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Empreendedor social

Criador do açougue T-Bone ganha o prêmio Cidadão Cultura Popular, concedido pela Acadêmicos da Asa Norte

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postado em 28/01/2013 10:11

Mariana Niederauer


Luiz Amorim, dono do açougue: %u201CMeu partido é a arte. Eu acho que assim é possível melhorar o negócio%u201D  (Daniel Ferreira/CB/D.A Press ) 
Luiz Amorim, dono do açougue: %u201CMeu partido é a arte. Eu acho que assim é possível melhorar o negócio%u201D

Sustentabilidade e consciência social são conceitos que começaram a ser incorporados pelas empresas brasileiras há pouco tempo. No entanto, um soteropolitano que veio morar na cidade em 1973 passou a dedicar-se a essas duas ideias muito antes. Luiz Amorim foi alfabetizado aos 16 anos e, aos 18, quando leu o primeiro livro, não parou mais. Ele percebeu na leitura, e especialmente na filosofia, novos horizontes para a vida e para o empreendedorismo. Vindo de Salvador para Brasília com a mãe e os cinco irmãos, trabalhou como engraxate, vigia e lavador de carros antes de ir morar nos fundos de um açougue, onde aprendeu o ofício que se tornou paixão.

Em 1994, os donos da casa de carnes na Quadra 312 Norte resolveram mudar de atividade e venderam o negócio ao empregado mais dedicado da loja. Nessa época, a leitura já era parte essencial da vida de Luiz. Ele instalou uma pequena estante com alguns livros no próprio açougue, para que quem passasse por perto pudesse tomá-los emprestados, sem a burocracia das bibliotecas tradicionais da cidade. Muitos estranharam a combinação entre livros e carnes, mas, para Luiz, esses eram os ingredientes perfeitos para fazer o negócio dar certo e contribuir de alguma forma para a mudança social da cidade que o acolheu. “Meu sonho era ter um açougue, porque eu aprendi esse ofício desde cedo e passei a gostar muito dele. E eu não queria um açougue tradicional, meu objetivo era oferecer algo diferente. Como eu lia muito, muita filosofia, vi que trabalhar com a arte iria ser esse diferencial”, conta.

Além da estante com os livros, Luiz começou a promover as Noites Culturais e, há seis anos, expandiu o projeto literário para as paradas de ônibus do Distrito Federal. Ao todo, são 37 estantes espalhadas pela cidade e o empresário acaba de fechar parceria com o Banco de Brasília para dobrar esse número. “Hoje, faixa de pedestre e livro nas paradas de ônibus são símbolos de cidadania em Brasília”, comemora. O acervo, que varia de 15 a 20 mil obras, poderá alcançar 50 mil.

Reconhecimento
O esforço para levar cultura aos moradores da cidade é reconhecido em todo o país e até no exterior. Alemanha e Espanha são algumas das nações que copiaram o modelo da parada cultural. No ano passado, foi a vez da França levar livros às ruas. “Eu consegui ter uma empresa reconhecida na cidade com uma profissão muito simples. Eu poderia ter montado um café literário, alguma coisa mais sofisticada, nada contra. Mas isso prova que, quando você tem paixão pelo que faz, tudo vai dar certo. Acho que não vale a pena fazer as coisas só por conveniência.”

Na última sexta-feira, Luiz recebeu o título de Cidadão Cultura Popular de Brasília, concedido pela Acadêmicos da Asa Norte, mas o empresário reforça que faria tudo de novo, independentemente do reconhecimento. “Eu acho que cidadania é você fazer as coisas no sentido puro de construir uma sociedade melhor, mais justa, mais fraterna, sem esperar um retorno. Todo cidadão tem que contribuir com uma sociedade melhor”, acrescenta.

Luiz nunca se aproveitou do sucesso de suas empreitadas culturais para expandir o negócio e defende que foi esse o motivo do sucesso do açougue, lugar de onde nunca saiu. Hoje, aos 47 anos, ele mora com esposa, a gaúcha Vera Holz, num apartamento em cima da loja. “Acho que a repercussão foi grande, porque as pessoas viram sinceridade na proposta”, explica. Casados há 12 anos, Luiz e Vera têm um filho de seis, Luiz Carlos. Desde que a esposa passou a ajudar na empresa, no ano passado, a cuia de chimarrão não deixa mais o balcão do caixa. Agora que tem alguém com quem dividir as tarefas, o empresário conseguiu mais tempo para se dedicar às atividades culturais e Vera não esconde a felicidade por estar mais perto do filho e do marido.

O comerciante também busca ajudar os funcionários a expandirem os próprios horizontes, assim como ocorreu com ele ao abrir o primeiro livro. Os empregados do açougue leem todos os meses e levam resumos diários ao chefe sobre as obras. Para isso, recebem um bônus salarial de R$ 200. Luiz lembra que a presidente Dilma Rousseff aprovou, em dezembro do ano passado, um vale-cultura de R$ 50 aos trabalhadores do país que ganham até cinco salários mínimos, benefício que começará a ser concedido apenas em julho.
Cidadania

Pioneiro também no empreendedorismo social, termo que têm ganhado força no país recentemente, o criador do Açougue Cultural T-Bone acredita que o negócio dele pode servir de exemplo a outros empresários que têm vontade de contribuir para a sociedade. “Acho que gera um choque uma profissão como essa contribuir para a arte. A partir daí, as pessoas pensam: ‘Se um açougue pode fazer, todo mundo pode’.”

Apesar de ter como pensador favorito o autor do manifesto comunista, Karl Marx — uma aparente contradição para um homem no mundo do negócios, como ele próprio salienta — Luiz é um homem de pensamento livre, e acredita que conseguiu, assim, mostrar que no capitalismo tem espaço para compartilhar um bem precioso em qualquer sociedade democrática: a cidadania. “Não sigo nenhuma linha de pensamento nem política partidária. Meu partido é a arte. Eu acho que com ela é possível melhorar o negócio e ter mais sustentabilidade. O bom empreendedor tem que estar ligado à arte. Precisamos de mais poesia, os empresários precisam de mais poesia. Dessa forma, eles vão conseguir se relacionar melhor com seus funcionários.”

Evento da cidade
As Noites Culturais do açougue T-Bone completam 15 anos em 2013. Já se apresentaram no evento artistas como Alceu Valença, Elba Ramalho, Milton Nascimento, Moraes Moreira, Tom Zé, Geraldo Azevedo e até a Orquestra de Viena. Para comemorar a 15ª edição, Luiz pretende trazer uma atração internacional.

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