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O medo chinês dos protestos em massa

Na internet da China, publicações sobre mobilizações e reuniões públicas são mais censuradas que críticas ao governo, mostra estudo da Universidade de Harvard. O país asiático conta com um exército de mais de 2 milhões de censores on-line

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postado em 22/08/2014 12:36

Roberta Machado

 

A cada 10 comentários postados na internet a partir da China, quatro são analisados pelos órgãos de controle do país. E, entre os posts investigados, metade acaba censurada e nunca chega à rede. A descoberta é resultado de um estudo da Universidade de Harvard que acompanhou o processo de controle da web chinesa. O maior alvo dos agentes responsáveis por vigiar a rede chinesa, aponta a pesquisa, são as publicações que mencionam reuniões públicas e protestos.

O trabalho contou com a ajuda de voluntários que postaram cerca de 1,2 mil comentários em uma centena de sites chineses. Como a publicação era previamente acordada com os pesquisadores, era possível verificar quais posts acabavam na malha dos censores. Antes de iniciar esse experimento, contudo, os pesquisadores receberam uma espécie de “aula” de como funciona o sistema de controle do governo.

Para isso, os pesquisadores criaram um site na rede do país. Eles compraram um endereço eletrônico e contrataram uma firma chinesa para montar a página. Depois, postaram eles mesmos os comentários no fórum, que era fechado a visitantes de verdade. A medida não tinha como objetivo atrair internautas, mas apenas criar uma porta de acesso aos mesmos programas e procedimentos que são usados para filtrar o conteúdo postado de verdade na internet da China.

O site de mentirinha permitiu que os pesquisadores norte-americanos recebessem dicas de especialistas chineses sobre como manter uma página livre de conteúdos que desagradassem ao governo. Ficou claro, então, que os programas usados nas redes sociais costumam ser adaptados para filtrar mensagens de acordo com o autor, o tamanho e a presença de certas palavras, que são consideradas sinais de posts subversivos. Ao analisar os comentários mais barrados pelos sistemas do país, os cientistas de Harvard descobriram que termos como “governo”, “incidente” e até mesmo “dalai lama” são interpretados por esses programas como um sinal vermelho.

O estudo estima que 40% de todo o conteúdo postado na web chinesa acaba caindo nessas armadilhas automáticas, mas o trabalho de análise acaba sendo refeito por pessoas, que liberam, em média, metade das publicações “suspeitas”. “O sistema automático usa uma tecnologia inadequada e não muito eficiente, então todos os posts que são flagrados pelo sistema automático precisam ser checados por humanos”, explica Gary King, pesquisador da Universidade de Harvard e principal autor do estudo, publicado na edição desta semana da revista Science.

King e sua equipe descobriram que os sites chineses têm, na verdade, uma grande liberdade para escolher os procedimentos de censura, e um terço deles nem mesmo chega a adotar a ferramenta automática. A verdadeira ameaça à liberdade de expressão está mesmo no método antigo de manter equipes dedicadas exclusivamente a barrar mensagens que desagradem ao governo.

O método exige um exército de censores no país, uma vez que a maioria dos sites usa de três a quatro pessoas para cada grupo de 50 mil visitantes, e a China tem mais de 450 milhões de internautas acessando vários fóruns e redes sociais. Além disso, a rede é vigiada pela Polícia da Internet, por departamentos de propaganda e por outras instituições governamentais. De acordo com a imprensa oficial, o governo conta com mais de 2 milhões de pessoas dedicadas unicamente a monitorar blogs e fóruns do país. “Não temos o número exato, mas é muito grande. Esse deve ser o maior trabalho para suprimir seletivamente a expressão humana de todos os lugares do mundo, em toda a história”, acredita King.

Rastreamento
Após aprender mais sobre os mecanismos de controle, os pesquisadores passaram para a segunda etapa do estudo. Um grupo de voluntários de todo o país criou 200 perfis em 100 sites, nos quais publicaram 1,2 mil comentários sobre temas sensíveis ao governo chinês. Os pesquisadores rastreando, então, o destino de cada um dos posts, registrando quais eram aceitos pelo sistema, quais eram retirados do ar para avaliação e quais eram banidos pela censura.

O mesmo grupo de pesquisadores havia conduzido anteriormente uma grande pesquisa sobre os limites impostos à web da China, acessando milhões de posts e analisando mais de 100 mil deles. No entanto, o método deixou escapar as mensagens que nunca chegam à rede e acabam perdidas no filtro dos sistemas de censura automáticos. Por isso, desta vez, os cientistas adotaram essa nova estratégia.

Alguns voluntários foram orientados a partilhar opiniões que fossem críticas ao governo, enquanto outros publicavam falas de apoio ao regime. Contudo, os pesquisadores descobriram que o tom dos comentários não era o fator determinante para a permanência ou retirada dos posts da rede. “Ficamos surpresos no início, porque vimos muitas críticas que não foram censuradas”, conta Molly Roberts, professora do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Califórnia que também participou do estudo.

Assim, as mensagens com mais chances de serem proibidas eram as que falavam sobre ações coletivas. A censura on-line chinesa, conclui o estudo, é implacável com notícias sobre mobilizações em massa, como protestos contra a desapropriação de terras. E mesmo atos em grupo favoráveis ao governo acabam retirados do ar.

Roberts acredita que o governo use esses comentários como uma forma de saber o que desagrada ao povo e, por isso, permite que os internautas continuem postando críticas na rede. “Isso faz muito sentido da perspectiva do governo. A crítica é útil para a mudança de políticas”, analisa. “Já as ações coletivas são uma ameaça à sobrevivência do governo.”

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