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Arte à flor da pele

A primeira professora de música da rede pública do DF é presença marcante na cultura e nos movimentos que defendem os negros

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postado em 24/03/2014 12:46 / atualizado em 24/03/2014 12:51

Thalita Lins

Carlos Moura
Os dedos já não deslizam mais pelo piano. O instrumento que marcou o ingresso da carioca radicada em Brasília Lydia Garcia, 76 anos, no mundo das artes repousa em uma casa na 709 Sul, onde a primeira professora de música da rede pública do Distrito Federal vive há quase meio século. Dele, ficaram somente as lembranças da época em que lecionava na Escola Classe da 308 Sul e no Colégio de Aplicação da Escola Normal de Brasília.

Sob os ensinamentos da mestra, passaram ícones da cidade, que integram e integraramo cenário artístico de Brasília e do mundo, como a cantora Cássia Eller (1962 – 2001), o cineasta SérgioMoriconi, a atriz Luciana Martuchelli, o músico João Mac Dowell e integrantes da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. “Ao vê-los (ex-alunos) fazendo sucesso, eu me sinto valorizada e acho ótimo.Muitos me agradecem pela infância que tiveram”, orgulhase a pianista, que se formou no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro.

Na sala de aula, Lydia usou da liberdade para aguçar os ouvidos das crianças. “As aulas dela eram sempre muito originais. Eu ficava impressionada com a criatividade da professora. Ela usava música para despertar qualquer outra arte. Lembro que, na orquestra da escola, eu tocava coquinho. Era um coco seco repartido no meio”, recorda-se a jornalista Gioconda Caputo, que teve aula com LyDia na EC da 308 Sul.

Lydia levava os alunos a ouvir o som da natureza e o comportamento dos animais. Incluía os movimentos dos bichos para que os pequenos compreendessem as figuras rítmicas a partir disso. “Dessa forma, levávamos as crianças a se sensibilizarem por meio da brincadeira e da criatividade”, explicou a professora, que toca outros instrumentos, como o triângulo, o pandeiro, a flauta doce e o xequerê. Em 1986, após passar pela EC 308 Sul e pelo Colégio de Aplicação, onde trabalhou por  16 anos, Lydia foi chamada para lecionar na extinta Faculdade de Artes Dulcina de Moraes.

Foram 20 anos dedicados aos ensinamentos musicais. Embora tenha parado de lecionar em 1994, Lydia acompanha de perto a vida cultural da cidade. “Continuou ser apreciadora da música. Eu sou uma presença marcante nos sambas daqui.”

No diário da pianista, 1988 ficou marcado como o ano mais emblemático da vida dela. “Eu apertei a mão do Nelson Mandela quando ele esteve no Brasil. Inclusive, compus uma música para ele em ritmo de samba e ele falou ‘muito prazer em conhecê- la’. Cerca de 10 anos depois, eu o reencontrei de novo aqui e ele parou para apertar minha mão. Não acho que tenha se lembrado de mim, mas fez isso, acredito, por eu estar com um cabelo black e por eu ser negra”, afirmou.

Costumes afros

Lydia faz questão de manter acesos os costumes afros na família. A professora exibe cabelos trançados, adornos e roupas emestilos tribais. “Eu faço questão de conservar isso tudo em minha vida”, frisou a militante negra. Lydia colocou nomes de origem africana nos cinco filhos, frutos do relacionamento que teve com oartista plástico Willy Mello (1935 – 2012). São eles: Kenya,Mali, Ialê, Kwame e Luena. As gerações que se sucederam acompanharama tradição. Lydia foi a primeira presidente doConselho doNegro do DF e da Associação de Artes Educadoras da capital.

Em 1978, ajudou a fundar o Centro de Estudos Afro Brasileiro em Brasília. “Criamos a organização para a questão da discriminação e para tentar mudar a história dos negros contados em livros didáticos. Esse movimento deu margem a outros no DF”, afirmou Lydia. Foi também uma das idealizadoras do bloco carnavalesco Asé Dudu.

A casa da professora, a mesma onde atualmente mora, chegou a ser conhecida como a primeira Embaixada Africana de Brasília. “À época, não havia embaixada daquele continente. Nós recebíamos socialmente estudantes africanos da Universidade de Brasília (UnB) que vinham para cá”, disse ela. Para difundir ainda mais anegritude em Brasília, Lydia criou, há 15 anos, o ateliê cultural Bazafro. “Ele é voltado para valorizar a cultura afro-brasileira e a autoestima dos negros por meio da arte e da moda étnicas”, explicou.

A professora aposentada, que é favorável às cotas raciais nas universidades brasileiras como política afirmativa, faz questão de expor sua opinião sobre os últimos casos de racismo ocorridos na capital. “Eu me sinto humilhada, pois é um questão de educação e que deve ser transmitida através das escolas, das mídias.Nas propagandas, os negros só aparecem no futebol e no samba. É umracismo institucionalizado. As instituições como um todo têm que fazer com que o racismo seja eliminado.”

Lydia diz ser vítima do preconceito racial. “Certa vez, uma pessoa bateu na porta da minha casa e eu fui atender. A moça olhou para mim e disse: ‘Vá chamar a dona da casa’. Eu falei que a dona era eu e ela saiu inconformada. Não acreditou. Quando falo que moro na Asa Sul, algumas pessoas acham que eu não estou dizendo a verdade.Negro não pode morar no Plano Piloto?”

 

Ao vê-los (ex-alunos) fazendo sucesso, eu me sinto valorizada e acho ótimo. Muitos me agradecem pela infância que tiveram”

 

Quando falo que moro na Asa Sul, algumas pessoas acham que eu não estou dizendo a verdade.Negro não pode morar no Plano Piloto?”

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