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Cursinhos perdem até 60% dos alunos e anunciam descontos nas mensalidades

Escolas preparatórias perdem até 60% dos alunos e, para sobreviver, anunciam redução de pelo menos 20% nas mensalidades

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postado em 24/11/2014 12:05 / atualizado em 24/11/2014 12:07

Vera Batista

Estudantes estão com dificuldades financeiras devido à inflação alta e ao elevado endividamento das famílias (Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press) 
Estudantes estão com dificuldades financeiras devido à inflação alta e ao elevado endividamento das famílias


Diante da grande debandada de estudantes das salas de aula — em algumas turmas, a evasão chega a 60% —, os cursinhos preparatórios para concursos públicos estão sendo obrigados a reduzir em pelo menos 20% o valor das mensalidades para 2015. Foi o jeito encontrado pela escolas para se adaptarem à nova realidade e garantir o maior número possível de alunos. Os empresários reconhecem: apesar do desejo latente de entrar para o governo, no qual há garantia de bom salário e estabilidade no emprego, o bolso dos concurseiros está falando mais alto. Muitos tiveram a renda solapada pela inflação alta e as famílias, que bancam parte dos custos com as aulas, estão superendividadas.
 
A situação está tão complicada que um dos maiores cursinhos do Distrito Federal, o Gran Cursos, fechará a sua sede no Setor de Indústrias Gráficas (SIG) e concentrará as atividades na Asa Sul, em um espaço bem menor. Além da fragilidade da economia, o dono da instituição, Wilson Granjeiro, atribuiu a menor disposição dos alunos em bancar cursos de até R$ 6 mil ao aumento da concorrência das aulas on-line gratuitas e aos chamados aulões — eventos específicos com foco em matérias mais importantes para determinados certames.

A redução do número de alunos em salas de aula começou a ser percebida desde junho, com a Copa do Mundo. De início, os empresários acreditaram que o cancelamento de matrículas era passageiro, já que o mundial de futebol coincidiu com as férias de meio de ano. Mas com a economia em recessão, a carestia persistente e a renda comprometida com dívidas, nem o setor que se mostrava imune à crise conseguiu se manter de pé. O jeito será baixar os preços para ganhar escala e, claro, enxugar as estruturas.

Concorrência


Apesar da evidente contração do mercado, Granjeiro minimiza os problemas. “Não se trata de crise. São as tendências. Não há mais como manter grandes estruturas para os cursos”, afirma, referindo-se à sede do Gran Cursos no SIG, onde se estabeleceu há 26 anos. “Vamos partir para unidades mais modernas, menores e mais seguras”, assinala. Ele reconhece que, por questão de sobrevivência, o valor pago pelos estudantes terá de cair. E ressalta que cerca de 10 tradicionais concorrentes fecharam as portas das escolas preparatórias nos últimos meses.

Para se adaptar aos novos tempos, o Gran Cursos contratou uma consultoria especializada em reestruturação, a RGF Associados, para definir que caminho seguir. “O trabalho de formatação termina em dezembro”, conta Granjeiro. No novo desenho, o filho do empresário, Gabriel, 22 anos, recém-formado em negócios pela Universidade de Nova York, vai dirigir os cursos on-line. Granjeiro e a mulher, Ivonete, administrarão outros ativos, como marcas e patentes e franquias do uso da tecnologia.

“Vamos dar um salto a partir de 1º de janeiro de 2015. A ideia é atrair mais estudantes, com menor preço, manter a qualidade e ganhar com a quantidade”, destaca o dono do Gran Cursos. Nesse enxugamento, o número de professores será reduzido. “Ficarão os mais preparados, bem avaliados e os mais leais. Os próprios alunos já apontaram quem eles querem que continue”, afirma.

Ernani Pimentel, dono do Grupo Vestcon e um dos principais concorrentes de Granjeiro, admite que não há escapatória. É mudar para sobreviver. “Estamos sendo vítimas da crise econômica. A sensação que temos é a de que o dinheiro parou de circular em todos os segmentos empresariais”, enfatiza. Ele destaca que muitas empresas estão descapitalizadas e atrasando salários. “O nível de endividamento das famílias subiu muito. Nesse quadro, uma das coisas que as pessoas cortam são os estudos. E um número menor de estudantes derruba o faturamento dos cursinhos”, explica.

Na avaliação de Pimentel, a nova estrutura das escolas preparatórias ficará mais clara em dezembro, quando se encerram as aulas e se fechará o planejamento para o próximo ano com base na quantidade de concursos e de vagas disponíveis na administração pública. Uma tendência é clara: enxugamento do quadro de pessoal. “Estamos convivendo com o seguinte dilema: baixar preço ou manter os valores e reduzir a quantidade de alunos”, frisa.

Para Max Kolbe, advogado e professor de direito constitucional e defesa do consumidor, as mudanças no setor de cursos preparatórios eram esperada e fazem parte do conceito de modernidade. “Antes, os melhores professores estavam nos cursos pré-vestibulares. Passaram para os preparatórios. Agora, estão indo para a internet”, simplifica. Os concurseiros devem, contudo, ficar de olho tanto nas aulas on-line quanto nas presenciais.

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“Com a redução de preço dos cursos, a qualidade tende a cair. A maioria não admite, mas os empresários normalmente fazem o contrário do que dizem, ou seja, demitem os professores mais caros e eficientes e contratam os mais baratos, normalmente iniciantes”, diz Kolbe. “Portanto, os alunos terão que dar uma boa garimpada para não jogar dinheiro fora e não sofrer as consequências do péssimo aprendizado mais tarde”, emenda ele, lembrando que, por conta da crise, há docentes sem receber salários há mais de quatro meses. 
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