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Artigo: Os tempos eles estão mudando

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postado em 14/10/2016 07:20 / atualizado em 14/10/2016 09:07

Paulo Pestana, Especial para o Correio

Toda literatura, em poesia ou prosa, tem música. Ou seja, não deveria ser surpresa para ninguém a premiação de Bob Dylan com o Nobel; nenhum músico mereceria mais, muito poucos poetas mereceriam tanto.

Se Dylan nasceu como um cantor de protesto, na tradição da música folk, em que a melodia muitas vezes é quase a mesma e serve apenas como caminho para as ideias e imagens em palavras, ele se transformou num mestre, fazendo uma mistura de impressões pessoais, fatos marcantes e desilusões com uma qualidade incontestável.

E tudo começou com uma homenagem ao maior ídolo, Woodie Guthrie, cantor que fez de seu violão uma “máquina de matar fascistas”, conforme escreveu a canivete no tampo. Song to Woody abriu o caminho por onde entrou Blowin’ in the wind (Soprando com o vento), possivelmente a canção mais conhecida — teria sido feita em apenas 10 minutos.

Seguiram-se mais de 30 anos de músicas/poesias que ajudaram a moldar o mundo. A hard rain’s a-gonna fall (Uma chuva forte vai cair) foi lançada, no auge da crise da Baia dos Porcos e da ameaça de guerra nuclear, mas não é apenas um retrato de época; segue sendo uma Guernica em palavras.

“Eu encontrei uma criança ao lado de um pônei morto/ Encontrei um homem branco/ Que passeava com um cachorro preto/ Encontrei uma jovem mulher cujo corpo estava queimando/ Eu encontrei uma garotinha, ela me deu um arco-íris/ Eu encontrei um homem que estava ferido no amor/ Eu encontrei um outro homem que estava ferido em ódio/ E é uma forte chuva que vai cair”, canta ele.

Ninguém jamais tinha ouvido palavras assim numa canção. The times they are a-changin’ (Os tempos eles estão mudando) veio um ano depois, mais explícita, cutucando o mundo adulto com vara curta: (“Venham escritores e críticos/ Que profetizam com as suas canetas/ E mantenha seus olhos arregalados/ A chance não virá novamente/ E não fale muito em breve/ Para a roda ainda girando/ E não há nada dizendo que/ Isso é contar/ Para o perdedor agora/ Será tarde demais para ganhar/ Para os tempos que estão mudando”).

Dylan narrou histórias reais para expor injustiças e seus pontos de vista sobre a sociedade. The lonesome death of Hattie Carroll (A morte solitária de Hattie Carroll) lembra o assassinato de uma faxineira negra, quando o fazendeiro que a matou ficou preso por apenas seis meses. Em Hurricane (Furacão) contou a história de um boxeador (Rubin Carter) que ficou quase 20 anos preso por um assassinato que não cometeu.

Como cereja desse imenso bolo de canções, Bob Dylan é autor da música que é considerada a mais importante obra da música popular, Like a rolling stone. Da contracultura ao establishment, a caminhada da poesia de Dylan vence os anos. Ele nunca gostou de ser considerado um porta-voz de gerações; diz que suas canções são o reflexo do que vê. Mas essa é só a opinião dele.

Mesmo em seus piores momentos, Dylan é grande. Nos melhores, é imenso. De 1962 a 1966, quando sofreu um grave acidente de moto, ele enfileirou clássicos. Saiu do hospital com uma guitarra na mão, o que provocou a ira dos puristas; nos anos 1970 investiu em canções mais líricas e discos reflexivos. Teve um período de baixa, com dúvidas religiosas permeando suas canções, e recuperou o brilho no limiar no novo século com o disco Time Out of Mind (Tempo fora da mente), voltando a brilhar plenamente com Modern times (Tempos modernos).

A poesia de Bob Dylan está em filme. Retratado por Martin Scorcese em No direction home, lançado em 2005, o artista aparece inteiro, mas, ainda assim, no formato da esfinge que não se deixa decifrar. É assim que ele vem devorando o mundo.
Tags: nobel dylan bob

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