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Orgulho de ser um trabalhador

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postado em 21/01/2013 12:32 / atualizado em 05/02/2014 11:07

Para muitos, o processo é natural.Encontrar um bom emprego após terminar a faculdade faz parte do caminho trilhado desde o jardim da infância. No entanto, obter independência na vida adulta é uma tarefa difícil para pessoas como Michele Santos. Ela nasceu com deficiência intelectual (DI), o que dificulta o aprendizado. Aos 32 anos, cursa o 3º ano do ensino básico, mas nem por isso desistiu do que chama da“vida de gente grande”. Michele faz parte de uma turma de oito pessoas com DI que trabalham na higienização de documentos antigos da Coordenação de Preservação de Bens Culturais da Câmara dos Deputados. A chance é resultado de uma parceria de órgãos federais com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do Distrito Federal (Apae-DF).

O projeto Emprego Competitivo Apoiado inseriu, desde 2007, 26 portadores de DI no mercado de trabalho. Eles atuam na área de conservação dos volumes, por meio de higienização de livros e documentos. Os oito alunos na Câmara dos Deputados conseguem, por ano, limpar e conservar mais de 540 mil folhas. “Trabalhar me animou para estudar. Quero fazer faculdade e chamar os meus amigos para a formatura”, conta Michelle, que conseguiu viajar para o parque da Disney, nos Estados Unidos, com o próprio salário. “Eu ajudo meus familiares e pretendo levar meus pais para viajar em Manaus”, planeja a moradora de Sobradinho.

Outro caso de sucesso é o de Rafael Barbosa Viana, 36 anos. Ele sofreu um acidente e possui uma bala alojada na cabeça. Perdeu a visão do olho esquerdo e esqueceu-se de parte dos acontecimentos da maior parte de sua vida. No entanto, é ele quem paga o aluguel da casa e arca com as despesa de alimentação.

Para enfrentar o mercado de trabalho, os estudantes especiais passaram por treinamento na Biblioteca Central da Universidade de Brasília e também no Arquivo Público Nacional, comapoio de restauradores e conservadores profissionais durante mais de um ano. “Nunca pensei que fosse trabalharcomisso na minha vida.Nunca me passou pela cabeça que estaria na Câmara”, entusiasma-se Urbano Neiva de Aguiar, 39 anos.

Antes de trabalhar com higienização,Urbano foi repositor de uma loja de departamentos e assistente de escritório. É com a conservação que ele se identifica. Não se incomoda em trabalhar sentado durante todo o dia e sente-se orgulhosocomo título de profissional.Após realizar o curso, recebeu certificado daUnB de higienizador. “Isso quer dizer que posso trabalhar em qualquer outro lugar”, conclui.

O psicólogo Rodolfo Ambiel, mestre e doutorando em psicologia da Universidade São Francisco, em São Paulo, explica a evolução da inclusão de portadores de DI no mercado, que começou em oficinas: “Eram locais dentro das instituições. Lá, as pessoas com deficiência aprendiam um ofício, mas não é possível considerar aquilo, de fato, comoumtrabalho nem tampouco como inclusão, pois eles ainda estavam escondidos dentro das instituições. Era meio que brincar de trabalhar”.

Segundo ele, trabalhar em um ambiente competitivo ensina as pessoascom DI a respeitar em horário de trabalho, regras e a lidar com dinheiro.Rodolfo ressalta também que não existem trabalhos exclusivos para pessoas com essa deficiência.“ Eu não teria o menor talento para fazer o que eles fazem, pois requer paciência para ficar sentado durante longas horas. O trabalho que desenvolvem não é por causa de uma limitação, mas porque eles têm aptidão para isso”, esclarece.

Concentração

A restauradora Lídia Miller, 57 anos, reconhece: “É preciso ter muita paciência para limpar página por página, além de delicadeza e concentração.A conservação de todo o acervo depende disso”. Lídia conta que, no início, a equipe ficou preocupada com a forma como deveriam lidar com os alunos: “Como tempo,  percebemos que não há diferença.Hoje Em dia,nem lembramos que portam uma deficiência”.

O psicólogo ressalta que os pais não devem temer a inserção dos filhos especiais no mundo adulto. “Não é incomum que as crianças com DI se tornem adolescentes e adultos que não aprenderam a confiar na própria capacidade.Mas, quando começam a ganhar o próprio dinheiro e até a sustentar a família, eles percebem sua capacidade e sentem-se produtivos. Isso certamente tem repercussões emocionais muito importantes”, analisa.

O convênio da Apae (veja O que diz a lei) está firmado, hoje, com a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Palácio do Itamaraty e o Supremo Tribunal Federal. No último ano, um novo acordo foi assinado com o Ministério da Educação.

O que diz a lei

Em 24 de julho de 1991, entrou em vigor no Brasil a Lei 8.213. Também conhecida como Lei de Cotas, obriga toda empresa a ter em seu quadro de funcionários 2% portadores de necessidades especiais quando atingir o número de 100 empregados; 3%, de 201 a 500; 4%, de 501 a 1.000; e, a partir daí, 5%. No caso de descumprimento, a empresa será multada em R$ 1.105,00 para cada funcionário não contratado.

 
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