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Perigosa tensão

O estresse é uma reação natural às adversidades. Quando fica descontrolável, porém, causa desde queda no rendimento e cansaço até complicações mais graves, como derrame e transtorno compulsivo

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postado em 27/08/2014 10:50 / atualizado em 27/08/2014 10:54

Lilian Monteiro

 

Belo Horizonte — A pressão sempre 12 por 8 chega a 15 por 9. O coração acelera e o braço parece dormente. Corrida ao médico. Será algo grave? O interesse sexual já não é o mesmo. Do nada, um ataque de asma. Sem explicação, aparece uma alergia. De uma hora para outra, dor muscular, lombalgia. Diagnóstico: tudo resultado ou culpa do estresse, um vilão silencioso e perigoso.

A psiquiatra e psicanalista Sandra Maria Melo Carvalhais explica que é frequente associarmos a condição com doenças, como se fosse sempre uma vivência nociva, patológica, com consequências negativas para o corpo e/ou a mente. Entretanto, ela enfatiza que o estresse é uma reação de defesa e adaptação frente a um agente estressor (ou situação estressante) com o objetivo de preparar o organismo para perceber a situação e reagir ao estímulo com respostas adequadas.

“O estresse remonta aos primórdios da história do homem, necessário à sobrevivência diante dos perigos. É um mecanismo normal e benéfico, autorregulado pelo organismo, que deveria cessar quando a situação de risco é afastada”, explica. Carvalhais conta que situações de desafio, mesmo desejadas, estimulantes e de conotação agradável também provocam essa reação, que prepara as pessoas para lidar com elas, seja um emprego novo, uma promoção ou novos relacionamentos.

Segundo a psiquiatra, substâncias liberadas no organismo medeiam a expressão corporal e emocional dessa condição. As duas mais importantes são a adrenalina e o cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. “Fisiologicamente, as situações estressantes provocam aumento geral da ativação do organismo, com aceleração do metabolismo, da frequência respiratória, da pressão arterial, além de contração muscular”, detalha.

Entretanto, a médica diz que é frequente essa resposta deixar de ter esse aspecto positivo, adaptativo, e se manifestar de forma negativa, chamada pelos especialistas em distresse. “As pessoas frequentemente se dizem estressadas. Pode ser pelo uso inadequado da palavra, aplicado para falar de cansaço, preocupações, angústia e tristeza, que são respostas corporais e emocionais compreensíveis diante das situações da vida. Mas também pode ser o ‘estresse negativo’, quando essa reação perde a capacidade de permitir a nossa adaptação aos embates da vida e passa a ser disfuncional”, diferencia.

A psiquiatra destaca que a resposta ao estressor é resultado da interação entre as características individuais e as demandas do meio. “Depende da singularidade de cada um, da forma como o indivíduo filtra e processa a informação e sua avaliação sobre as situações ou os estímulos a serem considerados relevantes, agradáveis, aterrorizantes etc.” Carvalhais enfatiza que as pessoas têm reações diferentes para o mesmo estímulo. “Nem todos desenvolvem psicopatologia”, reforça. E as situações ambientais provocadoras de estresse podem ser eventos intensos, de grande carga emocional, acontecimentos da rotina habitual ou situações de tensão crônica.

Sem postergar
De acordo com Carvalhais, o enfrentamento do estresse não deve ser adiado. É importante a pessoa refletir sobre as formas como se posiciona nas situações individuais, familiares, sociais, de trabalho, de estudos e da competitividade da vida moderna. “Quando percebemos os sinais de que algo não está bem na nossa forma de reagir (leve ou grave), deveríamos ser capazes de reformular nosso estilo de vida. Mudar hábitos nem sempre é fácil e, com frequência, precisa-se buscar o auxílio da psicoterapia e até mesmo da psiquiatria. Os sintomas orgânicos são tratados com o clínico-geral. Os tratamentos devem ser complementares”.

A especialista lembra que o grande perigo é representado pelas “fugas”, o alívio de forma inadequada: automedicação (ansiolíticos), uso e abuso de bebida, consumo de drogas ilícitas e aumento da quantidade de cigarros. Carvalhais reforça ainda a importância da prática de exercícios físicos regulares. “Eles ajudam a aliviar o problema, assim como realizar atividades prazerosas e adotar uma alimentação adequada, rica em alimentos que combatam os radicais livres, como frutas e legumes.”
 
Chorar é bom
O estresse afeta tanto as pessoas que a oftalmologista Márcia Guimarães, do Hospital de Olhos de Minas Gerais, conta que as lágrimas são um veículo ótimo, essencial para reduzir o estresse emocional em seres humanos.

De acordo com ela, um estudo do Centro de Pesquisa em Lágrima e Olho Seco do St. Paul-Ramsey Medical Center, em Minnesota (EUA), indicou que voluntários induzidos ao choro em filmes tristes produzem lágrimas com mais proteínas do que aqueles que choram por estimulação química — cortar cebola, por exemplo—, embora os dois tipos de lágrima tenham substâncias estressantes, como o hormônio ACTH e a leucina encefalina, um composto parecido com a morfina e que ajuda a aliviar a dor.

A médica destaca ainda outro estudo da Marquette University, em Milwaukee, também nos Estados Unidos, com 100 pacientes comprovou que “quando o ato de chorar é contido por ser considerado sinal de fraqueza, há uma incidência maior de doenças gastrointestinais por estresse, como úlceras e cólon irritável”.


As três fases
 
Aguda/alerta

É a etapa em que os estímulos estressores começam a agir. Nosso cérebro e nossos hormônios reagem rapidamente e podemos perceber os efeitos, mas somos geralmente incapazes de notar o trabalho silencioso do estresse crônico nessa fase.
 
Resistência
Começam a aparecer as primeiras consequências mentais, emocionais e físicas do estresse crônico. Perda de concentração mental, instabilidade emocional, depressão, palpitações cardíacas, suores frios, dores musculares ou dores de cabeça frequentes são os sinais evidentes, mas muitas pessoas ainda não conseguem relacioná-los ao estresse e a síndrome pode prosseguir até a fase final e mais perigosa.
 
Exaustão
Quando o organismo capitula os efeitos do estresse, levando à instalação de doenças físicas ou psíquicas.
 
CONSEQUÊNCIAS
 
- Doenças dermatológicas

Vitiligo, acnes, manchas, psoríase e dermatites atópica seborreica
 
- Asma, alergias, infecções

- Sistema digestivo
Gastrite, úlcera e colites
 
- Sistema cardiovascular
Hipertensão, taquicardias, anginas, infartos e acidente vascular cerebral (derrame)AVCs
 
- Tensão muscular elevada
Cãibras e dores musculares, cefaleias tensionais e enxaqueca, lombalgias e braquialgias (dores nas costas e nos ombros e braços)
 
- Dores urinárias sem sinais de infecção
 
- Diminuição da libido e de interesse e desempenho sexual
 
- Complicações psíquicas

Irritabilidade, nervosismo, medos, ruminação de ideias, ideias obsessivas e rituais compulsivos, ansiedade e angústia, quadros de ansiedade e depressão, irritabilidade, alterações do sono, falta de ânimo, reatividade às provocações e maior frequência de discussões

Fontes: psiquiatras Sandra Maria Melo Carvalhais e Vladimir Bernik


Palavra de especialista

Coração é o mais pressionado

“A reação aguda ao estresse varia de paciente para paciente. Ainda que afete todo o organismo, o aparelho cardiovascular é o mais temido por causa da morte súbita, do infarto, do derrame (AVC), que incluiu ainda os músculos, dificuldade de locomoção e dor de cabeça. Outro sinal pode ser o formigamento. O ato de respirar muito (hiperventilar) diminui o cálcio, o que pode dar esse formigamento. A vida atual com muita exigência, competição, sobrecarga de serviço, obrigações e falta de sono leva a esse quadro. O atendimento médico é necessário, mesmo em pacientes jovens. Há quem tenha a pressão aumentada por causa da catecolamina (adrenalina), que provoca a taquicardia. A primeira atitude para controlar uma crise de estresse é tentar ficar calmo, relaxar, não respirar demais e procurar atendimento médico. A recomendação: alimentação balanceada, bom sono, exercício físico e lazer.”
José Luiz Barros Pena, diretor-científico da Sociedade Mineira de Cardiologia

 Influência da meditação


 O estresse exagerado é o mal do século 21. Está no dia a dia e afeta crianças, jovens, adultos e velhos. A preocupação em lidar com ele é tanta que o Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza, da Faculdade de Saúde Púbica (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), implantou em 2011 a Clínica de Redução do Estresse, que tem como referência o Programa de Redução do Estresse baseado na atenção plena. Programa similar ao da Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), da Stress Reduction Clinic da University of Massachusetts, nos Estados Unidos, fundada em 1979.

O trabalho é coordenado pelo psicólogo da saúde e especialista em psicanálise Rubens de Aguiar Maciel, doutor pela FSP. A clínica tem como fundamento o emprego da meditação, cada vez mais popular no meio médico e aplicado sistematicamente em estudos como parte de tratamento clínico e psicológico. Maciel ressalta a importância e o valor da meditação. “Ela é o conhecimento da mente. Ajuda a eliminar o sofrimento e encontrar o bem-estar e a felicidade.”

Para ele, é fundamental que pessoas inquietas, agitadas e preocupadas com a busca material a pratiquem. “Meditação é quietude, apesar de muitos a perceberem como tediosa. Ela proporciona visão clara e acalma o metabolismo hiperacelerado. O mundo hoje exige pessoas produtivas e multitarefas. Mas é bom saber que não levamos nada dessa vida, a não ser bem-estar, saúde e bons relacionamentos.”

O psicanalista conta que há mais de três décadas de pesquisa nos EUA e na Europa e mais de 100 mil trabalhos de estudos sobre os efeitos da meditação na saúde. “A prática leva à redução de medicamentos para insônia, gastrite e pânico. O equilíbrio físico estabelecido retira o lixo e devolve a saúde. A mente agitada cria estresse, e o hormônio cortisol destrói a capacidade do sistema imunológico de se proteger.”

Maciel diz que há várias práticas, as mais sérias são a tibetana e a zen, e afirma que, em hospitais do mundo inteiro — no Brasil, em São Paulo, no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro —, a meditação tem espaço considerável. “É a busca pela vida simples. O que interessa é gerar condição de felicidade. É o que leva à evolução.” (LM)

 

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