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Profissionais são obrigados a lidar com o caos do trânsito em Brasília e perdem tempo no trajeto para o trabalho. Empresas investem em soluções para garantir que o problema não afete o rendimento

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postado em 27/05/2013 10:38 / atualizado em 27/05/2013 10:51

Gustavo Aguiar

Marcelo Ferreira

Para chegar ao trabalho, Shaiane Amador, 24 anos, sai todos os dias de casa, em Sobradinho, e cruza a cidade até o Setor Comercial Sul, na região central de Brasília. Cansada de enfrentar pontos de ônibus distantes, transporte lotado, nem sempre asseado, caro, sem segurança e, muitas vezes, atrasado, a bancária decidiu comprar um carro. Mas foi então que os problemas dela começaram de verdade. “Fico presa no trânsito por, no mínimo, duas horas por dia. Isso sem contar a luta que é para encontrar estacionamento, e a preocupação com as multas e danos ao automóvel.” No fim de um ano de trabalho, Shaiane terá desperdiçado, em média, 700 horas, ou o equivalente a um mês inteiro atrás do volante.

Depender do transporte público ou contar com a boa fluidez do trânsito momentos antes de uma reunião no trabalho ou de uma entrevista de emprego são obstáculos que nenhum funcionário ou chefe quer enfrentar. Seja de ônibus, de metrô ou de carro particular, ter de lidar com o caos urbano antes, durante e depois do expediente é uma dor de cabeça a mais na rotina do brasiliense. “O funcionário que já chega cansado e estressado para o trabalho produz menos, adoece mais e prejudica o bom funcionamento de qualquer empresa”, explica a gestora de recursos humanos Gisele Amaral, dona da G3 Recursos Humanos.

A especialista calcula que o prejuízo para uma empresa que mantém um funcionário com problemas para chegar ao trabalho é de 30% sobre o custo que ele gera para a folha de pagamento. “O deslocamento, aliado ao bem-estar, é o maior desafio das empresas para manter o empregado estimulado, com um rendimento regular e em uma rotina mais tranquila”, considera.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que o brasiliense gasta, em média, 34,8 minutos no trânsito para chegar ao trabalho. Na capital federal, os mais pobres levam cerca de 16,4 minutos a mais do que os mais ricos para fazer esse trajeto. A diferença é a maior do país, e tende a ser ainda mais alta ao se levar em conta o tempo de deslocamento dos trabalhadores que moram no Entorno.

 

Como alternativas para diminuir o desperdício de tempo no trânsito, as companhias têm buscado maneiras de reduzir o impacto das complicações no tráfego no ambiente corporativo. De acordo com Gisele, o estímulo da carona solidária entre colegas na empresa, a opção pela flexibilização de horários e de proporcionar ao funcionário a chance de trabalhar de casa são algumas das maneiras que empresários e executivos têm encontrado para lidar com o problema.

Marcelo Ferreira

Exclusividade
Na opinião do especialista em políticas públicas para transportes Artur Morais, a oferta de ônibus exclusivos para fazer o transporte de funcionários é uma maneira eficaz de manter a saúde deles, dos negócios e do tráfego urbano. “As pessoas trabalham mais satisfeitas quando não têm de se preocupar se o ônibus vai ou não quebrar, ou se, indo de carro, vão conseguir estacionar em uma vaga perto do escritório”, garante.

A adoção de duas vans exclusivas para o transporte dos funcionários de uma rede de restaurantes no centro da capital garantiu ao administrador Túlio Miranda, 49 anos, uma economia de 25%. “Como estratégia, concentrei minhas contratações em São Sebastião e maximizei o benefício”, afirma. Uma vez que todos os empregados chegam ao mesmo tempo e no horário estipulado pela empresa, não há dores de cabeças com atrasos, e o índice de faltas reduziu em mais de 90%.

Entre os órgãos públicos, a Embrapa é um dos poucos a disponibilizar o benefício, com nove linhas de ônibus ativas para atender a cerca de 400 funcionários que trabalham na sede da instituição, na Asa Norte. “Venho do Gama sentada e tirando um cochilo, sem estresse, nem preocupação. É ótimo”, conta a secretária Sirlene Braga, 48 anos. Com o serviço, a funcionária leva metade do tempo que gastaria para fazer o mesmo trajeto utilizando o transporte convencional. O analista Eglinson Miranda, 56, e o pesquisador Anísio Diniz, 49, também aprovam a iniciativa. “Agora, uso o carro só nos fins de semana”, conta Anísio.

O funcionário que utiliza o serviço embarca no ponto mais próximo da residência dele e é deixado à porta do trabalho. A volta para casa está igualmente garantida. Como o transporte é exclusivo para empregados, caronas são proibidas, e os horários e paradas, estritamente definidos. Não há superlotação, e todos viajam sentados. “Se acontece qualquer atraso, a empresa é notificada na mesma hora. Mas isso é muito raro. Conseguimos aumentar a frequência dos colaboradores e a satisfação deles no ambiente de trabalho. Os funcionários fazem café da manhã e promovem festas dentro do ônibus, o que contribui para a integração da equipe”, destaca Mairma Farias, chefe do departamento de administração de uma das unidades da empresa.

Na contramão

Na tentativa de reduzir o caos no trânsito, o GDF estuda construir um complexo subterrâneo no gramado central da Esplanada, que deve criar quase 10 mil vagas de estacionamento. No entanto, a iniciativa pode não ser a mais adequada. “É uma solução completamente descabida, que só vai agravar o problema. É preciso tirar os carros particulares do centro da cidade, e não trazer ainda mais veículos para a região”, opina David Duarte, doutor em segurança de trânsito e professor da Universidade de Brasília (UnB). De acordo com ele, o esforço do governo deve ser em priorizar o uso do transporte público em detrimento do particular.

O vice-governador Tadeu Filippelli garante que isso já está sendo feito. “A nossa expectativa é de que, em breve, o brasiliense deixe o carro em casa e prefira usar o transporte público”, acredita. Em implementação desde 2011, o novo plano diretor de mobilidade do DF prevê a modernização do sistema público de transporte e a integração definitiva dos ônibus e trens do metrô a partir de 30 de junho deste ano.

Até dezembro 2013, o GDF pretende retomar as obras de expansão do metrô e inaugurar o Expresso DF, que ligará Santa Maria, Gama e Park Way ao Plano Piloto. O investimento será de R$ 2,2 bilhões, pagos com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Mobilidade. “Estou ciente da urgência de melhorar o transporte público. Mas os problemas daqui têm gravidade excepcional, e não serão corrigidos de um dia para o outro”, afirma Filippelli.

Cadastro

Para operar o chamado Serviço de Transporte Próprio de Empregados no DF, o empresário deve fazer um pedido formal de concessão ao DFTrans. Segundo o órgão, há 48 empresas e instituições que fretam ônibus para o transporte de funcionários na cidade.


Memória
Benefício retirado


Até 1990, Brasília contava com 750 ônibus especiais, que faziam o transporte de 22 mil funcionários públicos que trabalhavam principalmente na Esplanada dos Ministérios. O serviço foi parcialmente desativado pelo então presidente Fernando Collor como forma de reduzir o gasto do Estado com os chamados marajás do serviço público.

 “O benefício foi tachado de luxuoso, e a população se opôs. Collor conseguiu o marketing que queria de herói da República e criou o problema da falta de vagas para carros no centro da cidade”, opina Artur Morais, especialista em políticas públicas para transportes.

“A Esplanada dos Ministérios vai ganhando novas características. Os estacionamentos estão mais congestionados nas horas de rush, já são raras as filas duplas de ônibus nas paradas. O GDF não vê solução a curto prazo”, noticiou o Correio na época.

 

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