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E agora, diplomatas?

Questões do concurso do Instituto Rio Branco são consideradas contraditórias e sofrem críticas de candidatos

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postado em 20/04/2014 12:02 / atualizado em 20/04/2014 12:03

Lucas Vidigal

O concurso do Instituto Rio Branco, um dos mais concorridos do país, tem sido alvo de críticas de professores e de candidatos às 18 vagas oferecidas este ano. A principal queixa é a falta de objetividade nos 292 itens da prova da primeira fase, aplicada em 6 de abril pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe/UnB). O resultado do exame sai em 28 de abril.

Candidatos ao Curso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD) argumentam que o gabarito preliminar, divulgado em 8 de abril, foi arbitrário em alguns itens. Mais de 150 pessoas se reúnem em grupo formado em uma rede social para debater e contestar a prova. “As questões dão margem a mais de uma interpretação, e as respostas não vêm com justificativa da banca”, reclama a servidora pública Priscila Vianna, 32 anos, candidata a uma das vagas e integrante do grupo. O prazo para recursos terminou em 10 de abril, mas o edital não especifica a data de divulgação do gabarito definitivo.

O professor Marcello Bolzan, diretor do curso preparatório Instituto de Desenvolvimento e Estudos do Governo (Ideg), aponta a ausência de uma bibliografia definida como causa da falta de objetividade. Desde 2011, o Cespe não indica no edital os livros utilizados na formulação da prova. “Conteúdos de ciências humanas são apresentados sob visões diferentes, de acordo com cada autor. O que parece é que a banca quer competir com o candidato, e não avaliá-lo”, afirma o especialista.

Para o professor Carlos Eduardo Vidigal, sócio do curso preparatório O Diplomata, as questões não tiveram nível de dificuldade alto. Porém, ele reconhece que o formato de alguns dos itens a serem julgados dá margem a dúvidas. “Qualquer questão que afirme algo como certo ou errado pode ser cientificamente refutada”, diz. Para evitar esse problema, o professor recomenda que o candidato direcione a resposta de acordo com a terminologia usada pela disciplina. “O aluno deve abordar as matérias segundo os conceitos próprios de cada uma delas. Não é indicado usar conceitos de uma para responder a outra”, sugere.

O candidato Bernardo Feitosa, 24 anos, espera que o gabarito seja justificado. “Os itens não deveriam ser controversos, com visões defendidas por alguns autores e outros não”, comenta. Para ele, a prova não privilegia o candidato mais bem preparado. “A diferença entre o aluno que passa e aquele que não passa é de décimos, então não dá para aceitar que haja tantas questões contraditórias”, reclama Bernardo.

Em nota, o Cespe/UnB afirma que as regras dos certames aplicados pela banca “são definidas em comum acordo entre as instituições contratante e contratada”. Ainda segundo a banca, a bibliografia não é colocada nos editais porque pode ferir a isonomia dos candidatos ao propor livros que, às vezes, são difíceis de ser adquiridos por estudantes de baixa renda (veja o quadro).

Concorrência maior
A polêmica das questões com gabaritos questionáveis mobiliza os candidatos porque o número de vagas oferecido no concurso do Instituto Rio Branco em 2014 é bem pequeno: apenas 18 entre 4.151 inscritos serão chamados, ou seja, são 230 candidatos por vaga. A quantidade de oportunidades é a menor desde o início do registro no instituto, em 1996, quando 30 novos diplomatas foram selecionados.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, a diminuição era esperada. Em 2005, o governo aprovou lei que criava 400 novas vagas de diplomatas, supridas até 2010. A partir do ano seguinte, o Itamaraty abriu oportunidades apenas para substituir servidores que deixaram a profissão ou morreram.

O mestrando em economia política Rodrigo Armstrong, que também leciona inglês no Ideg, é candidato ao Rio Branco desde 2010. Ele acredita que a prova vem se tornando cada vez mais imprevisível, conforme o número de vagas diminui. “Em 2010, eu sabia o que esperar da banca. Hoje, já não sei mais”, relata.

Mesmo com a subjetividade das questões da primeira fase, candidatos e professores reconhecem que a seleção de diplomatas brasileiros é uma das mais qualificadas no mundo inteiro. “Em geral, as provas das fases seguintes são muito bem elaboradas e levam o candidato a refletir sobre o conteúdo estudado”, comenta Rodrigo.

O Ministério das Relações Exteriores afirmou que a responsabilidade da primeira fase do certame é do Cespe/UnB, cujos professores convocados em sigilo elaboram as questões. A partir da segunda fase, sempre discursiva, as provas são elaboradas e corrigidas por diplomatas e docentes do quadro do Instituto Rio Branco.

O outro lado
Leia a íntegra da nota da Assessoria Técnica de Comunicação do Cespe

O Cespe/UnB informa que qualquer candidato que discorde do gabarito oficial preliminar de qualquer item/questão divulgado pelo Centro, dispõe do período recursal para oferecer os argumentos que justifiquem a sua discordância. Quanto à alteração de gabaritos oficiais preliminares, há essa possibilidade prevista no edital de abertura do certame, e qualquer alteração é decorrente da análise dos recursos interpostos. Este Centro esclarece que a estrutura da prova (quantidade e tipo de questões, tempo de duração, objetos de avaliação, entre outros) é estabelecida com base na complexidade e nas características do cargo público para o qual a seleção está destinada. A explicitação da referida estrutura é feita no edital de abertura do certame, ao qual o candidato adere ao efetuar a inscrição. O Cespe/UnB esclarece, ainda, que os editais de abertura de todos os concursos, que contêm as regras que regem os certames, são definidos em comum acordo entre as instituições contratante e contratada. Este Centro informa, ainda, que, por questões de segurança, as bancas examinadoras do Cespe/UnB, que são formadas por especialistas criteriosamente escolhidos, são mantidas em absoluto sigilo.

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