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Correio Braziliense

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Engenharia de cara nova

CNI tem planos para tornar os currículos dos cursos mais práticos, com disciplinas que acompanham a evolução das tecnologias. Propostas também incluem maior ingresso feminino no setor. O primeiro curso de engenharia de inovação no Brasil está com inscrições abertas

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postado em 15/12/2014 10:49 / atualizado em 15/12/2014 10:57

Juliana Espanhol

  
 

Ana Rayssa

Mais disciplinas práticas, maior integração com o mercado de trabalho e aumento da presença feminina. Essas são as propostas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), para modernizar o currículo dos cursos de graduação em engenharia. Apesar dos avanços na oferta de vagas na área no país nos últimos 10 anos (veja quadro), especialistas avaliam que há descompasso entre o que é ensinado nas universidade e o avanço da tecnologia. Como explica Paulo Mól, superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), órgão ligado à CNI, os problemas na formação dos engenheiros começam bem antes do ingresso no ensino superior. “Por meio de resultados em exames como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), percebemos que os alunos brasileiros têm deficiências em matemática e em ciências. Essa dificuldade chega à adolescência, fase em que os jovens decidem que curso superior fazer. Notamos também que os cursos de engenharia são elitizados. Diferentemente de outras formações, em que é possível conciliar trabalho e estudo, o turno integral das graduações em exatas pode afastar alunos que não têm condições de se manter sem estudar”, afirma.

Mais tarde, já na faculdade, os estudantes acabam se sentindo desestimulados. “Na maioria dos cursos, os dois primeiros anos são dedicados somente às disciplinas técnicas. O aluno passa muito tempo sem ter noção prática do que está estudando”, avalia Mól. A visão do especialista condiz com a de alunos como Marcus Vinícius Leite, 20 anos, que cursa o sétimo semestre de engenharia elétrica na Universidade de Brasília (UnB). Presidente da empresa júnior Enetec, ele vê o interesse de muitos estudantes nas empresas juniores como forma de amenizar a distância entre mercado de trabalho e academia. “Acho que muitas pessoas não estão satisfeitas com o formato do currículo”, opina. Os colegas concordam que a grade tende a ser excessivamente teórica. “A visão do curso é muito acadêmica, pouco prática. Falta criatividade e há muitas matérias obrigatórias”, critica Lucas Rodrigues, 20. No entanto, Eduardo Gaspar Gonzalez, 21, vê vantagens no formato atual. “A parte boa é que conseguimos ver várias áreas e temos aulas com alunos de outros cursos.”

Renan Santos Ferreira, 20 anos, do quarto semestre de engenharia aeroespacial na UnB, sente falta de mais contato com o mercado. “É preciso ter mais incentivo para que a gente descubra o que fazer na vida profissional. Tem gente que se forma aqui e vai dar aulas de matemática e física”, critica. O colega de curso, Wolfgang Friedrich Stein, 20, faz coro. “A UnB é uma grande referência, mas a questão é a estrutura. Aprendemos a teoria, mas não temos muita experiência prática”, conta. Já o aluno do quinto semestre de engenharia eletrônica da UnB Lucas Raposo, 19, acredita que a universidade dá suporte necessário para inovar. “Os professores são muito capacitados, e gostei das matérias experimentais que fiz. Investir em inovação e aumentar os campos de pesquisa são fatores importantes para atrair mais recursos”, diz.

Parceria válida

Com as mudanças propostas pela CNI, Paulo Mól vê vantagens tanto para o setor industrial quanto para as universidades. “Com parcerias entre as indústrias e as universidades, o currículo das aulas se torna vivo porque é possível trazer problemas da vida real para a sala. Em contrapartida, as empresas recebem profissionais prontos para atuar. Muitas vezes, o empregador demora a capacitar o engenheiro porque ele chega da universidade ainda sem saber como trabalhar em projetos concretos”, diz. Entre as formas como empresas podem contribuir para a formação de engenheiros, estão a construção de laboratórios, o incentivo para estágios e a colaboração em disciplinas.

Outro aspecto abordado pelo levantamento da CNI, a baixa representatividade feminina nos cursos de engenharia é algo que pode ser superado naturalmente, caso o ensino de exatas seja reforçado no ensino básico. “Muitas mulheres deixam de aproveitar habilidades que são inerentes para a área de exatas por razões culturais. Com estímulo para matemática e ciências na educação básica, independentemente dos sexos, essa diferença deve ser atenuada”, avalia Mól.

Burocracia x progresso

Alessandro Oliveira, diretor do câmpus da UnB no Gama — onde são oferecidos os cursos de engenharia aeroespacial, automotiva, eletrônica, de energia e de software —, explica que cerca de 30% das matérias são flexíveis, ou seja, a ementa muda de acordo com o que surge de novo. “Os próprios alunos cobram que os professores estejam atualizados. Os docentes devem ser estimulados a fazer reciclagens e ter contato com colegas em congressos, pois a pesquisa é o grande motor da inovação”, diz. Ele acredita que a burocracia prejudica a inovação na universidade. “As grandes pesquisas saem das universidades federais, mas nós estamos amarrados. É um contrassenso falar em inovação: precisamos comprar equipamentos de ponta, mas a legislação existente é arcaica, como a Lei nº 8.666/1993 — Lei de Licitações —, que cria impedimentos junto dos órgãos de controle. O foco está na lei, o que não é errado, mas acaba tornando longa a aquisição de equipamentos”, explica. Nos processos de licitação, o prazo entre o pedido e a obtenção de um serviço pode levar meses, já que há concorrência entre diversas empresas, e a escolha de determinada marca ou produto deve ser justificada.

Inovação
Com inscrições abertas, o primeiro curso de engenharia de inovação do país será ministrado no Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), em São Paulo. A matriz curricular inclui formação básica, técnica e científica, capacitação em engenharia e empresarial e, por fim, um módulo de aprofundamento profissional, que inclui estudo mais completo sobre tecnologia da informação, gestão da inovação, energias renováveis e geologia, petróleo e gás. De acordo com o diretor da graduação, José Marques Póvoa, a ideia é formar, profissionais multiespecialistas, em cinco anos. “Entendemos que o aluno precisa ter conteúdo humanístico, econômico e das ciências exatas, que são a base da engenharia. O diferencial do currículo é o aprendizado focado no estudante”, explica. “A função do engenheiro de hoje é ser um eterno estudante. Em áreas como a computação, as mudanças ocorrem muito rapidamente. Por isso, o curso possui disciplinas optativas que se atualizam com as tecnologias”, completa. A graduação foi autorizada pelo Ministério da Educação (MEC) e, segundo Póvoa, os egressos não deverão enfrentar problemas para se registrar junto dos conselhos profissionais.

O conselheiro do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e membro da Comissão de Educação e Exercício Profissional (CEEP), Daniel Salati, comenta que o órgão analisará as diretrizes curriculares do novo curso e deve definir as atribuições profissionais dos formados. “A inovação é o resultado dos avanços da pesquisa e da prática científicas. Acreditamos que é viável a criação de uma graduação em torno desta linha de investigação, tanto que já teve aprovação do MEC. Essa é uma medida que deve considerar a importância de investir em novas estruturas curriculares, que abranjam cenários como o empreendedorismo e a ética, entre outras possibilidades de pesquisa”, diz.

Na primeira turma do curso de engenharia de inovação do Isitec, com 60 vagas, todos os selecionados receberão bolsas integrais, patrocinadas por indústrias parceiras. Para o professor José Luís Landeira, que ministrará aulas de linguagens no curso, a diversidade é um dos destaques da graduação. “O trabalho que fazemos é interdisciplinar. Uma das novidades é, por exemplo, a realização de aulas com dois ou três professores, de diferentes áreas, sobre o mesmo assunto. Houve muito tempo e empenho na preparação dessa formação”, garante. A disciplina lecionada por Landeira abordará diversas manifestações da linguagem, passando por temas como arte, textos verbais e não verbais e escrita técnica.

Os próprios alunos cobram que os professores estejam atualizados. Os docentes devem ser estimulados a fazer reciclagens e ter contato com colegas em congressos, pois a pesquisa é o grande motor da inovação”
Alessandro Oliveira, diretor do câmpus da UnB no Gama


Para saber mais
O Dia do Engenheiro, do Arquiteto e do Agrimensor foi comemorado na última quinta-feira (11). Nessa data, em 1933, foi promulgado o Decreto Federal  nº 23.569, que regula o exercício das três profissões. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) também foi criado pelo decreto

Inscreva-se

Graduação em engenharia
de inovação do Isitec
Inscrições: pelo site www.isitec.org.br/page/processo-seletivo/MS00 até 5 de janeiro de 2015
Taxa: R$ 35
Número de vagas: 60 (todos os selecionados da primeira turma do curso terão bolsa integral)
Etapas: Os candidatos passarão por testes de aptidão lógica on-line, redação (prova presencial) e avaliação da nota do Exame Nacional do Ensino
Médio (Enem)
Data da avaliação presencial: 22 de janeiro de 2015
Resultado da 1ª chamada: 1º de fevereiro de 2015
Início das aulas: 23 de fevereiro de 2015

Curso aberto de introdução à engenharia de produção
A plataforma de ensino Miríada X oferece um curso aberto, on-line e gratuito de introdução à engenharia de produção. Com duração de seis semanas, sendo 3h30min/semana, as aulas foram desenvolvidas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Para fazer o curso, basta ter conhecimentos de matemática e física de ensino médio. Inscrições pelo site www.miriadax.net.

 

 

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