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Lições de superação

Sonhar é preciso, mas arregaçar as mangas para superar dificuldades e atingir os objetivos profissionais é crucial. Veja histórias de quem conseguiu se levantar e chegar lá

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postado em 29/07/2013 11:25 / atualizado em 29/07/2013 11:38

Gustavo Aguiar

O que somos capazes de fazer e quais obstáculos estamos dispostos a enfrentar quando há um objetivo a ser conquistado? Definir metas claras, acreditar em si mesmo, ter vontade de aprender e facilidade para se adaptar, perseverar e aproveitar todas as oportunidades — essas são algumas das características de quem conheceu o fundo do poço e superou todas as dificuldades e as próprias fraquezas para se reerguer e recomeçar. Ser a exceção a uma regra e contrariar todas as expectativas negativas não é uma tarefa fácil, mas pode valer a pena.

Para o psicólogo e palestrante motivacional Rogério Martins, que ajuda executivos a superarem seus limites e se destacarem no mercado de trabalho, a predisposição genética para a vitória é uma característica comum a todos. “Costumo dizer que todos nascemos para vencer. Ter objetivos concretos, força de vontade e coragem de assumir alguns riscos é fundamental para quem quer se destacar apesar das adversidades”, explica. O especialista acredita que, apesar da vontade de chegar longe, o que falta nas pessoas é a capacidade de sonhar na medida certa. “Os sonhos são fundamentais, e precisamos nos perguntar diariamente quais são os nossos. Às vezes, as pessoas ou não sabem responder isso ou sonham longe demais, além da capacidade de realização”, argumenta.

Exemplos de superação como o do compositor Beethoven ou do criador da Apple Steve Jobs são famosos, mas a vontade de vencer também está presente no dia a dia do trabalhador comum. O Correio selecionou algumas histórias de vida de profissionais de Brasília que enfrentaram desafios para se superar no mercado profissional.

 

Contra a pobreza e o preconceito

Carlos Vieira

A voz impositiva e carregada de sotaque maranhense da advogada Josefina dos Santos, 50 anos, preenche os 50 metros quadrados do escritório de advocacia que ela mantém no primeiro andar de um prédio no Setor Comercial Sul, no centro de Brasília. Apesar se dirigir a duas clientes — empregadas domésticas que reclamam por terem sido enganadas pela ex-patroa —, Josefina soa mais como uma mãe que ralha com as filhas do que como advogada. “Para não acontecer de novo o que é que tem fazer? Tem de parar de ver novela na tevê, sentar a bunda na cadeira e estudar para mudar de vida. Tem que parar de botar filho no mundo, se instruir e se informar”, aconselha.

Ela sabe do que está falando. Antes de chegar à advocacia, Josefina precisou lutar contra a pobreza e o preconceito por ser negra. E começou a trabalhar como doméstica em uma casa de família em São Luís. Tinha então 6 anos. “Eu sou do interior, e, para gente como eu, o sonho era ir para a capital ser empregada e mudar de vida. Se eu quisesse estudar, tinha de trabalhar”, conta. Ela passou também pelo Rio de Janeiro antes de desembarcar em Brasília, acompanhando uma família para quem prestava serviços domésticos. Apesar da rotina exaustiva, nunca deixou de se dedicar aos estudos. Já na capital federal, foi secretária de um consultório dentário e batalhou para conseguir pagar a faculdade de direito.

“Tive de lidar desde cedo com as piores expectativas que as pessoas sempre tiveram sobre mim. Ninguém apostava que eu chegaria aonde cheguei. Mas nunca desisti”, afirma. Hoje, Josefina é advogada dos ex-patrões. Reconhecida por lutar pelos direitos das minorias, já foi conselheira da seccional de Brasília da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, entre 2011 e 2012, tomou a frente da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial do DF. “Quem me subestima não me conhece. E eu estou aqui para provar que quem corre atrás do sonho pode chegar longe.”
 

 

Bonito na foto

Bruno Peres

O sorriso que “fala mais alto” nos busdoors de Brasília — publicidades colocadas atrás dos ônibus — é de alguém que, há muito tempo, havia desaprendido a expressar qualquer alegria. O mineiro Adriano Lugoli, 33 anos, passou por uma prova de fogo contra o vício em crack antes de se tornar o garoto-propaganda do serviço Disque Racismo, da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial do GDF. Foram mais de 10 anos de dependência, roubos para sustentar o vício, rompimentos com a família e quatro passagens por casas de recuperação antes de o rapaz se decidir por mudar de vida de uma vez.

“Eu perdi muito tempo. Vivia como um zumbi, e cheguei a pesar 60 quilos. Mas sou a prova de que, com trabalho, é possível se recuperar.” Foi a irmã quem o convenceu a se tratar fora de Uberlândia (MG), onde morava. Adriano está livre do crack desde 2005, após um período de reabilitação em uma instituição de Luziânia (GO). Passou a vender mel em ônibus para ajudar a casa de apoio, mudou-se para o Gama assim que recebeu alta e casou-se em seguida. Descobriu que levava jeito para tirar fotos depois de posar para um book que fez para registrar a chegada do primeiro filho. Foram os amigos os primeiros a incentivar a levar as imagens a uma agência de modelos. “Eles se convenceram, e a mim também, de que eu poderia seguir essa profissão.”

Deu certo. Logo vieram o primeiro teste e primeiro trabalho profissional, em 2009, ao lado de Ronaldo, o Fenômeno. Desde então, Adriano acorda cedo e se divide entre a função de secretário em uma empresa de assessoria internacional e desfiles, fotos e figurações em comerciais de televisão. O modelo continua vendendo mel nos ônibus da cidade e se diverte quando é reconhecido pelos passageiros. “Não vou deixar de ser quem eu sou por causa disso. Saí do buraco e consegui me reerguer, só eu sei pelo que passei. Agora, preciso manter os pés no chão.”

 

Ossos de vidro, fé de diamante

Breno Fortes

“Obstáculo é fechar os olhos para o seu objetivo.” Alexandre Abade, 34 anos, repete diariamente a frase que virou o lema de sua vida. Ele nasceu com osteogênese imperfeita, uma síndrome rara conhecida como doença dos ossos de vidro, e se lembra sem saudades da época em que mal podia ganhar um abraço. Durante a infância e a adolescência, qualquer movimento mais brusco poderia lhe causar fraturas graves. A história de Alexandre foi revelada pelo Correio em agosto de 2009, em matéria assinada pelo repórter Marcelo Abreu.

Foi necessária uma fé inabalável para suportar as 301 fraturas que teve. Os pais dele venderam carro e casa para pagar os tratamentos. Sem resultado. A cura só veio aos 17 anos com uma alternativa à base de homeopatia e um longo período de reabilitação no hospital. A vida de Alexandre recomeçou quando o rapaz pôde frequentar pela primeira vez a escola. Ele ingressou na faculdade, formou-se em marketing aos 30 anos e em administração no ano passado.
A persistência do estudante chamou a atenção da instituição, que o convidou pela primeira vez para contar a trajetória. Logo apareceram outros interessados e novas plateias se encheram. “As pessoas se emocionavam, vinham me dizer que eu havia mudado a vida delas.” Para dar conta de administrar tantos convites, o rapaz uniu-se à amiga Simone Ferreira, 34 anos, e criou a Angels, empresa que promove as palestras motivacionais que lotam igrejas, companhias, escolas, hospitais e órgãos governamentais.

Em agosto, a dupla vai lançar o livro Faça a diferença começando a mudança em nós mesmos, contando com detalhes toda essa história. Alexandre continua sonhando alto, e atualmente investe numa especialização em gestão de pessoas. “Apesar das minhas limitações, tenho uma vida normal. Posso não ser fisicamente perfeito, mas sou uma pessoa inteira. A receita disso é a minha fé, que não se quebra. A perfeição vem da alma, e é isso que eu busco mostrar com a minha história”, revela.

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