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Língua de trapo

A famosa fofoca na sala do café pode até ajudar a aliviar a pressão no trabalho, mas compromete a produtividade. Agir com transparência ajuda a afastar comentários maldosos

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postado em 03/02/2013 12:12


Verônica mantém o diálogo com os funcionários do salão para evitar desgates  (Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press ) 
Verônica mantém o diálogo com os funcionários do salão para evitar desgates

Qualquer assunto pode desencadear o falatório: uma promoção ou demissão injustificada, o tratamento diferenciado do chefe a um dos funcionários ou mesmo por simples mal-entendido, como um “bom-dia” ignorado. A prática da fofoca, quando recorrente no ambiente de trabalho, atrapalha a produtividade da equipe. Manter a postura profissional e transparente ajuda a afastar comentários maldosos. Do lado da empresa, abrir espaço para o diálogo entre todos os níveis hierárquicos é uma das principais formas de evitar as intrigas.

Uma história contada de forma parcial dá margem à inclusão de mentiras. “A fofoca ocorre quando a pessoa interpreta à sua maneira o que é visível. Essa visão individual, quando exposta, gera o conflito”, diz o psicólogo organizacional José Carlos da Silva.  

 Para a consultora de Recursos Humanos Sandra Betti, a fofoca tem sempre um componente negativo, seja a história verdadeira ou não. “Especulações em relação à vida alheia podem facilmente se transformar em boatos, calúnias e difamações, com consequências muitas vezes nefastas e comprometedoras. Esse tipo de comportamento demonstra imaturidade, impulsividade e competição interna”, expõe a consultora.

“Para tudo aquilo que não sabemos, a tendência é fantasiar uma explicação. Quando a comunicação funciona bem, quando as pessoas são transparentes e não há margem para interpretação, as fofocas diminuem muito”, complementa o psicólogo José Carlos. Ele recomenda que, antes de passar para frente qualquer história, deve-se primeiro refletir se aquilo é importante para a empresa. Se for esse o caso, falar primeiro com os próprios envolvidos na situação é o mais recomendável.

Rigidez corporativa
Para Ana Magnolia Mendes, psicóloga do trabalho e professora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), a fofoca também pode surgir de distorções comunicacionais causadas pela rigidez excessiva na corporação. “A organização do trabalho pode provocar certos tipos de sofrimento nos trabalhadores. O clima de competição e pressão faz com que as pessoas vivam inseguras, angustiadas e com medo de errar ou de serem discriminadas dentro do grupo. Esse mal-estar pode levá-las a utilizar várias estratégias defensivas, e uma delas é a fofoca”, explica.

A equipe que se preocupa mais em especular informações irrelevantes e menos em realizar as tarefas normalmente colhe resultados negativos. “A fofoca pode deteriorar a produtividade da empresa, baixando o rendimento das pessoas, e o alvo dos boatos fica desgastado. O quadro pode evoluir até para práticas de assédio moral”, adverte Ana Magnolia.

A falta de transparência nos procedimentos internos da corporação é o fator principal de um ambiente propício a boatos. “Uma organização que apresenta comunicação fechada com seus colaboradores pode dar margem a conversas que, muitas vezes, não são verídicas”, explica o presidente do Instituto Brasileiro de Coaching, José Roberto Marques.

Manter um canal de comunicação aberto com os funcionários, de forma que eles se sintam à vontade para conversar com os chefes antes de disseminar informações mal-apuradas, é uma alternativa para empresas que buscam o fim de conflitos internos. “Quando não conseguem ser ouvidos pelos superiores, os colaboradores podem buscar outras formas de desabafo. Conversas com os colegas podem ser um ‘escape’, e têm grandes chances de virar fofoca”, ressalta Marques, que é psicoterapeuta e especialista em desenvolvimento e em gestão de pessoas e empresas.

Na opinião do gerente executivo de uma empresa de consultoria, Luis Fernando Martins, a falta de maturidade da equipe ou até do gestor influencia na ocorrência desse tipo de situação. “A comunicação é muito alinhada à maturidade. Mesmo quando uma equipe mais madura lida com falhas, continua focada no trabalho”, explica.

Feedback é bem-vindo

Uma das melhores formas de evitar possíveis situações constrangedoras, tanto para o funcionário quanto para o gestor, é adotar a prática do feedback. O diálogo entre colegas, de nível hierárquico diferente ou não, deve expor problemas sobre o comportamento do outro e precisa ser seguido pela recomendação de soluções, de forma educada e responsável.

Já para as vítimas de um eventual falatório, não resta alternativa: é preciso procurar a origem da fofoca e tentar esclarecer a situação. “Para a pessoa que foi vítima de um boato, não tem como se defender a não ser se explicando. Quanto mais transparente alguém for, menos dará margem a outras pessoas para falarem sobre seu comportamento”, pontua Luis Fernando Martins.

Verônica Santos, dona de um salão de beleza, mantém um canal de comunicação aberto com os 15 funcionários para evitar intrigas no ambiente de trabalho. Ela também dá orientações para uma postura profissional. Falar sobre a vida de um cliente para outro, por exemplo, é proibido. Periodicamente, reúne todas para discutir problemas enfrentados no mês anterior e propor soluções. “Se uma funcionária implica com a outra, o trabalho em equipe vai parar de funcionar”, relata. O estabelecimento é elogiado, inclusive, por conta da harmonia. Verônica credita o reconhecimento ao diálogo com as colaboradoras. “Se for uma coisa pessoal, sentamos as duas funcionárias para conversar. Você pode não gostar da colega de trabalho, mas deve respeitá-la.”

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