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"Me considero um bode expiatório", diz Donadon ao ter mandato cassado Diante do voto aberto, o agora ex-deputado federal recebeu 467 votos pela cassação e voltou para a cadeia sem o mandato

Adriana Caitano

Publicação: 13/02/2014 08:17 Atualização:

Depois de entrar na Câmara com o uniforme de presidiário, Donadon acompanhou sua defesa em plenário (Monique Renne/CB/D.A Press)
Depois de entrar na Câmara com o uniforme de presidiário, Donadon acompanhou sua defesa em plenário


O personagem principal era o mesmo, mas o cenário e o roteiro foram completamente modificados. Em agosto do ano passado, Natan Donadon (sem partido-RO) foi absolvido pelos colegas sob o véu do voto secreto em uma sessão quase esvaziada — com 107 ausentes. Ontem, o plenário da Câmara dos Deputados estava cheio de parlamentares com discursos inflamados. E, desta vez, não teve jeito. Em ano de eleição e com o fim do sigilo, o agora ex-deputado federal, primeiro parlamentar a ser preso no exercício do mandato, foi cassado por 467 votos.

Na primeira sessão em que teve o mandato colocado em xeque, em agosto, 233 deputados foram favoráveis à cassação, 131 optaram pela absolvição e 41 se abstiveram. Centro e sete ausências fizeram a diferença na manutenção do presidiário no quadro do parlamento, pois faltaram 24 votos para a perda de mandato mesmo após duas horas e meia de tempo aberto para a votação. Ontem, foram necessários somente 35 minutos para o resultado: o voto do presidente Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) não foi computado, somente 44 parlamentares se ausentaram e apenas Asdrúbal Bentes (PMDB-PA), que tem condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não transitada em julgado, se absteve de emitir opinião. “Não me sinto à vontade na condição em que estou de julgar e condenar ninguém”, justificou.

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Há seis meses, Donadon circulava com desenvoltura no plenário, abraçando colegas mais próximos, parando para fazer um lanche e sorrindo ao lado de parentes. Subiu à tribuna, falou da falta de água para tomar banho e da má alimentação do Complexo Penitenciário da Papuda, onde está detido desde junho, e fez um apelo emocionado. Desta vez, o rondonense estava apreensivo. No início da semana, avisou que iria novamente se defender na tribuna, mas, ontem, desistiu. No fim da tarde, quando seu advogado, Michel Saliba, contava a decisão à imprensa, Donadon surgia em outra porta.

O ex-parlamentar entrou no Congresso por volta de 18h30, acompanhado de seguranças, por um túnel subterrâneo do Anexo I da Câmara, passou pela área do almoxarifado e subiu por um elevador de carga. Chegou de moletom, calça jeans e tênis — tudo branco, como manda o figurino da Papuda. Ficou cerca de duas horas na sala de reunião da Mesa Diretora, onde arrumou o cabelo e vestiu um terno completo. Perguntado se havia conseguido tomar um banho, ele riu e confirmou.

O advogado jurou ter sido surpreendido pela chegada do cliente. “Estou tão surpreso quanto vocês, ele vai ser massacrado no plenário”, reclamou. Mais tarde, Saliba explicou que os agentes da penitenciária teriam levado Donadon à Câmara contra sua vontade. “Ele não queria vir, mas eles acharam lá que era obrigatório e o trouxeram”, relatou o defensor. Já que estava lá, o rondonense decidiu que queria defender-se na tribuna. Saliba e outros parlamentares, porém, o convenceram do contrário. “Isso ia sangrar mais ainda a imagem dele.”

Donadon ficou sentado no plenário, discreto, ao lado de outro advogado e cercado de seguranças e jornalistas. Abraçou apenas poucos servidores e dois parlamentares — Wladimir Costa (SDD-PA), que o procurou, e Cândido Vaccarezza (PT-SP), que estava por perto. Apesar dos apelos da defesa, ele falou à imprensa. “O voto aberto vai fazer com que meus colegas votem contra o coração e a vontade deles, é uma prisão”, disse. “Meu processo começou quando era voto secreto, estão rasgando a Constituição, mudando a regra no meio do jogo, me considero um bode expiatório perseguido politicamente”. Perguntado se gostaria de voltar à política, respondeu: “Sendo liberado, por que não? Fiz meu trabalho com muito carinho e amor.” O ex-deputado ouviu o restante da defesa de seu advogado na tribuna e, logo em seguida, saiu pela última vez do plenário da Câmara, sem esperar o resultado.

“Meu processo começou quando era voto secreto, estão mudando a regra no meio do jogo, me considero um bode expiatório”
Natan Donadon, ex-deputado federal

Nova chantagem do PMDB
Depois de abrir mão de indicar nomes aos ministérios em que tem representantes no comando, a bancada do PMDB na Câmara anunciou ontem que votará contra todas as propostas consideradas prioritárias pelo governo. Isso inclui cinco projetos com urgência constitucional, como o Marco Civil da Internet, que trancam a pauta, e vetos presidenciais. “Não é que sejamos contra os projetos. Queremos apenas limpar a pauta”, comentou o líder do partido, Eduardo Cunha (RJ). A legenda é a maior da Casa — com 75 deputados — e vem travando longas batalhas com o Palácio do Planalto desde que Cunha assumiu a liderança, no início de 2013.

Memória
Autoridade na cadeia
O deputado Natan Donadon (sem partido-RO) está preso em ala especial da Papuda desde junho de 2013. Ele foi o primeiro congressista a cumprir pena de regime fechado durante o exercício do mandato. Donadon se entregou em 28 de junho, após ser condenado a 13 anos, 4 meses e 10 dias de prisão por formação de quadrilha e peculato. Os crimes envolvem o desvio de mais de R$ 8 milhões da Assembleia Legislativa de Rondônia. Ele nega ter cometido qualquer crime. Depois da prisão, Donadon foi expulso do PMDB. A Câmara suspendeu o salário do parlamentar e exonerou os funcionários de seu gabinete.

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