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Cutting, um drama que fere jovens brasilienses

Professores de escolas públicas detectam, entre os alunos, grupos que têm o hábito de praticar a automutilação, inclusive compartilhando lâminas. Não há estudos sobre o tema no Brasil, mas pesquisas mundo afora indicam que o distúrbio atinge 20% dos rapazes e das moças

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postado em 20/04/2014 13:34

Adriana Bernardes

Publicação: 20/04/2014 04:00

 (Amaro Jr/CB/D.A Press) 


Cicatrizes sobrepostas. Feridas totalmente fechadas e outras em carne viva. Abertas, dia após dia, com qualquer objeto capaz de rasgar a pele. Quem se corta tem dificuldade em explicar as razões e, ainda mais, para abandonar o hábito que, segundo os relatos nas redes sociais, se torna um vício. Isso é o cutting, um termo em inglês que significa “corte” ou, em tradução livre, automutilação. No Brasil, ainda não há estudos sobre o tema, mas o distúrbio atinge um em cada cinco jovens, segundo pesquisas divulgadas nos Estados Unidos, no Japão e na Europa.

Em apenas dois meses de aula, professores de escolas públicas da região Norte do Distrito Federal detectaram, entre os alunos, grupos que fazem a automutilação. A descoberta deixou os profissionais da educação e os pais aterrorizados. Ao perceber os cortes nos braços da filha Ema*, de apenas 13 anos, Gabriela*, 33, chegou a pensar que a primogênita era vítima de violência. “Perguntei quem tinha feito aquilo com ela, se alguém a estava ameaçando, chantageando, se algum colega ou adulto a estava perseguindo. Quando ela disse que ela mesmo tinha feito aquilo por raiva sem dizer de quem ou do que, fiquei em pânico”, relata (veja Depoimento).

Diante das respostas evasivas da filha, Gabriela diz ter sido invadida por um sentimento de decepção, revolta e tristeza. Imediatamente, procurou a escola em que a menina estuda para tentar entender o que estava acontecendo. Lá, descobriu que pelo mais 10 adolescentes tinham o mesmo comportamento. A direção acionou o Conselho Tutelar, a Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-Vítima), o Ministério Público e a Polícia Militar. Convocou os pais de todos os estudantes envolvidos e percebeu, espantada, que alguns familiares reagiram como se isso fosse algo natural. “Da mesma forma que não podemos supervalorizar, não podemos achar que isso é uma coisa normal”, defende o diretor do colégio, Fábio*.

Doenças
O receio do diretor é de que a prática se dissemine em redes sociais, criando uma histeria coletiva e um problema de saúde pública. “Na minha avaliação, é um fenômeno social da adolescência e, como tantos outros, vai passar. Mas, além do fato em si ser grave, há outros fatores. Eles estão compartilhando lâminas. E, com isso, expondo-se a várias doenças, como a hepatite e a Aids”, lamenta Fábio.

Na tentativa de desvendar as razões de os jovens se automutilarem, a equipe pedagógica os chamou para conversar. Todas as falas, segundo a direção da escola, estão associadas a problemas de relacionamento familiar. “Eles dizem que se cortam para aliviar as dores emocionais. Qualquer coisa que aconteça em casa é motivo para eles se cortarem. Mas o que percebemos é que, em alguns casos, a família é bem estruturada e os pais, presentes. Então, há outros fatores que precisam ser investigados e tratados”, defende o diretor.

Na escola dele, os adolescentes que praticam o cutting são preservados ao máximo. As atividades extracurriculares foram reforçadas para todos os alunos e há um esforço maior para que esse grupo se envolva mais. Além de lições com ciclistas profissionais, a instituição oferece cursos de boxe, escolinha de futebol e está prestes a fechar uma parceria que vai permitir aos estudantes participarem de um curso de escotismo naval.

Expulsão
Em outra escola da região Norte do DF, localizada em área rural, a reação dos docentes com a prática de cutting envolvendo sete alunas, de 12 a 14 anos, também foi de espanto. A descoberta ocorreu há dois meses, por meio de professores que são amigos das estudantes em redes sociais. “Elas postavam fotos dos braços e das pernas feridos, sangrando. Ficamos horrorizados e não sabíamos o que as levava a fazer isso. Depois de conversar com elas, acionamos o Conselho Tutelar e os pais”, resume a diretora, Patrícia*.

Dos sete envolvidos, dois pais mostraram-se surpresos com a atitude das filhas. Os demais demonstraram preocupação, mas não buscaram ajuda médica para as meninas, segundo Patrícia. E a família da jovem apontada como a primeira a se cortar não deu atenção ao fato. “Essa adolescente relatou que era espancada pelo pai e ignorada pela mãe. Aqui, notamos uma relação de agressividade entre as duas. Imaginamos que, em casa, é ainda pior”, relata Patrícia.

 De acordo com ela, os pais de duas garotas pediram a transferência delas para outras escolas. E três chegaram a ser expulsas do colégio por problemas disciplinares e porque insistiram na automutilação. “Tomamos a decisão de expulsá-las no dia em que um servidor encontrou uma lâmina no banheiro. Nós as chamamos na direção e percebemos que elas continuavam a se cortar, inclusive dentro da escola”, lembra Célia*, orientadora da instituição.

A decisão de expulsar as meninas foi reconsiderada e duas retornaram à escola. Mas a adolescente apontada como a principal praticante da automutilação não quis voltar. “Era uma menina quieta. Frequentemente a flagrávamos matando aula. Mas ficava dentro da escola, debaixo da árvore, isolada. Ela relata que fez o primeiro corte depois que o pai deu-lhe uma surra no meio da rua. Depois, nunca mais parou”, conta Célia. Parte das garotas que aderiram ao cutting o faziam como uma espécie de solidariedade ou para tentar impedir a amiga de se cortar. “Elas diziam: ‘olha, fulana, se você se cortar novamente, eu também vou me cortar’. Aí, ela chegava ferida e as outras cumpriam a promessa”, relata Célia. A diretora da instituição vai atuar em conjunto com o Ministério Público para evitar novos episódios.

*Nomes fictícios


Três perguntas para

 (Arquivo Pessoal) 

Gilda Paoliello, psiquiatra-psicanalista e diretora da Associação Mineira de Psiquiatria, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria
O que leva uma pessoa a se cortar repetidas vezes? Há relatos que isso se torna um vício e quem pratica tem dificuldade em parar. É isso mesmo?

A automutilação é uma tentativa de aplacar uma angústia muito profunda, a qual a pessoa não consegue expressar ou aliviar em palavras. Assim, o que ela não consegue exprimir simbolicamente expõe sobre o corpo. Muitas vezes, os pacientes dizem, literalmente, que cortam o corpo para aliviar as feridas da alma. A prática leva a uma perda progressiva do controle sobre o próprio comportamento. O paciente descreve uma urgência ou um “estado de fissura”, como uma tensão e uma excitação crescentes, antes da ação. Após o ato, há uma sensação de prazer e, mais tarde, culpa e vergonha. Há implícita neste ato uma demanda de amor.

O que os pais e a escola devem fazer?

Não devem nunca colocar essa pessoa em posição de julgamento ou punição e nem de vítima. Devem procurar ouvir a sua demanda, lembrando que a demanda é sempre de amor. Mas é impossível agirem sem uma ajuda profissional, então, a orientação do psiquiatra é fundamental.

Alguns dos jovens dizem se cortar porque “são roqueiros, góticos, ou para aliviar a dor da alma”. Segundo diretores, alguns ouvem bandas de rock depressivo e usam roupas pretas. Outros, não. Há um perfil entre os praticantes de cutting?

No século 19, o Romantismo surgiu em contraposição ao Iluminismo e ao Racionalismo do século anterior. As heroínas do Romantismo eram sempre trágicas e acabavam se suicidando. Isso gerou uma onda melancólica, onde os mais frágeis chegavam a tentativas de suicídio. Atualmente, os góticos costumam se reunir em cemitérios para lerem poemas trágicos, relembrando o Romantismo, e os mais frágeis se cortam, chegando a consequências graves. Temos que diferenciar o que é uma tendência cultural e o que é uma doença. Podemos dizer que alguns jovens aderem a esses contextos por modismos, outros, que trazem uma estrutura frágil, por identificação mortífera. O gosto musical é consequência e não causa.

Depoimento
Desespero

“Descobrimos que ela se cortava este ano. O pai foi o primeiro a perceber os ferimentos. Fiquei muito assustada. Ela disse que, ‘do nada’, ficava gritando em sala de aula e batia com a cabeça na carteira. Aí, os colegas passaram a chamá-la de psicopata e louca. E ela passou a se sentir excluída e rejeitada. Então, passou a se cortar. Mesmo antes disso, já estava rebelde. Conversei muito com minha filha. Expliquei que isso podia levá-la para uma coisa muito séria. Consegui atendimento psicológico. Ela prometeu que não faria novamente, mas sinto que essa coisa está voltando. Ela tem mentido muito para nós. Me sinto perdida, sem saber o que fazer. Quando chamo a atenção, ela me olha com aquela cara de desentendida. É dissimulada. Até parece que tem duas personalidades. Até na igreja, eu já levei. O padre disse que é caso para médico. Às vezes, fico triste, choro muito. Eu sei que vou conseguir vencer isso. Mas está muito difícil.”


Gabriela, 33 anos, mãe de uma menina de 13 que pratica cutting

 

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