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Eles fazem a diferença

No Dia do Professor, conheça histórias de docentes de ensino fundamental, médio e superior que buscam inovar nas salas de aula

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postado em 15/10/2014 10:17 / atualizado em 15/10/2014 17:39

Juliana Espanhol , Kelsiane Nunes /Especial para o Correio

Nesta quarta-feira (15), é comemorado o Dia do Professor. No Brasil, há 2,1 milhões de docentes no ensino básico e mais 367 mil no ensino superior, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em homenagem a esses profissionais que se dedicam a formar o futuro do país, o Correio entrevistou alguns professores que vão além das anotações no quadro e do dever de casa.

Antonio Cunha/CB/D.A Press


Suely Soares, 24 anos, leciona há quatro. Assim como outros 450 mil professores brasileiros, ela é docente temporária da rede pública de ensino básico. A condição, no entanto, não a impede de ir além das anotações no quadro e do dever de casa. A partir de histórias como O Pequeno Príncipe e Sítio do Picapau Amarelo, a jovem professora busca despertar o gosto pela leitura em seus alunos. Atualmente, ela trabalha com turmas do 3º ano do ensino fundamental da Escola Classe 8 de Ceilândia, cidade onde ela mesma cresceu.

"Cheguei há pouco tempo nessa escola. Antes eu trabalhava na EC 65, também aqui em Ceilândia, e lá já tinha muitos trabalhos expostos dos meus alunos. A professora efetiva chegou e eu fui transferida para cá. Aqui ainda não tenho muito o que mostrar, mas nas próximas semanas vou começar a trabalhar Monteiro Lobato com os meninos. A partir dos livros, ensino vocabulário e os valores retratados na obra, como amizade e respeito", explica, tímida, a professora. "Os alunos costumam gostar desses projetos porque eles fogem do tradicional", diz.

Na antiga escola, ela lecionou para turmas de 4º e 5º ano. "Ensinar para crianças mais velhas permite trabalhar um conteúdo mais amplo. Tem muita coisa de ciências, por exemplo, que vou relembrando por causa das aulas", afirma. Uma das situações mais curiosas que ela já vivenciou em sala de aula envolve, justamente, a física. "Uma vez um aluno me perguntou por que a terra não caia. Na hora, eu pensei: 'Ai meu Deus, isso é física!'. Pesquisei um pouco e na outra aula expliquei de forma simples como funciona a gravidade", relembra, rindo.

Na sua visão, um dos maiores desafios dos professores é envolver as famílias no cotidiano da escola. "Os pais trabalham o dia todo, muitas vezes não têm tempo de acompanhar a rotina dos filhos. Envolvê-los na escola é uma das maiores dificuldades. Por outro lado, é muito gratificante pegar um aluno que mal sabia a letra 'a', apesar de já ter passado do 3º ano, e que sai lendo no final do ano", diz. Morando na mesma vizinhança do colégio, Suely é professora em tempo integral. "Encontro meus alunos no mercado, na rua... Por isso é importante manter a mesma postura, dar o exemplo", explica.

A professora sonha em voltar a ser aluna em breve. Além de estudar para o concurso de professores efetivos, Suely pretende cursar mestrado em educação. Formada em pedagogia pela Universidade Católica de Brasília (UCB), ela obteve bolsa durante a graduação por meio do programa Universidade para Todos (ProUni). "Agora, gostaria de estudar na Universidade de Brasília. Estou aprendendo língua estrangeira para fazer o mestrado. Minha família sempre me apoiou para estudar. Só sou o que sou hoje graças a eles e a Deus", diz.

A vontade de ser professora a acompanhou durante toda a vida. "Sempre soube que queria ser professora, é assim desde os meus seis anos. Enquanto aluna, tive muitos professores que me marcaram. Se você é aluno, sempre haverá algum professor que vai te influenciar. E a melhor forma de mudar a vida de alguém é pela educação".

Kelsiane Nunes/Esp. CB/D.A Press


A expressão do pensamento e o estímulo ao debate são as características que marcam as aulas ministradas pelo professor de ética do colégio Ciman Leonardo Eustáquio, ou professor Léo, como é chamado pelos alunos e por toda a equipe da instituição. Perto de completar 20 anos como professor, Leonardo faz o contrário de muitos colegas de profissão, incentiva as conversas dentro da sala de aula. Além disso, ele propõe aos alunos o desenvolvimento de trabalhos voluntários como forma de contextualização da disciplina.

As aulas de ética do professor Léo são compostas obrigatoriamente por três elementos: a opinião dos alunos sobre um tema, a abordagem dos filósofos sobre o assunto e o debate de ideias entre os participantes da aula. "A primeira coisa que eu faço é trazer as ideias deles. A partir das disso introduzo os filósofos, peço que façam a leitura dos capítulos e abro para a discursão plural", explica o professor. O espaço para discutir ideias dado pelo professor é o que mais encanta a aluna do 1º ano do ensino médio Júlia Vivas, 15 anos. "A aula tem um direcionamento diferente. Gosto muito de discutir pensamentos, porque isso acaba fazendo as pessoas se socializarem", conta empolgada.

Para o debate não ficar somente no campo das ideias, desde que começou a trabalhar no colégio Leonardo organiza e propões ações sociais para que os alunos desenvolvam o trabalho voluntário. "Por mais que a gente trabalhe a leitura, o exercício e o debate, a ação faz muita diferença. A pratica social consegue sensibilizar e mudar a atitude do aluno", entusiasma-se. Todos os anos o professor coordena pelo menos duas ações: doação de dinheiro para a Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace) por meio da venda de hambúrgueres e doações de materiais de higiene pessoal e gêneros alimentícios arrecadados em gincana do ensino fundamental. Adriana Seixas, 15 anos, é aluna do 1º ano do ensino médio e se sente com as ações do educador. "O exemplo de vida dele em ajudar as pessoas me inspira muito. Ao ajudar o próximo eu sinto gratidão por conseguir ajudá-lo de alguma forma. Isso me impulsiona a fazer mais ações sociais", opina. Além das ações realizadas com o colégio, Léo é voluntário da Abrace. "Me orgulho em fazer a diferença em uma ação social. Penso que meu trabalho é uma sementinha plantada para ajudar na transformação social", completa.

A vontade dar aula foi ficando clara a medida que Leonardo Eustáquio revisava os conteúdos passados durante o ensino médio. "Muitas vezes quando eu lia um texto ou quando eu estava estudando alguma coisa de matemática a forma de fixar aquele conteúdo era me imaginar dando aula para mim sobre aquele assunto. Buscava aprender para depois ensinar", conta o professor. A primeira turma do professor foi em 1995 na unidade do Ciman no Cruzeiro. Ele começou dando aula de ensino religioso. Em 2000, após conversar com a direção da instituição, Leonardo passou a ministrar aulas de ética. "A aula sobre ética é mais plural por não ter o vínculo da religião. Tem mais possibilidades de discursão e trabalho", explica a decisão. Atualmente, ele dá aula para os 9º anos e ensino médio e coordena o núcleo de ética e cidadania que auxilia os professores abordar o assunto na sala de aula e organiza ações e atividade para promover ações éticas e cidadãs entre os alunos.

Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press


Envolver os alunos no universo da tecnologia, da literatura e da arte. É essa a função que a professora Cynthia Machado, 50 anos, tem desempenhado há 12 anos no Centro de Ensino Médio Setor Oeste (Cemso). Ela está à frente do projeto interdisciplinar Tecliarte, que já rompeu os muros da escola e chega a locais como o Museu Nacional da República. Com performances, vídeos, sarau poético e exposição fotográfica, entre outras atividades, o projeto realiza mostras anuais desde 2009. Formada em artes cênicas pela faculdade Dulcina de Moraes, a carioca, que se mudou para Brasília ainda na infância, é professora há 17 anos. "Meu pai era assistente social e minha mãe, professora. Chegamos a morar durante um tempo na Granja das Oliveiras (à época, um centro para jovens abandonados). Minha mãe sempre trabalhou buscando fazer a diferença na educação e procurava ensinar coisas que as crianças levassem para fora da escola. Isso é algo que me motiva, sempre me motivou", conta a tia Cynthia, como é chamada por seus alunos de 2º e 3º ano do ensino médio.

Em suas aulas, ela não anota coisas no quadro nem passa muito tempo sentada. Porém, se engana quem pensa que é tudo diversão. "Falando assim, vão pensar que sou um docinho! Mas eu não gosto que os alunos se atrasem, isso eu levo bastante a sério", diz. Os alunos são convidados a refletir sobre arte em diferentes aspectos e também a construir suas próprias obras de arte. "Eles têm muito a dizer. As obras têm os mais variados temas, abordam adolescência, família, amor", conta. "No meu caso, as aulas da tia Cynthia influenciaram o que eu escolhi para fazer na faculdade", conta Fernanda Gomes, ex-aluna que hoje cursa o 1º semestre de teoria crítica e história da arte na Universidade de Brasília (UnB). A jovem chega à faculdade com dois filmes no currículo, produzidos junto a colegas do projeto. O carinho é tanto que Fernanda e mais 13 ex-alunos compõem uma equipe de produção que auxilia a professora a tocar o projeto. Muitos deles fazem cursos superiores ligados às artes.

"Eu sempre soube que queria ser professora de música, mas a influência da professora veio no sentido de me abrir mais possibilidades. O aprendizagem que tive aqui vai para a vida. Antes, eu tinha receio sobre como seria trabalhar em uma escola regular, eu considerava ir para escolas de música. A partir dessa experiência, eu me vejo trabalhando em uma escola de ensino regular", conta a ex-aluna Juliana Maria da Cunha, 19 anos. Ela cursa o 4º semestre de licenciatura em música na UnB e atualmente participa de um Programa de Iniciação à Docência (Pibid) com a professora Cynthia, no Cemso. A professora fala apaixonadamente sobre os trabalhos de seus alunos. Num armário, guarda alguns antigos, de mais de dez anos. Se emociona ao assistir os filmes 100% produzidos por alunos.

"O projeto permite que os alunos expressem suas habilidades individuais. Eles utilizam a capacidade verbal, corporal e argumentativa. Isso vai contra a massificação que nós vemos no ensino médio que só prepara o aluno para fazer provas. Muitas vezes me surpreendi ao assistir apresentações de alunos", conta Johnny Viana, professor de geografia do colégio. "Algo que me empolga bastante sobre esse projeto é a possibilidade de trabalho coletivo. Ninguém vive sozinho", completa o professor de sociologia Glauco Silva. Os alunos concordam. "Ela entrega muito amor e motiva a gente a fazer o que queremos fazer. Esse é um projeto incrível", diz Isabelle Viana, 17 anos, ex-aluna que hoje estuda publicidade.

Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press


Em mais de 30 anos de carreira, o professor Ricardo Gauche lecionou no ensino básico e no superior, em instituições públicas e privadas. Quem vê hoje o coordenador de Integração de Licenciaturas do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ/UnB), talvez não imagine que, em 1978, ao fazer o vestibular, o professor tenha marcado geologia como primeira opção de curso.

"No terceiro ano, apaixonado por química, decidi por mudar de curso. Fui para o bacharelado. Um colega me apresentou a licenciatura e me ajudou encontrar minha realização profissional e pessoal no exercício da docência. Ao concluir o bacharelado, fiz questão de concluir a licenciatura em química também! Para mim, desde sempre, fazer o que se ama para sempre amar o que se faz, é vital, essencial, imprescindível", diz o professor, que dá aulas na graduação e na pós, além de coordenar o Programa de Inciação à Docência (Pibid) da UnB ao lado de outros colegas. O programa conta hoje com 90 mil bolsistas e 20 subprojetos. "Devo muito à UnB, como ex-aluno e também como docente, o que muito me honra, especialmente pelos alunos que tive e tenho e pelos colegas de trabalho, em todos os níveis", diz.

Para a mestranda em ensino da ciência Mayara Soares de Melo, 25 anos, o professor teve especial importância durante sua graduação. "Fiquei grávida durante o período de licenciatura e, na época, ele era coordenador do curso. Ele fez de tudo para que eu resolvesse as coisas sem me deslocar. Também me lembro que, durante as aulas, ele discutia muito as questões políticas e sociais que envolvem o ensino", relembra. "Os professores que temos aqui na licenciatura em química, incluído o professor Gauche, são referência no país. Sinto muito orgulho de ter me formado aqui", diz Ângelo Pereira de Carvalho, 24 anos.

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