Maior minoria étnica da Europa, ciganos são segregados e estigmatizados

Suspeita de envolvimento em adoções ilegais e mendicância contribuem com a má fama. Para especialista, eles se tornaram bodes expiatórios

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postado em 29/10/2013 06:05 / atualizado em 29/10/2013 09:54

Rodrigo Craveiro

Alexey Gromov/AFP - 19/10/13

 

“Fiz a minha casa no vento e, como o mar, tenho no vento a minha glória.” Para 12 milhões de europeus, essa pérola do velho cancioneiro cigano retrata mais que um modo de vida. É a própria expressão da alma de seu povo, submetido a séculos de discriminação e atingido por um folclore estigmatizante e pejorativo. Dois casos recentes escancararam a xenofobia contra os ciganos. A França decidiu expulsar a jovem Leonarda Dibrani, 15 anos, e sua família, a apenas dois meses de conquistarem a cidadania. Atualmente, ela, os quatro irmãos e os pais vivem em Mitrovica, no Kosovo. Em um acampamento na cidade de Farsala (Grécia), a presença de uma menina loura, de olhos azuis, chamou a atenção. Policiais prenderam o casal de ciganos com quem a garota vivia, e a Justiça os acusou de rapto. Na última sexta-feira, ficou comprovado que Maria — o “anjo louro” — era filha de ciganos búlgaros, confiada aos “suspeitos”, enquanto os pais dela trabalhavam em plantações de pimenta. O estrago já tinha sido feito: muitas pessoas acusaram a minoria étnica de sequestro.

 

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A grega Louisa K., 45 anos, desempregada, mãe solteira, não tem problemas em admitir seu preconceito. “Eu sou o tipo de pessoa que se acostumou a viver em um ambiente multinacional e ama todas as pessoas. Mas tenho que ser honesta contigo. Como mãe de uma criança de 6 anos, eu não desejaria que meu filho tivesse ciganos como colegas de sala de aula”, admitiu ao Correio, em entrevista pela internet, a moradora de Atenas. De acordo com ela, os ciganos têm comportamentos inaceitáveis para muitas famílias. “Eles usam gírias, em vez de uma linguagem agradável, cospem e são sujos”, disparou. “Os ciganos também têm a reputação de serem líderes em negócios de adoções ilegais, tanto na Grécia quanto no restante da Europa. O que não gosto neles é essa maneira de tentar fazer dinheiro por meio de esmolas, e não do trabalho”, acrescenta.

Para a norte-americana Carol Silverman, chefe do Departamento de Antropologia da Universidade de Oregon e especialista no tema, os ciganos têm sido usados como bodes expiatórios para os males da Europa. “Maior minoria do continente, os ciganos são uma população vulnerável, com o mais baixo padrão de vida e com uma taxa de desemprego atingindo 80% em algumas regiões”, afirma. “Em vez de focar em aliviar o sofrimento dessa parcela, a mídia, os governos e os partidos políticos xenófobos reviveram medos históricos dos ‘ladrões de crianças e criminosos’”, emenda a antropóloga.

Segundo Silverman, essas fábulas exageradas desviaram a atenção de temas ligados à crise econômica, que afeta milhões de pessoas, e atraíram os olhos da opinião pública para uma ameaça fabricada. “Esses velhos estereótipos revelam como os europeus transformam suas minorias em ‘outros maliciosos’”, lamenta.

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