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Por que a vitória de Donald Trump significa derrota da imprensa

Candidatura de Hillary Clinton colecionou apoio da mídia, mas não conseguiu vencer

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postado em 12/11/2016 20:00 / atualizado em 12/11/2016 20:46

Braitner Moreira /Correio Braziliense

Bryan Smith/AFP
 

A derrota da candidatura de Hillary Clinton à presidência dos Estados Unidos foi consumada apesar de uma convergência inédita dos meios de comunicação de massa americanos: jamais um postulante à Casa Branca havia recebido apoio tão inabalável da imprensa no país.

A campanha da oposição, que levou Donald Trump ao poder, recebeu suporte de apenas 20 dos 1.387 jornais diários norte-americanos. Nenhuma revista — nem aquelas que tradicionalmente apoiam os republicamos — endossou a candidatura do bilionário.

 

A candidatura de Clinton obteve editoriais positivos de ao menos 15 revistas e 243 jornais. Destes, 47 haviam apoiado o republicano Mitt Romney em 2012 contra Barack Obama, incluindo os gigantes Houston Chronicle e Dallas Morning News, que não apoiavam um democrata havia mais de três décadas.

Enquanto os principais impressos do país alinhavam-se a Hillary — USA Today, New York Times, Los Angeles Times e Washington Post, todos com tiragem superior a meio milhão de cópias por dia —, o apoio a Trump era limitado. O maior jornal a respaldá-lo foi o Las Vegas Review, com 130 mil exemplares diários. Entre as revistas americanas, as únicas com circulação superior a 1 milhão de exemplares escolheram os democratas: Vogue e The New Yorker.

Tanto papel empenhado em críticas e rejeições a Donald Trump, porém, foi impresso em vão. A maior parte dos editoriais críticos ao bilionário não teria sido lida pela maioria do público. Essa é a opinião da professora Celeste González de Bustamante, da Escola de Jornalismo da Universidade do Arizona, acrescentando que a mídia, sem querer, apoiou a ascensão do milionário à Casa Branca. “No início da campanha, as redes de TV lhe deram horas e horas de cobertura de notícias, uma publicidade gratuita, porque ele dava audiência”, avalia.

 

Agressividade

 

O suporte à candidatura Clinton se estendeu a alguns dos meios exclusivamente digitais mais visitados dos EUA, tais como Buzzfeed, Mashable, Slate, The Daily Beast e Vice — geralmente, com noticiário e editoriais ainda mais agressivos do que os jornais impressos. Os democratas também ganharam apoio de integrantes da imprensa internacional que não costumam se manifestar a respeito das eleições americanas, caso do britânico Daily Mirror, do canadense The Globe and Mail, do sul-coreano The Korea Times e de boa parte da mídia brasileira.

A candidatura Trump “não era uma escolha popular entre a maior parte dos meios de comunicação”, admite ao Correio Kathleen McElroy, professora da Universidade do Texas em Austin e ex-editora do New York Times. Ela acredita, porém, que o poder da imprensa no país permanecerá inalterado, por enquanto. “O público americano não precisa seguir a imprensa dominante. Eles são guiados por muitas coisas, e a imprensa pode ser uma dessas. O trabalho da imprensa não pode ser ditar em quem os eleitores votam, é apenas informar”, aponta.

O eleitorado reage mal às “ordens paternalistas dadas por uma unanimidade” de comentaristas e jornalistas, na visão do professor da Universidade de Lisboa Miguel Esteves Cardoso. “Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton”, escreveu, em seu blog.

O momento, agora, seria o de “a imprensa fazer o leitor entender por que a outra metade dos eleitores não ouviu sua crítica completa a Trump”, prega Celeste González de Bustamante, salientando que Hillary ganhou a disputa no voto popular, apesar de perdê-la no colégio eleitoral, a contagem realmente decisiva.

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