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Qualificar é preciso

A falta de habilidades dos trabalhadores afeta a competitividade das empresas. Especialistas afirmam que a educação infantil é a base para garantir emprego no futuro

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postado em 20/08/2012 09:48 / atualizado em 20/08/2012 09:52

Mariana Niederauer

Ronaldo de Oliveira
Antes de concluir o ensino médio na rede pública de educação, Francisco Leonardo Mota, 25 anos, começou a perceber que precisaria buscar alternativas de qualificação para garantir uma boa posição no mercado de trabalho. “Mesmo cursando o segundo ano, eu ainda não tinha perspectiva nenhuma de vida. Nunca tinha parado para pensar no que eu faria dali em diante”, relata. O aprendizado que teve na escola não o ajudou a decidir qual carreira seguir nem o preparou para a inserção num ambiente profissional. “Eu conhecia as matérias, sempre gostei muito estudar, mas não sabia qual era o fundamento delas, não sabia aonde elas iriam me direcionar”, completa.

A saída que Francisco encontrou foi se concentrar em uma área de atuação: a informática. Ainda no terceiro ano do ensino médio, foi selecionado para uma disciplina técnica de dois anos numa escola pública. Depois disso, fez pelo menos sete workshops on-line ou presenciais. “Eles foram essenciais na seleção do meu currículo e, profissionalmente, também me ajudaram bastante”, conta.

Morador de Ceilândia e caçula de oito irmãos, paga com esforço a mensalidade do curso de análise de sistemas, porém, alcançou a tão esperada colocação no setor do mercado que escolheu. Hoje, o jovem faz estágio na área de tecnologia da informação. A última reportagem da série Apagão de mão de obra traz a grande defasagem que existe entre a escola e o mercado de trabalho.

Pesquisa divulgada este mês pela Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), que ouviu 137 empresas brasileiras, comprova o problema na formação escolar dos jovens do país. O levantamento mostrou que em 95% delas os contratantes acreditam que o sistema educacional não está adequado às oportunidades do momento econômico pelo qual o Brasil passa.

O superintendente-geral da FNQ, Jairo Martins, explica que a pesquisa constatou que a falta de qualificação dos trabalhadores está afetando a competitividade das organizações. Segundo Martins, eles entram no mercado com falhas graves nas formações básica e universitária, e as iniciativas do governo são pouco eficazes. “Não adianta criar uma série de incentivos e programas de estímulo à entrada na universidade se as pessoas não chegam à academia preparadas para absorver os conhecimentos”, adverte.

Efeito cascata
Para a diretora executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz, as falhas na formação básica dos brasileiros podem ser percebidas mais tarde, quando eles chegam ao ensino superior e ao ambiente profissional. “Podemos dizer, sem medo de errar, que uma boa empregabilidade começa na educação infantil”, garante.

Funciona como um efeito cascata: essa etapa do ensino vai preparar o estudante para a alfabetização, de onde ele seguirá para o restante dos ensinos fundamental e médio e poderá ter um aproveitamento pleno na educação superior. “O que temos visto no Brasil é quase o contrário disso. Não temos dado conta de garantir a aprendizagem na educação básica”, lamenta Priscila. O resultado é que, segundo ela, universidades públicas e particulares estão incluindo um semestre no currículo para oferecer reforço escolar com o conteúdo que deveria ter sido obtido na educação básica.

“Eu acho que a escola não motiva o aluno a escolher uma profissão, pois a gente só aprende as matérias básicas”, critica a auxiliar de produção Hyara Morais, 26 anos. Ela considera que não teve a preparação necessária para decidir com clareza a profissão a seguir. Após concluir o ensino médio, em 2003, entrou para a faculdade de administração, mas não conseguiu arcar com a mensalidade e deixou o curso após o terceiro semestre. Chegou a fazer, ainda, cursos técnicos de radiologia e secretariado. Agora, trabalha numa área totalmente diferente: a de guarda de arquivos.

Hyara reclama da falta de oportunidades gratuitas de qualificação. Tentou aproveitar aquelas oferecidas pelo governo, mas não conseguiu comprovar a baixa renda. “Eu precisava da ajuda, pois nós éramos três filhas e não tínhamos casa própria. Enfrentei esse impasse e acho que foi o que mais me prejudicou.”

Para o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, os problemas que o sistema educacional brasileiro enfrenta contribuem para a reprodução da pobreza. Ele ressalta que, do ponto de vista da cidadania, quando se nega o direito de acesso à educação gratuita a toda a população, criam-se barreiras para que os cidadãos desenvolvam habilidades. Em consequência, os jovens não conseguem atender às demandas do mercado.

“Um dos nosso gargalos estruturais na economia é justamente preparar os trabalhadores para o crescimento da produtividade”, afirma Ganz Lúcio, membro também do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Os resultados do último relatório do conselho indicam que o país tem um nível baixo de escolaridade, considerando o tempo médio de estudos em comparação com o de outros países. “Falta um sistema único nacional de educação, que integre essas questões e faça do ensino uma prioridade”, conclui.

Falta evolução
Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2011, divulgados na última quinta-feira, indicam que o nível do ensino médio, diferentemente das outras etapas, não superou a meta projetada para o período (3,7). O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, atribui a estabilidade ao currículo — com 13 disciplinas obrigatórias —, que não permite um foco na vida profissional. Segundo ele, está nos planos do ministério reformular a estrutura dessa etapa do ensino.

“É um problema com muitas faces. É preciso identificar quais tipos de profissional o mercado tem carência e fazer a tradução do que deve ser feito no universo das escolas e do ensino superior”
Paulo Meyer Nascimento, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

 

Jovens no mercado O pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Paulo Meyer Nascimento lembra que o país passa por um momento importante de transição demográfica, onde a base da pirâmide etária está a mais larga possível. Isso quer dizer que existem mais pessoas produzindo do que as que dependem do Estado, pois se aposentaram. “Hoje, nós temos um grande número de pessoas em idade de trabalhar. É uma oportunidade única”, aponta. A população vai envelhecer cada vez mais, por isso é hora de se preocupar com a qualificação para impulsionar o crescimento do país.

Nascimento, que faz parte de um grupo de pesquisa sobre o tema, acredita que o próximo passo para suprir a carência de mão de obra qualificada é investir na qualidade do ensino e na interiorização dos profissionais com objetivo de suprir a demanda em determinadas regiões do país.

Os estudos indicam que não há um deficit quantitativo, uma vez que sai das universidades o número de estudantes correspondente aos postos de trabalho oferecidos. O que não foi possível mensurar ainda é o tipo de formação necessária. “É um problema com muitas faces. É preciso identificar quais tipos de profissional o mercado tem carência e fazer a tradução do que deve ser feito no universo das escolas e do ensino superior”, recomenda. 

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