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Próxima parada: Brasil

O país começa a receber cada vez mais intercambistas estrangeiros. Os jovens não vêm apenas para aprender português ou ter mais uma experiência de vida, mas também para atuar em empresas brasileiras

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postado em 28/09/2014 13:06

Cada vez mais brasileiros viajam ao exterior para complementar a formação acadêmica, e o Brasil também se torna destino interessante para estudantes intercambistas. Eles não vêm só para estudar; há os que fazem estágio aqui para colocar em prática as lições aprendidas no meio acadêmico. Se comparado aos 29.520 brasileiros que foram ao exterior, de janeiro a agosto deste ano, apenas pelo Ciência sem Fronteiras, o número de estudantes de outras nacionalidades que estão de passagem pelo país é pouco expressivo, mas está aumentando: de janeiro a agosto, o Ministério das Relações Exteriores emitiu 11.341 vistos temporários para estudantes estrangeiros — 760 vistos a mais que no mesmo período de 2013 —, segundo dados fornecidos pelo Itamaraty (veja quadro).

“Ainda é pouco, diante de outros países com mais tradição em receber estudantes internacionais, mas o número de estrangeiros com interesse em aprender a língua portuguesa tem crescido muito”, analisa Rafaela Rolim, diretora da Brazilian Experience, empresa de Curitiba que traz estrangeiros para fazer intercâmbio no Brasil. Seis estudantes vieram da Finlândia pela organização para estagiar em terras tupiniquins neste mês. De acordo com Rafaela, o estereótipo que pessoas de outras nacionalidades têm de cultura, hábitos e alegria do povo brasileiro é um fator motivador. “O Brasil é visto como um país que está se desenvolvendo rápido e com muito potencial. Assim, muitos acreditam que aprender português pode abrir portas futuramente. Nossa empresa traz sobretudo estudantes das áreas de tecnologia da informação, relações internacionais, economia, marketing e turismo”, diz.

Rafaela analisa que, com mais empresas brasileiras fazendo negócios no exterior, empresários e colaboradores devem estar preparados para lidar com a diversidade cultural. “Muitas companhias desconhecem a possibilidade de contratar estagiários estrangeiros ou nunca tiveram essa ideia. Muitas que contratam essas pessoas voltam a fazê-lo porque percebem o benefício”, afirma. A organização não governamental Aiesec trouxe, neste ano, 245 intercambistas para fazer estágio no país. O diretor de Recrutamento Internacional da Aiesec no Brasil, Vilson Veloso, acredita que ter estrangeiros no ambiente de trabalho é benéfico para a internacionalização dos negócios. “Desde microempresas a multinacionais, as equipes se integram no intuito de ajudar aquele forasteiro que não sabe falar português nem andar pela cidade”, afirma.

Sangue novo na equipe
A Tecnew Informática, empresa de tecnologia da informação, contratou, em março, um estagiário de outro país pela primeira vez e aguarda a chegada de uma segunda estagiária este mês — ambos pela Aiesec. “A experiência tem dado muito certo. Demoram um pouco a mais para produzir, afinal a língua é nova, bem como a forma de trabalho, mas não deixam a desejar em nada com relação aos profissionais brasileiros. Eles vêm para trabalhar durante tempo determinado, então, querem fazer isso bem”, relata Marco Túlio Chaparro, sócio-fundador da empresa.

Chaparro tenta, há 40 dias, contratar estagiários brasileiros, sem sucesso. Embora seja preciso esperar cerca de três meses para trazer alguém de fora, após todas as etapas de contratação, ele alega que o processo seletivo de um estrangeiro é mais fácil. Geralmente, a seleção é intermediada por organizações como a Aiesec ou a própria universidade. “A empresa não pode só ter estagiários estrangeiros, mas ganha muito com a interação deles com o público-alvo. No começo, tivemos certa dificuldade para encontrar alguém. No entanto, fizemos entrevista há pouco mais de um mês com uma colombiana que está a caminho. Ela começa já nesta semana”, conta.

A Mirante Tecnologia, embora não conte no momento com estudantes de outras nacionalidades no quadro de estagiários, chegou a contratar seis estrangeiros. “É importante ter contato direto com universidades. Nossa última estagiária foi uma italiana que veio por meio de uma parceria entre a Universidade de Brasília e instituições daquele país”, lembra a gerente de Recursos Humanos, Fernanda Teles. “Tivemos duas experiências que não foram boas, mas a vantagem é que, como o tempo dessas pessoas é curto, elas acabam se dedicando mais. Só o fato de ter alguém de outro país presente já estimula criatividade na equipe”, avalia.

Contratação mais fácil
Desde a aprovação da Resolução Normativa n° 111, em junho deste ano, pelo Conselho Nacional de Imigração, passaram a valer novas regras sobre a concessão de vistos a estrangeiros que venham ao Brasil para estagiar. “A resolução anterior trazia uma série de dificuldades para todas as partes envolvidas no processo de contratação. A política de vistos é baseada na reciprocidade. Quando se facilita a vinda, também nos recebem de forma facilitada, e o que estávamos exigindo não era uma boa contrapartida”, opina Paula Prado, gerente executiva da Associação Brasileira de Intercâmbio Profissional e Estudantil (Abipe).

Apesar de intercâmbios profissionais de curta duração terem sido facilitados, o diretor da Aiesec Vilson Veloso acredita que, para intercâmbios de média e longa durações, o sistema de vistos ainda é burocrático. “Temos dificuldade em aplicar nossos programas em grandes empresas. Não faltam pessoas querendo vir ao Brasil, mas, sim, oportunidades para recebê-las”, afirma.

PERFIS DE ESTAGIÁRIOS /
Conheça estrangeiros em atuação na capital federal

 

 (Janine Moraes/CB/D.A Press  ) 

Elisabetta Quattrocchi
25 anos, ex-mestranda em psicologia do trabalho das universidades
de Valência e Coimbra
De onde vem: Pescara, Itália
Período do estágio: março a junho de 2014
Empresa: Mirante Tecnologia

Vim com intenção de fazer estágio porque minha universidade tinha conexão com a UnB. Escolhi este país porque a situação econômica e as oportunidades estão melhores que na Europa. Gosto do Brasil, mas tinha a ideia de que fosse um país mais cálido, acolhedor. Na Itália, geralmente não pagam estagiário porque tem muita crise. Aqui, tive salário mínimo, morei na Colina (moradia universitária da UnB) e pude pagar meu quarto. Fazia trabalho de recursos humanos: seleção de pessoal, treinamento e pesquisa de clima organizacional. A troca de experiências com a empresa foi boa, eu sabia usar um programa de estatística em que fazia testes psicológicos e colocava os dados no programa.

 

 (Ed Alves/CB/D.A Press) 

Matias Villanueva
22 anos, estudante de enfermagem da Universidade Nacional de Misiones
De onde vem: Posadas, Argentina
Período do estágio: agosto a dezembro de 2014
Empresa: Hospital Universitário de Brasília (HUB)

Eu me inscrevi em um programa de intercâmbio pelo Mercosul, e me enviaram a Brasília. Vim para fazer disciplina de estágio obrigatório. Fiquei feliz por vir, mas, quando cheguei, não sabia o idioma nem tive aulas de português. Hoje, falo mais ou menos. Na Argentina, o curso de enfermagem dura três anos e só tem parte prática no último semestre. Eu me formo neste ano e, até aqui, só havia feito teoria. No Brasil, o curso é de cinco anos, é muito melhor. Estou em um setor de controle de pré-natal. Atendo pacientes, fico sempre com uma aluna ou professora, nunca sozinho. Pensei que a estrutura do HUB fosse melhor que a de hospitais argentinos, mas, tudo bem, é um hospital universitário, e lá não temos isso.

 

 (Janine Moraes/CB/D.A Press) 

Kautsky Lozano
22 anos, estudante de engenharia de software da Universidade de Ibagué
De onde vem: Ibagué, Colômbia
Período do estágio: setembro de 2013 a setembro de 2014
Empresa: Scytl

Quando contatei a Aiesec, me ofereceram muitas oportunidades para tecnologia da informação no Brasil e na Índia. Queria aprender um novo idioma, e o Brasil é a maior potência da América do Sul. Além disso, fica perto da Colômbia, seria mais barato e o processo de visto, mais simples, pois os países são aliados no Mercosul. Enviei currículo para várias cidades, e Brasília foi a primeira a responder. Os projetos em que estou envolvido na empresa são interessantes: faço certificação e assinatura digitais. A experiência pessoal tem mais valor que a profissional: tenho conhecido muitas pessoas de outros países. Logo me formo, e a empresa em que estagio me ofereceu emprego. Diria a qualquer pessoa para vir ao Brasil estagiar.


 (Ed Alves/CB/D.A Press) 
Carmen Reichert
18 anos, concluiu o ensino médio na Alemanha
De onde vem: Dormagem, Alemanha
Período do estágio: setembro a dezembro de 2014
Empresa: Editora HTC

Meu pai é alemão e minha mãe, brasileira. Nunca tive relação com o Brasil, só vinha passar férias, mas queria aprender mais sobre o país. Eu me formei no ensino médio neste ano e resolvi passar algum tempo aqui. Penso em cursar comunicação na Alemanha, não estou certa. Tem a ver com o meu estágio: vou a eventos, fotografo e publico fotos, escrevo artigos para o blog da editora. Já traduzi um artigo em homenagem ao 11 de Setembro, para ser publicado em um site dos EUA. Consigo ver como funciona uma empresa, e as profissões que existem em uma editora. No intercâmbio, fico muito tempo longe de família e amigos, mas acho que, se tiver oportunidade, faço de novo. São experiências que você não tem no país natal.
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