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Para fazer o bem

Os negócios sociais estão em expansão e têm como objetivo trazer impacto positivo para as comunidades locais. Veja aqui como empresas no Distrito Federal estão se consolidando nesse mercado

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postado em 27/10/2014 09:53 / atualizado em 27/10/2014 10:11

À primeira vista, pode parecer utópico fundar uma empresa que dê lucro e, ao mesmo tempo, promova resultados positivos para a sociedade. Mas isso é possível. Chamados de negócios de impacto social, empresas sociais ou negócios inclusivos, hoje eles representam um mercado em crescimento. O projeto Brasil 27, iniciativa que mapeou 1,1 mil negócios sociais no Brasil, mostra que o Distrito Federal conta com sete exemplos de negócios de impacto social (veja quadro). O levantamento foi feito em parceria com o Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor (Ceats) da Universidade de São Paulo (USP) e, no fim do ano, o resultado da pesquisa deve virar livro. A representante do Brasil no Social Enterprise Knowledge Network (Sekn, na sigla em inglês) — rede de nove universidades ibero-americanas, que fazem pesquisas sobre empreendedorismo social — e coordenadora do Ceats, Graziella Maria Comini, organizações não governamentais e a iniciativa privada começaram a visualizar um grande mercado para a população de baixa renda. “O capitalismo não estava ajudando a minimizar as disparidades de classes, e era preciso propor um formato organizacional diferente. Daí, surgiram iniciativas que pensavam no valor econômico e social, ao mesmo tempo”, diz. O pai do microcrédito e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006, Muhammad Yunus, criou o primeiro negócio social do mundo em 1976, o Grameen Bank, para fazer empréstimos para classes de baixa renda sem as garantias e exigências dos bancos tradicionais. No Brasil, os exemplos de negócios sociais mais consolidados são de empresas como a Geekie — que oferece soluções educacionais adaptativas —, o Banco Peróla — que oferece microcrédito para empreendedores de baixa renda —, e a Vox Capital — que oferece capital e apoio a empresas que geram valor à sociedade. Em expansão Graziella é otimista quanto ao crescimento deste mercado. “Hoje existem muito mais recursos, os fundos de impacto também quase triplicaram, há cada vez mais pessoas interessadas em investir nessa área”, comemora. Ela cita pesquisa da Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), que mostra que investidores internacionais e nacionais querem aplicar, em 2014, de U$$ 90 milhões a U$$ 127 milhões, na área de negócios sociais no Brasil. Segundo Graziella, porém, apenas investimento não basta. “Faltam negócios com iniciativas bem consolidadas para serem replicados em outras regiões”. Graziella acredita que existe uma carência de aceleradoras e de incentivo governamental para o ramo. O projeto Brasil 27 não identificou nenhuma iniciativa de apoio ao empreendedorismo social por parte do Governo do Distrito Federal (GDF). Na esfera federal, o programa Startup Brasil também engloba negócio sociais, mas não é específico. Coordenador de impacto social da Fundação Getulio Vargas (FGV) e estudioso da área, Edgard Barkis conta que, apesar da predominância de investimentos e empresas sociais no Rio de Janeiro e em São Paulo, muitas organizações estão sendo criadas no Nordeste. “É preciso promover mudanças em regiões que, às vezes, são deixadas de lado, além de democratizar o conhecimento sobre negócios sociais”, diz. O professor observa que o acesso à materiais sobre a área estão cada vez mais fáceis. “Hoje existem duas disciplinas na Universidade de São Paulo (USP), matérias na FGV, além de vários professores que se dedicam a estudar esse mercado. Também é possível encontrar livros e plataformas on-line gratuitos com cursos sobre negócios sociais.” No DF, porém, não há faculdades com disciplinas sobre empreendedorismo social. Raios X do setor Criado por Fábio Serconek e Pedro Henrique Vitoriano, 28 anos, o projeto Brasil 27 está mapeando negócios sociais do Brasil. “A proposta surgiu em 2012 com o objetivo de conhecer as melhores iniciativas, entender as diferentes formas de fazer negócio social e tornar essa cultura mais forte no país para que mais pessoas queiram transformar a realidade brasileira”, explica Pedro Henrique. “Nosso intuito é produzir um material didático inédito no Brasil. A grande lição é que todos temos que fazer negócios pensando no bem de toda a comunidade”, completa Fábio. Até o momento, a dupla recebeu 1,1 mil indicações de negócios sociais espalhados pelo território nacional. Os melhores casos foram apresentados e divulgados no site www.projetobrasil27.com.br. Na capital federal Compromisso com o agricultor www.bioon.com.br

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Os irmãos Edison Luis Neves, 33 anos, formado em geografia, Davi Neves, 27, e João Gabriel Neves, 30, ambos administradores, criaram o melhor exemplo de empreendedorismo social do DF segundo o projeto Brasil 27. O trio investiu no conceito de fair trade — comércio justo, que congrega responsabilidade social, sustentabilidade e competitividade para pequenos e médios produtores — para criar a Bioon Ecomercado. Com dois anos de funcionamento, o grande impacto social do projeto está no financiamento e no apoio à cultura de alimentos orgânicos de pequenos agricultores. “Nós financiamos o plantio dos produtos que vendemos. Vamos atrás dos agricultores e vemos em que podemos ajudá-los. Já que eles não têm acesso fácil ao crédito, em vez de ir ao banco, eles recebem financiamento para que continuem produzindo. É um apoio mútuo, e nossa empresa acaba incentivando outros negócios”, explica Edison. Segundo ele, a Bioon pretende fortalecer o mercado orgânico do DF, organizar a logística e oferecer assessoria técnica, além do crédito aos pequenos agricultores. Eles planejam incrementar o ecomercado com capacitação e desenvolvimento de sistemas agroflorestais — que são a imitação da cobertura vegetal da floresta. Artesanato da transformação www.facebook.com/ApasAssociacaoDeProducaoArtesanalDeSantaMaria
Carlos Moura/CB/D.A Press
Panos de prato, almofadas, cortinas e toalhas com bordados em crochê são tecidos a 28 mãos. E o dinheiro arrecadado por 14 artesãs serve para mudar a realidade de uma das regiões mais vulneráveis do ponto de vista social do DF. A Associação de Produção Artesanal de Santa Maria (Apas), criada em 2000, oferece capacitação profissional para a população. “Participamos de feiras de artesanato pelo Brasil todo e até mesmo pela Europa. A artesã nos procura, a gente oferece um treinamento, ensinamos o controle de qualidade exigido e oferecemos a matéria-prima para que ela comece a produção”, explica Miraci Oliveira, 62 anos, aposentada, uma das gestoras do local e vencedora do prêmio Mulher de Negócios 2008, na categoria Membros de Associações ou Cooperativas de Pequenos Negócios, na Região Centro-Oeste. A associação promove 12 cursos profissionalizantes — como de merendeiro, garçom, atendimento hospitalar, e informática — e capacita, anualmente, cerca de 450 alunos. O único custo cobrado é o da taxa de inscrição de R$ 20. Os professores são todos voluntários, e a associação beneficiou, no total, 13 mil moradores. Alex Leonardo, 35, mestre em ciências da saúde pela Universidade de Brasília (UnB), é voluntário na Apas. “As mulheres antes entravam aqui cabisbaixas, com baixa autoestima. Com as aulas, a Apas gera um grande poder social e também para a mulher.” Outros negócios sociais do Distrito Federal Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil Dentro da cooperativa, todos os resultados financeiros são compartilhados entre os associados, e os recursos são administrados e mantidos na comunidade. Central do Cerrado Rede de comércio justo de produtos alimentícios do cerrado criada em 2008. A associação congrega 35 organizações comunitárias que fazem uso sustentável da biodiversidade do cerrado. Cia do Lacre Cooperativa fundada em 1997, que vive da exportação de produtos que usam os anéis da latinha para produzir roupas, acessórios, peças decorativas para aumentar a renda dos associados do Riacho Fundo. Da Lata Negócio social criado em 2010, que comercializa os produtos da Cia do Lacre. Em conjunto, os dois negócios beneficiam e aumentam a renda dos associados. Flor do Cerrado – Design e Artesanato Criado em 2002, gera renda e incentiva a responsabilidade social junto da comunidade do DF comercializando produtos artesanais de decoração e acessórios de moda. Iniciativa premiada
Etienne Jeanneret/ABACA/Catier
Entre 1,9 mil concorrentes, a empreendedora Bel Pesce, 26 anos, foi a grande vencedora do Women's Initiative Awards. A premiação avalia projetos de mulheres empreendedoras e ocorreu na França entre 13 e 16 de outubro. Esta é a primeira vez que uma brasileira ganha a premiação. Bel fundou a FazINOVA, escola de empreendedorismo e habilidades que oferece cursos gratuitos. “A FazINOVA pode ser considerada um negócio social porque tem fins lucrativos, e os cursos gratuitos oferecidos são voltados para todas as idades e classes sociais, ou seja, eu também pretendo atingir a população de baixa renda”, esclarece Bel. Para participar do prêmio, a iniciativa precisava ser um negócio com fins lucrativos, em fase inicial, cuja posição de liderança fosse ocupada por uma mulher. Os critérios de avaliação eram a criatividade e o impacto social. Acesse www.escola.fazinova.com.br. Denuncie A Universidade de Brasília (UnB) receberá a maior competição de negócios de impacto social do mundo, o Hult Prize. O prêmio selecionará a melhor ideia de start-up social e premiará o melhor negócio com U$$ 1 milhão de doláres para desenvolver a iniciativa. A final do evento será realizada em 29 de dezembro. As inscrições estão abertas até 15 de novembro pelo site www.hultprizeat.com/unb. Requisitos Para se enquadrar na categoria de negócio social, a iniciativa deve: » Oferecer soluções de mercado para as necessidades de uma população de baixa renda — exemplo: água, crédito, desigualdade na educação; » Demonstrar potencial para ser replicada: é preciso que ela possa ser ampliada por meio da expansão do próprio negócio em outras regiões e comunidades; » Ter fins lucrativos e ser capaz de se sustentar financeiramente. Não pode sobreviver de doações, nem de ajuda externa.
O banqueiro dos pobres: a revolução do microcrédito que ajudou os pobres de dezenas de países Autor: Muhammad Yunus Editora: Ática 344 páginas; R$ 52,50
Negócios com impacto social no Brasil Autores: Daniel Izzo, Haroldo da Gama Torres, Edgard Barki Editora: Peirópolis 260 páginas; R$ 48

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