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Não falta emprego

Mercado de trabalho é favorável aos enfermeiros, e eles desempenham função de grande importância para a saúde. Mesmo assim, lidam com baixos salários e com a desvalorização

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postado em 17/03/2014 10:30 / atualizado em 17/03/2014 16:05

Ana Paula Lisboa

Janine Moraes

O cenário do Distrito Federal é favorável para os graduados em enfermagem: há muitas vagas na rede pública e na rede particular, segundo profissionais e especialistas do setor. Com o aumento da população, eles são cada vez mais necessários, e quem quer uma carreira bem-sucedida precisa ser comprometido, ter controle emocional e investir em atualização. No entanto, a classe é desvalorizada. O problema é agravado pela falta de piso salarial definido em lei e pelo acúmulo de jornadas de trabalho.
Há 8.677 registrados no Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren/DF), dos quais 85% são mulheres. Dos 287 mil enfermeiros do Brasil, 88% são do sexo feminino, segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Cristina Kimiura, 38 anos, enfermeira da Secretaria de Saúde, acredita que isso se deve à identificação com o setor. “Cuidar do paciente tem muito a ver com a mulher. Eu mesma escolhi a área por ter predileção pela saúde e pelo cuidado”, conta.

A Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que existam pelo menos dois enfermeiros a cada mil habitantes. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2010, havia 2,1 enfermeiros a cada mil habitantes no Distrito Federal, coeficiente maior do que o nacional (1,43). Além do DF, Rio Grande do Sul (2,1) e Rio de Janeiro (2,04) são as únicas unidades da Federação a cumprirem a recomendação.
Mais postos de trabalho precisam ser abertos para cumprir a meta, segundo Oswaldo Peralta Bonetti, presidente da Seção do Distrito Federal da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben-DF), que ressalta a importância do enfermeiro. “Diferentemente do médico, ele tem o compromisso de estar permanentemente junto dos pacientes. A enfermagem não é ameaçada pelo avanço tecnológico e cresce com o aumento populacional porque o cuidado humano é impreterivelmente necessário”.

Gilney Guerra, conselheiro do Coren-DF, ressalta que não há espaço para qualquer um. “Todo ano tem concurso público com numerosas vagas, e o mercado oferece muitas oportunidades para essa carreira linda, em que você se dedica a cuidar do próximo, mas só quem é compromissado cresce”, diz.
Um pré-requisito para trabalhar na área é o equilíbrio emocional. “É uma função estressante e é preciso aprender a lidar com a pressão, com a morte e com as doenças. Atividades fora do trabalho, como esporte e terapia, ajudam”, orienta Rinaldo Neves, professor de enfermagem da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS). É importante também respeitar os intervalos. “A cada plantão, é preciso descansar, pelo menos, 6 horas. Acumular jornadas gera doenças para o trabalhador e risco de erros.”

Reivindicações

A Secretaria de Saúde do DF conta com 3.254 enfermeiros, que enfrentam situações mais confortáveis do que os profissionais da rede particular, segundo o conselheiro do Coren-DF Gilney Guerra. “Servidores recebem salário adequado e podem trabalhar 20 ou 40 horas semanais. Para 20 horas, começam ganhando R$ 3 mil. Na rede privada, a remuneração é defasada: há hospitais que pagam R$ 1,8 mil para 40 horas. Para ter um estilo de vida adequado, é preciso ter mais de um emprego. Tem gente fazendo 80 horas, o que é inviável”, critica. Ele defende a aprovação de dois projetos de lei que definem parâmetros para a profissão.
Apesar de a situação ser melhor para enfermeiros da rede pública, o Sindicato dos Enfermeiros do DF trava uma grande luta para que os salários de servidores de enfermagem se equiparem aos de outras categorias de saúde, como medicina e odontologia. Até 2015, o sindicato acredita que as negociações possam levar ao aumento médio de 47% do salário inicial de um enfermeiro da rede pública.


Outra queixa de profissionais do setor é a desvalorização. “Apesar de fazer a gerência dos serviços de enfermagem e de ter curso superior, a população ainda não sabe nos diferenciar dos técnicos e dos auxiliares”, percebe Rinaldo Neves. Segundo Bonetti, da Aben-DF, o modelo biomédico precisa ser revisto. “A centralidade do poder nos médicos deve ser substituída pelo trabalho em equipe. A disparidade também está presente nos salários, que são menores que os de médicos e de dentistas. Na área privada, essa diferença é ainda mais agressiva”, reclama.
Fátima Aparecida Lemes dedicou 27 dos 51 anos de vida à enfermagem e à valorização da categoria. Presidente do Sindicato dos Enfermeiros do DF há 20 anos, ela se dedica por amor. “Amo minha profissão, que me permite cuidar da vida, o bem mais precioso. É por isso que luto pelo reconhecimento da área”, diz. Graduada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e especializada em gerenciamento de ações de saúde, ingressou no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) há 8 anos e especializou-se no atendimento de bebês. “A UTI móvel pediátrica tem um lado científico, de ajudar um ser humano indefeso, e um lado social, de dar conforto a pais em desespero”, relata.

Investimento

Enfermeiros atuam em diversas especialidades, como dermatologia, obstetrícia e gerontologia, além de poderem trabalhar no setor educacional: profissionais com licenciatura dão aulas de ciências para os ensinos fundamental e médio e ministram cursos técnicos. O primeiro passo para iniciar a carreira é cursar uma boa graduação. No Distrito Federal, há 21 cursos de bacharelado em 18 instituições de ensino, segundo o Ministério da Educação. Três são públicos, o da ESCS e os dois da Universidade de Brasília (UnB) — um no câmpus Darcy Ribeiro e outro no de Ceilândia.
O presidente da Aben-DF, Oswaldo Peralta Bonetti, alerta que a grande quantidade de faculdades põe em risco a qualidade do ensino. “Vemos abertura indiscriminada de cursos”, critica. Tão importante quanto cursar uma boa graduação é o investimento em qualificação, como explica Rinaldo Neves. “A profissão demanda atualização científica porque a área se renova rapidamente. Profissionais de saúde precisam participar de congressos e investir em capacitação.”

A chefe de enfermagem Elenita Silva, 45 anos, a enfermeira de educação continuada Sarah Guimarães, 27, e o enfermeiro da área de oncologia Thiago Castro, 26, são exemplos de profissionalismo do Hospital Santa Helena. Gerenciar é difícil e traz muita responsabilidade, mas Elenita desempenha a função com maestria. “A liderança é o processo de inspirar e de administrar pessoas para que deem o melhor de si ao cuidar dos pacientes”, define. Antes de alcançar o topo da chefia, há 5 anos, ela passou por todas as áreas do hospital. “O enfermeiro, mesmo que não seja chefe, sempre lidera técnicos de enfermagem. No meu caso, foi importante investir em pós-graduação”, relata.
Para Sarah Guimarães, o treinamento dos novos e dos antigos funcionários previne erros. Ela valoriza o cuidado adequado para os pacientes, por isso, tem a missão de qualificar a equipe. “O profissional costuma chegar imaturo, e a capacitação resolve o problema”, afirma. Formado há 1 ano e meio, Thiago Castro é apaixonado pela profissão. “A enfermagem trata as pessoas com amor e carinho e envolve trabalho em equipe. Não tem sensação mais gratificante do que ver a melhora do paciente por algo que você fez”, diz. Os estágios que ele fez durante a graduação lhe garantiram emprego logo após a formatura.



Oportunidades em vista

Novo edital

De acordo com a Secretaria de Administração Pública (Seap/DF), novo concurso público para o cargo de enfermeiro deve ser lançado ainda no primeiro semestre de 2014.

Residência em enfermagem

Para participar, é preciso ser selecionado em concurso da Secretaria de Saúde, que é promovido todos os anos. Os aprovados estudam e trabalham numa especialidade durante dois anos em um dos hospitais públicos do DF. Depois desse prazo, saem como especialistas em áreas como obstetrícia e ortopedia.


Possibilidades

Tramitam na Câmara dos Deputados os projetos de lei nº 4924, de 2009, e nº 2295, de 2000. A primeira proposta define o piso salarial da categoria em R$ 4.650 e, no momento, aguarda parecer da Comissão de Finanças e Tributação. O segundo projeto reduz a carga horária mínima dos enfermeiros para 30 horas semanais e aguarda votação do Plenário da Câmara desde 2012.

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