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Ahmadinejad trava cautelosa disputa pelo poder com o líder Ali Khamenei

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postado em 09/01/2012 08:00 / atualizado em 08/01/2012 21:26

O mundo acompanha, atento, cada suspiro do presidente Mahmoud Ahmadinejad, homem cujo rosto representa um dos regimes mais fechados do planeta. Enquanto as falas do governante arrepiam os vizinhos israelenses e países ocidentais, em especial os norte-americanos, dentro do Irã, ele precisa ser muito mais cauteloso. Antigo homem de confiança do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica, Ahmadinejad partiu para uma disputa de poder com o enérgico grupo de clérigos, que, de fato, comanda o país persa. Em meio a essa briga, está o futuro do programa nuclear, o desenvolvimento de mísseis e a insatisfação da população causada por graves problemas econômicos.

Ahmadinejad foi eleito para o segundo mandato em 2009, em meio a protestos da oposição, que o acusava de fraude nas eleições. O segundo colocado, Hossein Mousavi, faz parte de um grupo reformista, composto por jovens e líderes políticos que propõem uma flexibilização da lei islâmica. Diante da possibilidade de tais liberais assumirem ou chegarem próximo ao poder, os aiatolás se apressaram para garantir a reeleição de Ahmadinejad. “O presidente não era a figura mais desejada pelos clérigos, mas tinha feito um bom governo, era de confiança e uma opção muito melhor em relação a Mousavi”, lembra Murilo Meihy, professor de história contemporânea da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

Morteza Nikoubazl/Reuters - 3/6/11


 Os protestos contrários às eleições foram, então, sufocados e o Conselho dos Guardiões, que reúne 12 dos mais importantes aiatolás do país, desistiu de rever o resultado das urnas. Na época, disseram eles, os 3 milhões de votos fraudados não seriam o bastante para reverter a vitória de Ahmadinejad. De lá para cá, no entanto, o presidente passou a testar a sua autonomia. Em julho de 2009, por exemplo, um mês depois de assumir o segundo mandato, ele demitiu o ministro da Inteligência, um ato que foi imediatamente revogado por Khamenei. “Isso colocou o presidente em uma posição muito humilhante. Ele chegou a ficar 10 dias em casa e, segundo rumores, foi pressionado a voltar logo ou a deixar o cargo”, conta a pesquisadora iraniana Haleh Esfandiari, diretora do Programa para o Oriente Médio no Woodrow Wilson International Center for Scholars.

Ahmadinejad voltou e continuou desagradando os aiatolás. Outra decisão rebelde do presidente foi manter o polêmico Esfandiar Mashaei como seu chefe de gabinete. Mashaei chegou a ser o vice da gestão, mas foi deposto do cargo pelos membros do Conselho dos Guardiões por ter ideias consideradas liberais demais. Os dois são amigos, confidentes e têm laços familiares — seus filhos se casaram. Outro aspecto preocupante para o líder supremo é o crescimento do apoio político de Ahmadinejad no interior do Irã. Apesar de ele ter sido prefeito da capital, Teerã, é nas províncias que está a maior parte de seus admiradores. “Aos poucos, o presidente caminha para uma oposição bastante sutil a Khamenei. Ambos estão disputando a liderança política dentro de um grande grupo de conservadores”, observa o professor Murilo Meihy.

Briga global

O aiatolá e o presidente também brigam pelo controle da liderança regional no Golfo Pérsico — reivindicada pela Arábia Saudita — e o protagonismo das decisões acerca do programa nuclear. Em um artigo publicado no The New York Times, dois dos maiores especialistas em política iraniana defendem que uma derrota de Ahmadinejad seria ainda pior para a solução do impasse. Bem ou mal, apontam, o presidente sinalizou para uma negociação sobre o assunto. “O interesse de Ahmadinejad num diálogo não foi motivado por seu apreço pela civilização americana. Em vez disso, o provocativo presidente viu as negociações como um meio de reforçar sua posição no Irã e no exterior, ao mesmo tempo em que seria exibida sua visão de um Irã poderoso armado com bombas nucleares”, escreveram Suzanne Maloney e Ray Takeyh. A estratégia inclui, ainda, a aproximação com países latino-americanos (leia abaixo).

Enquanto isso, os iranianos sofrem os efeitos de uma grave crise econômica. Nos últimos anos, o custo de vida no país de quase 74 milhões de habitantes disparou e há milhares de jovens desempregados. O governo mantém o auxílio financeiro a muitas famílias, mas a continuidade do benefício é duvidosa — ainda mais porque os Estados Unidos e a União Europeia impuseram uma série de sanções econômicas à nação persa. Para a pesquisadora Haleh Esfandiari, isso pode, até mesmo, levar o regime a um colapso. “Se a situação financeira piorar, haverá uma certa pressão por parte das pessoas (ao governo), não por motivos políticos, mas por uma questão de sobrevivência”, prevê. “Uma coisa são protestos políticos, outra coisa é quando se vai às ruas perguntar: ‘Onde está o meu pão?’”

Advertência americana

O chefe do Pentágono, Leon Panetta, advertiu ontem que os Estados Unidos responderão por meio da força caso o Irã bloqueie o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o tráfego marítimo de petróleo. A tensão aumentou entre Teerã e Washington desde terça-feira, após a advertência iraniana sobre a presença da marinha americana no Golfo enquanto realizavam manobras militares. Panetta também falou sobre o programa nuclear iraniano: “Sabemos que tentam desenvolver uma capacidade nuclear, o que é preocupante para nós”.

Apoio no continente americano

O presidente Mahmoud Ahmadinejad voou ontem para Caracas, iniciando sua segunda visita à América Latina desde que assumiu o poder. A primeira parada foi escolhida a dedo. O cicerone Hugo Chávez costuma exaltar o regime islâmico e sua vocação “anti-imperialista”. Da capital venezuelana, Ahmadinejad seguirá para Nicarágua, Cuba e Equador — países onde o Irã também encontra apoio. A viagem faz parte de uma estratégia do governo persa, que tenta se fortalecer em meio à polêmica sobre o programa nuclear e as demonstrações bélicas.

Desacreditado no ocidente, Ahmadinejad busca o suporte dos líderes latino-americanos que se contrapõem às políticas dos Estados Unidos. Não à toa, o iraniano participará da posse do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. Eleito em um processo controverso que recebeu duras críticas e acusações de fraude, o ex-guerrilheiro assumirá o terceiro mandato. “Ahmadinejad buscará oxigênio na América Latina. Seu país está em uma situação muito complexa e, internamente, o poder é questionado, com seguidos protestos nas redes sociais e denúncias de violações de direitos humanos”, observa à agência France-Presse Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela.

A tarefa do iraniano, no entanto, não deve ser fácil. Nem todos os países têm interesse em um conflito direto com os EUA . Na sexta-feira, o governo americano pediu aos países do continente que não apoiem o Irã. O regime islâmico perdeu apoio brasileiro, maior no mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. “O Brasil não vai defender nem atacar o Irã. Com Lula, houve muitas críticas em relação à política de proximidade com Venezuela, Cuba e Irã”, lembra Lytton Guimarães, especialista em relações internacionais da Universidade de Brasília. Há também ceticismo quanto ao cumprimento dos acordos assinados por Ahmadinejad. Boa parte do dinheiro prometido para projetos bilaterais assinados na última visita ficou para a história. (CV)

Consulesa expulsa

Os Estados Unidos ordenaram a expulsão da consulesa-geral da Venezuela em Miami, Livia Acosta Noguera. Ela tem até amanhã para deixar o país, segundo o porta-voz para a América Latina do Departamento de Estado Americano, William Ostik, que disse não poder comentar “os detalhes por trás da decisão de declará-la persona non grata”. Em 8 de dezembro, o canal hispânico Univisión exibiu uma reportagem que relacionava Livia a um suposto complô contra os Estados Unidos envolvendo as embaixadas de Venezuela, Cuba e Irã no México, entre 2006 e 2008. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse que os EUA inventam que o Irã, a partir de Venezuela, Cuba ou Nicarágua, prepara ataques aos Estados Unidos.

TRÊS PERGUNTAS PARA
Michael Elleman, pesquisador de segurança regional do International Institute for Strategic Studies

Por que é tão difícil negociar uma solução para o programa nuclear iraniano?
Primeiro, porque a liderança do país está muito fragmentada e todas as decisões dependem do líder supremo. Segundo, é muito difícil que o Irã interrompa o enriquecimento de urânio agora, pois isso seria um sinal de fraqueza perante os EUA, que também não aceitam o diálogo sem esse comprometimento do governo. O terceiro aspecto é que o Irã vê o seu programa de mísseis como uma garantia para impedir qualquer ataque, porque eles podem ameaçar outros países.

O senhor acha que a aplicação das sanções internacionais terá algum efeito sobre o regime?
É difícil dizer, mas sanções já estão tendo algum impacto, a moeda iraniana está caindo, e isso, certamente, prejudica o desenvolvimento do programa de mísseis. Não acredito que eles vão interromper o programa nuclear, mas acho que as sanções estão deixando tudo mais doloroso para o governo iraniano. E talvez isso, em algum momento, faça-os ir à mesa de negociações.

Na sua opinião, qual seria a solução para esse impasse?
O problema é que não há muitas opções para a diplomacia. Atualmente, o melhor é aplicar as sanções e esperar para ver se isso fará o governo mudar de ideia. A outra opção seria deixá-los desenvolver a tecnologia para fazer o que bem entendem e, então, administrar o resultado. E a opção final é atacar o Irã ou sua infraestrutura nuclear. Só que isso levanta uma série de questões sobre o que fazer depois do ataque. Nem os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica têm ideia do que eles fazem dentro do Irã, e qualquer lacuna de informação nesse sentido é perigosa.