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Correio Braziliense

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INDICAÇÃO

Escolhidos a dedo

Empresas têm valorizado cada vez mais o chamado %u201Cquem indica%u201D no recrutamento de profissionais. Manter a rede de contatos ativa é o segredo para se tornar referência no mercado

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postado em 21/07/2013 18:29 / atualizado em 21/07/2013 18:37

Monique Renne/CB/D.A Press
Contar com formação educacional sólida, experiência acumulada e línguas estrangeiras no currículo não são os únicos diferenciais para um profissional competitivo no mercado. De acordo com especialistas, cultivar uma rede de relacionamentos é essencial para ter referências ou indicações quando se está em busca de um trabalho: as empresas brasileiras têm se mostrado cada vez mais abertas ao chamado QI — “quem indica”. Levantamento feito pela consultoria executiva Deloitte em 2012 entre 91 companhias mostrou que 70% delas utilizam indicações de funcionários no recrutamento de profissionais. Segundo a pesquisa, as indicações superam as seleções por agências de emprego e o recrutamento interno. Elas são usadas para preencher diversos cargos nas empresas, dos mais altos aos operacionais (veja o gráfico).

A busca por indicações tem sido uma forma de as empresas economizarem tempo durante o processo seletivo — além de garantirem que a escolha do profissional foi acertada. “O funcionário não vai indicar uma pessoa em quem não confie ou que não se adeque ao perfil da empresa. Isso agiliza o processo e vai oferecer um leque de opções maior para a seleção. A diferença é que a companhia vai conhecer melhor o candidato indicado”, comenta o gerente de capital humano da Deloitte, Fábio Mandarano.

Benefícios
Os pontos positivos vão além da agilidade na escolha de profissionais. Para Mandarano, o sistema de indicações pode ser utilizado também como uma forma de aumentar o banco de vagas da empresa e aproximar o empregado da organização. “Quando o funcionário ‘vende’ a empresa para o colega, cria um senso de pertencimento e sente que está colaborando”, comenta o gerente. Além disso, ele amplia e fortalece o próprio networking. “Ao ajudar um amigo, ele está gerando gratidão pela oportunidade. Eu indico uma pessoa que pode me indicar no futuro. Quando você ajuda alguém, sempre há retorno”, completa.

Em Brasília, o QI é ainda mais utilizado devido à forte presença da indústria de bens e serviços. De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com 1.343 empregados assalariados do Distrito Federal em 2008, 48,4% dos trabalhadores acionaram a rede de contatos pessoais para conseguir um emprego. O índice é mais do que o dobro daqueles que ingressaram no trabalho por concurso público (23,3%). “Brasília tem um mercado caracterizado pelos serviços, principalmente em tecnologia da informação e telecomunicação. O tipo de profissional para essas áreas tem um networking muito amplo e ativo. As pessoas estão sempre em busca de referências para se manterem bem-vistas no mercado”, explica Fernando Guedes, diretor regional da consultoria de recrutamento de executivos Fesa.

Algumas empresas já contam com programas, inclusive, que incentivam a indicação de profissionais, mediante bonificações para os empregados. É o caso da incorporadora Tecnisa, que oferece R$ 250 por indicações para cargos administrativos e R$ 150 para cargos operacionais. O programa Criar, implantado pela empresa no ano passado, estabelece que, para garantir a remuneração extra ao amigo, o candidato deve ser efetivado após o período de experiência, de quatro meses. Todas as semanas, o departamento de recursos humanos divulga internamente as oportunidades abertas.
“O índice de acerto e a diminuição do tempo de recrutamento de profissionais são os principais ganhos. A possibilidade de que o funcionário indique alguém que já tem proximidade com os valores da empresa é muito maior. Cada um dos funcionários da Tecnisa é um recrutador em potencial”, explica o diretor de recursos humanos da empresa, Marcello Zappia. O tempo médio de recrutamento da empresa caiu de 20 para sete dias com a criação do programa. De acordo com Zappia, já foram feitas 82 contratações desde o ano passado.

A empresa de tecnologia da informação IBM também possui um programa de bonificação para os funcionários, mas as indicações só são oferecidas para cargos mais complexos, como especialistas e, por vezes, posições de alto nível. O programa Employee Referral Bonus Program (ERBP) nasceu há oito anos e já ofereceu bonificações entre R$ 250 e R$ 10 mil. “A pessoa indicada não vai contar necessariamente com a prevalência. Ela passa pelo mesmo processo seletivo apurado que qualquer outro candidato. O programa de bonificação é muito vantajoso, pois temos acesso a um banco de vagas variado e com uma qualidade maior”, considera o executivo de recrutamento da IBM, Rodrigo Souto. “A tendência é o aumento do percentual de pessoas indicadas dentro das empresas, principalmente nesse cenário brasileiro de menor desemprego e mercado competitivo. Quanto mais o mercado estiver aberto para indicações, melhor para o profissional que apresentar boas referências.”



O analista Felipe dos Santos, 21 anos, já trabalhava na empresa de tecnologia da informação CTIS há dois anos quando indicou o primo, Michelangelo Borges, 34, para uma vaga. “Eu soube, pela comunicação interna, que estavam precisando de alguém para operador de telemarketing. Meu primo estava desempregado e já tinha um perfil comunicativo. Eu também entrei por indicação de um amigo e resolvi repassar a oportunidade”, comenta Felipe. Há um ano na companhia, Michelangelo já subiu de cargo, assumiu o posto de superintendente de operações. “A indicação foi muito boa para mim, mas acredito que não é só isso que faz o profissional na empresa. É preciso que ele seja proativo e não pense que apenas isso vai sustentá-lo”, avalia.

A CTIS tem o projeto Indique um amigo, para cargos operacionais. No caso de familiares, a empresa estabeleceu, como único critério, que o funcionário e o indicado não trabalhem na mesma área. “Nós preferimos que cargos operacionais indiquem para sua área. Nos cargos de gerência, que exigem mais confiança, levamos em conta o nível de experiência da pessoa que está indicando, pois já conhece a complexidade do trabalho”, explica o diretor de recrutamento da empresa, João Alberto Mazzini.

Seleção criteriosa
Apesar de o “quem indica” já ser um processo formalizado em algumas empresas, ele não isenta o profissional de um sistema de seleção. De acordo com André Nolasco, gerente regional da empresa especializada em recrutamento Michael Page, a seleção deve ser objetiva e independente de referências. “O problema se apresenta quando a indicação por parte de empregado de alto escalão influencia a escolha de um profissional que não é apto para o cargo. Em vez de a empresa economizar no processo seletivo, gastamais, pois terá que fazer um novo processo de recrutamento”, considera.

A coach e diretora de empresa Consulta RH, Alessandra Vieira, reforça que uma boa indicação só vai trazer bons frutos se a organização estabelecer uma política específica. “As indicações devem ser apenas uma etapa. Se a pessoa não for bem, a culpa não pode recair sobre o quem a indicou”, explica. “Para se proteger, é preciso que o funcionário que está indicando seja transparente com relações aos pontos positivos e negativos da pessoa que desejar sugerir para o cargo. Não adianta indicar só para ajudar o amigo”, aconselha.

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