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Estudar o português é investir na carreira

Empresas enfrentam desafio na hora de selecionar profissionais capazes de escrever e falar de forma correta. Segundo especialistas, leitura e cursos de reciclagem são fundamentais para desenvolver essas habilidades

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postado em 27/08/2012 09:44 / atualizado em 27/08/2012 10:21

Mariana Niederauer

O domínio da língua portuguesa é determinante para a seleção no mercado de trabalho, mas as empresas têm encontrado dificuldades em recrutar profissionais que preencham esse pré-requisito. O uso de jargões corporativos que outros funcionários não entendem e até erros gramaticais básicos, como a grafia incorreta das palavras e a falta de coesão entre as frases, comprometem a comunicação e expõem profissionais desde o nível operacional até os cargos de gestão. Em tempos em que a troca de informações on-line virou rotina, torna-se essencial prestar atenção ao uso correto da norma culta. Vale, inclusive, participar de cursos de reciclagem para atualizar os conhecimentos.

Gustavo Moreno
Falhas no domínio do português prejudicam qualquer profissional, pois não são perceptíveis apenas na correção gramatical do texto escrito, podem comprometer, também, habilidades em outras áreas. A escritora e professora aposentada do Instituto de Letras da Universidade de Brasília Lucília Garcez afirma que a língua aprimora características cognitivas importantes, como a capacidade de formular hipóteses e de fazer avaliações. “Tudo isso é construído no desenvolvimento da linguagem”, explica.

“As pessoas têm de ser mais atentas, pois nós falamos de uma maneira muito espontânea e natural, mas, com a língua escrita e a língua falada formal, há a necessidade de ter mais cuidado”, alerta. Para a especialista, é somente por meio da leitura que se desenvolve essa habilidade. Ela sugere que os trabalhadores busquem jornais de grande circulação, revistas semanais e obras literárias, meios que usam a língua em sua possibilidade plena. Lucília lembra ainda, que, sem o domínio do português, fica mais difícil aprender outro idioma.

A servidora pública Maria Abadia Silva, 49 anos, trabalha com a elaboração de pareceres e faz um curso de português para atualizar os conhecimentos. “A redação oficial tem de estar impecável, por isso, acho importante me reciclar”, diz. Ela possui três graduações no currículo e fala inglês. Mesmo assim, acredita que, por causa da evolução da língua, o aprendizado precisa ser constante. O principal objetivo da servidora é dominar o Novo Acor do Ortográfico da Língua Portuguesa.

Colega de Maria Abadia no curso, Jonas Ricardo Rossi Cardoso, 24 anos, atua em uma área que costuma ser lembrada por concentrar profissionais pouco capacitados na leitura e na escrita. Ele é bancário e trabalha com informática. O jovem relata que, ao longo da graduação, não teve aulas de língua portuguesa, já que o conteúdo não constava do currículo. Esse é um dos motivos que o fez buscar a reciclagem. Jonas conta que alguns amigos não compreendem sua motivação para ter voltado a estudar. “O pessoal pergunta qual a razão de eu fazer essas aulas se já trabalho”, conta. Mesmo assim, ele aposta na qualificação contínua. “Também acho que só um curso não resolve, não vai ensinar para a gente o que deveríamos ter aprendido ao longo de oito, nove anos de escola”, finaliza.

Coerência

A editora de Opinião do Correio, Dad Squarisi, afirma que o domínio da língua portuguesa conta muito no recrutamento de candidatos. “Em geral, nos testes de conhecimentos técnicos, as pessoas se saem bem. O que define a seleção é a redação e o domínio da norma culta”, destaca. Dad explica que é preciso ter um texto bom e coerente. A mesma regra vale para a entrevista: saber expor com clareza e correção as ideias faz toda a diferença. Ela lembra que, por causa da internet, a escrita passou a ser mais valorizada, já que tudo fica registrado no meio eletrônico. Por isso, o cuidado deve ser redobrado. “A redação profissional é o cartão de visita. Quando tem erros de grafia ou de acentuação, a pessoa está dando um atestado de que não tem domínio da língua.”

De acordo com o professor Filemon, uma das principais falhas na hora de redigir textos está na supressão dos conectivos, sobretudo quando se trata de mensagens menos formais, como e-mails. “A linguagem da internet leva a isso. No Twitter, por exemplo, você tem uma quantidade máxima de caracteres”, assinala. No ambiente profissional, no entanto, não há espaço para esse tipo de erro. Isso não significa que o texto precisa ser erudito ou complexo, deve apenas seguir o padrão formal da língua “O melhor é que seja simples.”

Escrever errado pode, inclusive, prejudicar o profissional em uma possível promoção. Ler muito — o que inclui gramáticas e o dicionário — e buscar cursos de português são as dicas para driblar o problema. Dad Squarisi ressalta que redigir bem não é questão de talento, nem dom divino, depende de treino. “Um bom texto é aquele que dá o recado: eu digo o que tenho que dizer e a pessoa entende o que eu quero que ela entenda. Para isso, tem que ser claro, preciso, conciso e sedutor, para a que a pessoa embarque no meu texto”, conclui.

A consultora Sueli Aznar, da empresa especializada em gestão de carreira e talentos Right Management, alerta que as deficiências no domínio da língua afetam não só os funcionários que ocupam níveis operacionais, mas também os gestores. Segundo ela, esses erros podem ser vistos nas entrevistas de emprego e em apresentações. “Quando ele (o executivo) quer expressar uma posição mais estratégica, é mais difícil”, indica. O uso de termos em inglês que podem ser substituídos por expressões no idioma natal também é um problema, pois mostra a incapacidade de fazer relações com as palavras em português e o profissional corre o risco de parecer arrogante. “Na verdade, isso mostra que ele não se apropriou perfeitamente do conceito”, afirma.

Novas regras
Em 1º de janeiro de 2009, teve início o período de transição para o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Este é o último ano para que os brasileiros se adaptem às novas regras. No primeiro dia de 2013, elas passam a ser orbrigatórias.

Palavra de especialista


Falhas no ensino
“Ter o domínio da linguagem acadêmica representa, hoje, um diferencial importante no mercado de trabalho. A maneira como se fala e como se escreve determina melhores e piores perspectivas no âmbito profissional. Infelizmente, a efetiva aprendizagem da língua escrita é algo que vem se perdendo dentro das escolas. Ainda que não se possa generalizar o fracasso escolar para todas as instituições, nitidamente há um comprometimento da qualidade da educação. A dinâmica do ensino ainda fica circunscrita ao formalismo das lições insípidas, repetitivas e pouco significativas, comprometendo a motivação para aprender. Dessa forma, a escrita aparece na escola como um conhecimento formal, distante das práticas sociais de uso e, portanto, apartada das situações concretas de vida. A escola ensina a ler e a escrever, mas não garante a formação dos hábitos de leitura; não ensina a gostar de ler e escrever nem como se tornar um efetivo usuário da língua escrita. Mais do que redigir corretamente, a alfabetização deveria proporcionar ao sujeito a oportunidade de se aventurar na língua para dialogar com os outros, libertar o pensamento e compreender o mundo.”

Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro A escola que (não) ensina a escrever.

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