as vacinas de células tumorais são administradas com a finalidade de intensificar a resistência ao crescimento tumoral. No tipo passivo, anticorpos antitumorais ou células mononucleares exógenas são administrados para proporcionar maior capacidade imunológica de combate à doença.


Palavra de especialista

Ajudando a defesa

“Para os cânceres de modo geral, a cirurgia é o principal tratamento curativo. No pâncreas, também. A imunoterapia é uma possibilidade para poucos tumores. Isso porque o câncer não é nada mais que a competição de células anormais proliferando dentro do organismo contra as normais. Uma defesa natural é o sistema imunológico, que, teoricamente, deveria combater células que estão crescendo de forma anormal ou uma infecção. Porém, o tumor do pâncreas não é muito bem reconhecido por essas defesas. Por esse motivo, o uso dessa nova estratégia pode expor ao nosso organismo algumas proteínas e substâncias tumorais. Assim, anticorpos serão produzidos contra elas. Se eles as identificarem, talvez seja possível estimulá-los a entrar no tumor e combatê-lo.”
Felipe José Fernández Coimbra, diretor de cirurgia abdominal do A.C.Camargo Cancer Center e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica
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