Enem sob suspeita

Quadrilha mineira que fraudava vestibular de faculdades de medicina também quebrou o sigilo de provas do Exame Nacional deste ano

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postado em 20/12/2013 12:49 / atualizado em 20/12/2013 11:55

Guilherme Paranaiba

Polícia Civil-MG/Divulgação
Belo Horizonte — Um esquema milionário de fraude descoberto pela Polícia Civil de Minas Gerais colocou mais uma vez em dúvida a segurança e a lisura do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Depois de desbaratar uma quadrilha especializada em fraudar vestibulares de medicina em faculdades particulares de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, os policiais perceberam que um dos envolvidos comprou as provas do Enem de 2013 de um fiscal e repassou os gabaritos aos candidatos, que teriam desembolsado entre R$ 70 mil e R$ 100 mil pelas informações. Segundo admitiu o comprador do teste, José Cláudio de Oliveira, 41, flagrado em inúmeras escutas telefônicas pela polícia, a fragilidade do controle das salas em que as provas eram feitas facilitou as fraudes.

Os candidatos receberiam as respostas por telefone celular. Há indícios concretos, segundo a polícia, de que 40 pessoas estavam relacionadas para receber a cola, que poderia render entre R$ 2,8 milhões e R$ 4 milhões aos criminosos. Como o Enem é nacional, a Polícia Federal entrou no caso, cujo inquérito já tem cerca de 3 mil páginas. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo Enem, informou, em nota, que até o momento não existe indício de fraude.

Das 21 pessoas presas pela Polícia Civil em 3 de dezembro em 17 cidades de Minas e do Rio de Janeiro, a investigação verificou o envolvimento de duas na fraude do Enem. José Cláudio, que estuda medicina na Faculdade de Barbacena, é apontado como o mentor do golpe. Figura de destaque no grupo que atuou em pelo menos 11 universidades mineiras e fluminenses, ele tinha um alto padrão de vida. Em duas mensagens de texto, interceptadas pela polícia, ele diz que pagou R$ 10 mil para receber dois cadernos de prova de cor amarela do Enem. As provas foram aplicadas em 26 e 27 de outubro deste ano. O outro envolvido é o funcionário público aposentado Quintino Ribeiro Neto, 63 anos, responsável por cooptar candidatos para o esquema.

“O Enem é bagunçado, não tem fiscalização. É escolinha pública que aplica”. “É vaga de federal, pode ficar tranquilo”. “São essas velhinhas de colégio que tomam conta”. “É bagunçado, é a maior zona, não tem detector de metal”. Nos trechos de conversas interceptadas pela polícia entre José Cláudio e interessados no esquema, ele tenta mostrar para as pessoas que, diferentemente de vestibulares para medicina, o Enem é frágil em termos de segurança. “No Enem eu vou te cobrar R$ 70 mil. Depois não vai pagar faculdade”, afirma o criminoso em outra conversa.

Quintino Ribeiro aliciava os candidatos
Lista de clientes
Segundo o delegado Fernando Lima, responsável pelas investigações, os dois cadernos de provas adquiridos por José Cláudio foram encontrados com ele em 3 de dezembro. No verso de um, havia o gabarito da prova amarela. No verso do outro, foram encontrados 40 números de telefone celular, de candidatos que mostraram interesse em receber as respostas. Na lista estão números de cidades mineiras, fluminenses e até de Fortaleza.

“Não tenho dúvida alguma que houve fraude no Enem”, diz o delegado Fernando Lima, da delegacia de Caratinga, no Vale do Rio Doce, onde começaram as investigações. Segundo o policial, só falta saber como a prova foi parar nas mãos de José Cláudio.

De acordo com as investigações, a quadrilha que fraudou vestibulares de 11 faculdades em Minas e no Rio de Janeiro chegou a oferecer para candidatos serviços em outras 16 instituições, mas não foram encontrados problemas em nenhuma delas. Entre as universidades estão instituições de referência, como a UnB e a PUC de Campinas.

R$ 100 mil
Preço que a quadrilha chegava a cobrar dos candidatos pelas respostas da prova do Enem

“O Enem é bagunçado, não tem fiscalização. É escolinha pública que aplica, é a maior zona, não tem detector de metal”
Trecho da gravação de uma conversa telefônica entre José Cláudio e um candidato interessado em receber as respostas do exame

Irônicos e confiantes
Conversas telefônicas interceptadas pela Polícia Civil reforçam a suspeita de falhas de segurança na aplicação do Enem. Em uma ligação feita em 15 de outubro, um homem conversa com José Cláudio Oliveira, de 41 anos, apontado pela polícia como coordenador do esquema. Na ocasião, faltavam 11 dias para o exame e o suspeito chega a ser irônico ao falar da segurança durante as provas: “O Vítor te passou o negócio?”. Cláudio responde que sim: “Eu falei para ele que vou ter o gabarito do Enem também”. “O Enem é mais fácil?”, questiona o interlocutor. “É mais fácil, ‘né’? Bagunçado, ‘né’? É esse povinho de colégio que toma conta. Não tem detector de metal, não tem nada no banheiro, é tudo uma zona”, completa. Na mesma conversa, o valor do gabarito é acertado: “Você pode me passar R$ 70 mil e cobrar aí R$ 100 mil”, diz o homem.

Para a polícia, esse é o indicativo de que José Cláudio conversava com outro corretor, que queria agenciar candidatos para ganhar dinheiro. Se o negócio fosse fechado e resultasse em aprovação, Cláudio ficaria com os R$ 70 mil e o corretor não identificado levaria R$ 30 mil.

Em 27 de outubro, às 18h11, quando as provas ainda estavam ocorrendo, outro corretor liga para José Cláudio e pergunta se o cabeça do esquema já havia enviado o gabarito para uma candidata que estava fazendo a prova. “Já mandei. Tem meia hora. Ela já saiu?”, quis saber o acusado.

O funcionário público aposentado Quintino Ribeiro Neto conversa com uma pessoa não identificada, comemorando o resultado de uma das concorrentes. “Ela pegou o rosa, mas fez o gabarito no amarelo, tudo certinho”, avisa Quintino ao interlocutor. Ele também comenta que conferiu o gabarito e que o piloto acertou 75% da prova. Juntando com a redação, cujo tema foi Lei Seca, a candidata conseguiria ser aprovada. “Ela é muito criativa. Não tem medo do negócio”, completa Quintino.
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