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Moradores questionam o futuro de Cuba: incerteza sobre relação com os EUA

Dois dias depois da morte de Fidel Castro, os moradores da capital cubana se perguntam sobre o futuro. A incerteza se projeta sobre a relação com os EUA, que vão trocar Barack Obama por Donald Trump

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postado em 28/11/2016 09:47

Fidel Castro sai de cena, Donald Trump ajusta o figurino para ingressar no palco. Em uma e outra margem do Estreito da Flórida, que separa Cuba dos Estados Unidos, a palavra que corre de boca em boca é “mudança” — mas sempre seguida por um ponto de interrogação. Dúvidas e incertezas dos cidadãos de ambos os países se cruzavam ontem nas ruas de Havana, ainda recolhida e perplexa dois dias depois da morte do patriarca que governou o país por 47 anos, e seguiu onipresente nos 10 anos desde que passou o poder ao irmão mais novo. Oito meses depois de ter recebido Barack Obama, em visita que encenou a coreografia do reatamento diplomático e simbolizou as reformas ensaiadas por Raúl Castro, a capital cubana aguarda o fim das homenagens fúnebres para descortinar o futuro da ilha e do regime socialista.

“Não sei se haverá mudanças. Não sei o que dizer”, divagava Indiana Valdés, falando à agência de notícias France-Presse. Ela e o marido, Maykel Duquesne, trabalham em um banco (estatal) e se comunicam com os parentes radicados na Flórida por internet — algo impossível nos tempos do Castro mais velho. “Fidel era o protetor da ilha, estava em tudo”, raciocina a bancária, 43 anos, que não conheceu outros governantes além dos irmãos, como a imensa maioria dos cubanos. Se o socialismo sobreviverá, ela ergue os ombros: “Não sei”.

“Acho que Fidel é o passado e Raúl é muito melhor, mas muita gente não sabe o que vai acontecer no futuro”, resumia a professora americana Corinne Dionne, 34, que conduz 40 alunos em excursão a um destino até bem pouco tempo vetado. O acaso fez da viagem um curso intensivo de história e relações internacionais: o grupo chegou da Filadélfia uma semana antes da morte do Comandante, 10 dias depois de Trump ter sido eleito para suceder Obama, com um discurso hostil ao reatamento e o apoio maciço dos cubanos da Flórida, que festejam a partida do líder histórico. “Os cubanos me perguntam sobre Trump, eu pergunto a eles sobre a ausência de Fidel.”

Transição
O taxista Armando Lobaina, 50, teme pelo que classifica como “as coisas boas” trazidas pela revolução dos irmãos Castro, como o sistema público e gratuito de saúde e educação. Acha “difícil que se perca o que foi plantado” ao longo do meio século que dura sua vida, mas entende o desafio que aguarda os herdeiros da “velha guarda” que lutou com Fidel e Raúl na Serra Maestra. “As coisas estão mudando passo a passo, e a coisa não pode se precipitar, porque há pessoas que não gostam de mudanças”, pondera. “Tudo dependerá agora dos que estão por cima”, diz, em referência à cúpula do Partido Comunista de Cuba (PCC).

Presidente da República e primeiro-secretário do PCC desde 2008, o Castro caçula transformou em lei a inevitável “transição geracional”, e marcou data. Com a limitação dos mandatos na direção a dois períodos de cinco anos, ele passa o poder em fevereiro de 2018. Provavelmente, para o primeiro-vice, Miguel Díaz-Canel, expoente da “jovem guarda” em um alto comando que abriga os últimos remanescentes da guerrilha (veja o quadro).

Distensão
Lobaina é um dos habaneros que colocam um olho no Palácio da Revolução e outro na Casa Branca, atentos ao que reserva a transição simultânea nos inimigos de meio século de Guerra Fria. “Fidel achava que não se podia confiar nem um pouquinho nos americanos, Raúl parece que confiou”, compara. O noticiário de domingo nos EUA parecia dar razão ao recém-falecido: Kellyanne Conway, uma das dirigentes da campanha vitoriosa de Trump, deu aval à controversa nota emitida na véspera pelo presidente eleito, classificando o ex-presidente cubano como “ditador brutal” e prometendo “fazer o possível” para apoiar a oposição ao regime. “A crítica ao que ocorreu nos últimos dois anos (desde o anúncio do reatamento) é simples: não obtivemos nada em troca”, disse Conway.
 
 

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