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CIÊNCIA

HIV jogado no lixo

Tecnologia que recorta as partes do genoma infectadas pelo vírus consegue eliminá-lo completamente de células em laboratório. Esta é a primeira vez que a infecção é curada em um tecido humano

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postado em 22/07/2014 12:35 / atualizado em 22/07/2014 12:37

Paloma Oliveto

Por mais avançados que estejam os tratamentos contra a Aids, a ciência só poderá comemorar o fim dessa guerra quando conseguir eliminar o HIV do organismo infectado. Até agora, isso só havia ocorrido em tecidos de roedores. Um artigo publicado na edição de ontem da revista Pnas, porém, deu um passo adiante ao anunciar a limpeza total de células humanas cultivadas em laboratório. “Estamos no caminho certo para encontrar a cura do HIV/Aids”, comemora o virologista Kamel Khalili, principal autor do estudo. Mas ele esclarece: “Ainda serão necessários muitos e muitos anos antes que possamos começar a fazer testes clínicos”.

Além de erradicar o vírus das células, a equipe de pesquisadores da Universidade de Temple (EUA) conseguiu evitar que elas fossem reinfectadas. A tecnologia não apenas varre o HIV, mas constrói uma barreira protetora, impedindo que o patógeno volte a depositar seu material genético mesmo se entrar em contato com a célula novamente. Isso abre outra possibilidade de pesquisa: o método poderá ser utilizado na fabricação de ferramentas preventivas, como vacinas. “As terapias atuais transformaram a Aids em uma doença crônica, mas a raiz do problema, o vírus, é apenas suprimida. Se você quer curar uma doença viral, elimine o vírus”, diz Khalili, que é diretor do Centro de Neurovirologia e NeuroAids da Faculdade de Medicina de Temple.

Há 15 anos, a terapia antirretroviral mudou o panorama da Aids no mundo desenvolvido. Já não se morre mais da doença, mas, para isso, é preciso tomar os medicamentos sem interrupção. Caso contrário, o vírus volta a agir. “Apesar do sucesso, mesmo quando a replicação do HIV está controlada, a permanência do vírus no organismo traz consequências à saúde, fazendo com que os pacientes sofram mais de doenças geralmente associadas ao envelhecimento, como cardiomiopatia, problemas ósseos e neurocognitivos”, diz Khalili, acrescentando que essas enfermidades geralmente são exacerbadas pela toxicidade das drogas que controlam o HIV.

Duplo ataque

Para apagar o vírus do organismo, a equipe do virologista atacou duplamente o genoma do vírus da Aids. Ao entrar na corrente sanguínea, esse agente patógeno se instala no interior das células de defesa, que, sem perceber a presença estranha, servem de alojamento e de replicação do inimigo que deveriam combater. Assim que adentra o hospedeiro, o HIV passa por um processo chamado transcrição reversa, no qual se forma seu DNA. Esse material integra-se ao genoma da célula e, assim, o vírus consegue ser multiplicado — é como se pegasse uma carona no DNA hospedeiro. Daí, o HIV ainda imaturo se move para a superfície celular, onde fica pronto para recomeçar todo o processo de infiltração e infecção.

A tecnologia da Universidade de Temple conseguiu arrancar o HIV do banco do carona. Isso graças a uma dupla estratégia de edição do genoma (veja infografia). Primeiro, os cientistas cultivaram células humanas em laboratório e as infectaram com o HIV-1, subtipo que mais produz partículas virais. Em seguida, construíram uma fita de RNA, o ácido ribonucleico, sintetizador das proteínas celulares. Esse RNA foi fabricado com a missão de localizar o genoma do vírus para que, então, uma enzima eliminasse da célula o material genético invasor. Trabalhando em conjunto como RNA-guia, a Cas9 age como uma tesoura: recorta as partes que precisam ir para o lixo. Consertada, a própria célula antes infectada se encarrega de reparar seu genoma.

“Meus colegas e eu desenvolvemos ferramentas moleculares que nos permitiram, com sucesso, eliminar o vírus de células humanas cultivadas. Nós temos tecnologia, e nossa descoberta é a prova de conceito de que estamos na direção correta. Nossa abordagem, que ainda está muitos anos de ser testada clinicamente, não apenas elimina o vírus permanentemente, como cria a proteção, evitando a reinfecção”, comemora Khalili.

Desafio

Antes de se imaginar um tratamento, é preciso vencer alguns desafios. O primeiro deles é que os cientistas precisarão encontrar um método que permita levar essas ferramentas de busca e de edição do genoma a cada célula do corpo infectada pelo HIV. Além disso, esse é um vírus inteligente e mutante, o que provavelmente exigirá abordagens personalizadas — cada indivíduo tem uma sequência viral única.

Apesar desses entraves, Frank Buchholz, professor da Universidade Técnica de Dresden, na Alemanha, acredita que a técnica das “tesouras moleculares”, como ele chama as enzimas que editam o genoma, estará pronta para uso em 10 anos. Em dezembro passado, uma equipe do pesquisador de biomedicina usou técnicas semelhantes às de Khalili para eliminar o HIV das células de roedores. “Há muitos métodos e abordagens para evitar a replicação do vírus, mas removê-lo de células doentes é algo único. Não há outra forma de reverter a infecção por HIV, a única é tratar as células para que voltem a ser saudáveis”, afirma.

No estudo alemão, a equipe de Buchholz desenvolveu uma terapia genética somática na qual foram usadas células alteradas do próprio paciente. A enzima desenvolvida no laboratório identificou as sequências genéticas do vírus e as recortou do DNA. Em seguida, reorganizou a estrutura de dupla-hélice, normalizando o genoma celular. Nos testes, a eficácia foi de 90%. “Precisamos investigar, no futuro, se esse método dará certo com humanos”, pondera.

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