"Ninguém está fora do alcance da Justiça", diz Roberto Gurgel ao Correio

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postado em 24/01/2016 07:30 / atualizado em 23/01/2016 21:14

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


Roberto Monteiro Gurgel Santos, 61 anos, tornou-se um rosto gravado na memória dos brasileiros naquela tarde do início de agosto de 2012, depois de mais de cinco horas de sustentação oral contra 36 réus do processo do mensalão. Ali, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), ele se transformou em herói e vilão ao mesmo tempo, a depender das cores partidárias das torcidas que o elogiavam ou o criticavam. As acusações ao longo do julgamento, entretanto, apenas reforçaram o caráter estritamente técnico do trabalho de Gurgel, confirmado a cada dia em outro processo ainda em curso, o petrolão.

As comparações entre o mensalão e o petrolão são inevitáveis, afinal o ataque aos cofres públicos se repetiu, e mesmo alguns personagens expostos durante o escândalo iniciado nos Correios acabaram no banco dos réus — e já atrás das grades — por assaltarem a Petrobras. “O mensalão era apenas a ponta do iceberg”, afirmou Gurgel, na tarde da última quarta-feira em entrevista exclusiva ao Correio. “O enfrentamento entre Justiça e impunidade teve um momento marcante no mensalão e se desdobra, em momento também importante, em volumes exponenciais em termos de recursos da Lava-Jato.”

Gurgel integrou um grupo na Procuradoria-Geral da República apelidado de “Tuiuiú”, de que faziam parte Antonio Fernando Souza — que deu início ao processo do mensalão —, Cláudio Fonteles e Rodrigo Janot, o atual chefe do MP. O nome da “equipe” era uma referência à ave desengonçada que demora a alçar voo e uma menção à dificuldade do grupo para chegar ao comando da instituição. À época, o procurador-geral da República era Geraldo Brindeiro, indicado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e reconduzido três vezes, sem dar qualquer chance a um concorrente interno do MP.

A semelhança física com Jô Soares o levou a situações curiosas, como no dia em que um garçom, tentando impressionar uma colega de trabalho, pediu um autógrafo, mesmo sabendo que Gurgel não era o comediante. Aposentado desde novembro de 2013, o procurador cumpre quarentena até agosto. E não esconde que entre os planos está a volta à advocacia. Por ora, divide o tempo entre leituras, encontros em Brasília com amigos em bares e restaurantes, e o trabalho como integrante do Conselho de Administração da Rede Sarah. Antes de mais nada, é um observador privilegiado do atual processo do petrolão.

Durante duas horas, Gurgel falou das investigações, os blefes de Marco Valério durante o mensalão, das delações premiadas, das ameaças contra investigadores, da Operação Pandora no Distrito Federal, do pedido de intervenção em Brasília, do voto em Aécio Neves na última eleição — ele havia optado por Dilma Rousseff em 2010 — e de Chico Buarque. Sim, durante aquela tarde de 3 de agosto de 2012, Gurgel citou uma música do compositor no fim da sustentação oral do mensalão. Ele diz, entretanto, que hoje não faria tal referência. “Quando um artista cria uma obra, ela se desvincula dele, mas, como tenho uma imensa admiração pelo Chico Buarque, hoje não usaria uma coisa para contrariar o ponto de vista dele”.

Há paralelo entre mensalão e petrolão?
Li um artigo da Lya Luft, na época do mensalão, em que ela falava do enfrentamento entre Justiça e impunidade. Esse enfrentamento, que não é muito antigo no Brasil, teve um momento marcante no mensalão e se desdobra agora, em um momento igualmente importante, de volumes exponenciais em termos de recursos na operação Lava-Jato.

O mensalão foi um marco?
Sim. O principal operador, Marcos Valério, pegou pena de quase 40 anos. Esse exemplo bem-sucedido acabou influenciando a postura de operadores da Lava-Jato a buscarem uma delação premiada. Tivemos o núcleo político com penas, a meu ver, exageradamente pequenas diante da gravidade do crime. O Marcos Valério e o núcleo financeiro, com a Kátia Rabello, do Banco Rural, pegaram penas elevadas. Serviram para estimular essas pessoas a verem no caso do Marcos Valério algo como “ele ficou calado e está pagando quase sozinho”.

Ele estaria tentando um acordo agora.
Marcos Valério é um jogador, sempre criando algum fato, tentando veicular coisas, blefando como qualquer jogador. No início do julgamento do mensalão, procurou o ministro Ayres Britto, então presidente do STF, para dizer que tinha revelações a fazer que implodiriam a República, e que precisava prestar um depoimento. Britto disse que não podia, evidentemente, mas pediria que eu ouvisse. Concordei, e ele então pediu uma série de cautelas, dizendo que, após o depoimento, não deveria ter mais que 24 horas de vida.Chegou com o advogado e disse que queria prestar esse depoimento para ter benefícios no mensalão.

Ele queria uma delação premiada?
Eu disse que o julgamento estava em andamento, já havia um mês, e deixei claro que poderia tomar o depoimento, mas jamais para que se produzisse algum tipo de benefício na Ação Penal 470. O que ele queria, na verdade — acho que ele não estava em função própria, mas também atendendo a pedidos de outros réus —, era melar o julgamento. Para que o ouvisse na Ação Penal 470, teria que reabrir a instrução. Então, ouviria, mas com essas observações, de que não surtiria efeito no processo. O advogado pediu um tempo para conversar com ele. Os deixei a sós, e 15 minutos depois, ele concordou em prestar o depoimento. Dois colegas tomaram o depoimento. Ele não disse nada relevante, que nem de longe implodiria a República.

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Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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henrique
henrique - 27 de Janeiro às 14:42
Tomara mesmo pois estamos todos os decentes loucos para vermos figuras "honestas e de conduta ilibada" na cadeia, junto é claro com a corja que os acompanham.
 
José
José - 26 de Janeiro às 20:46
Será mesmo ? ? ? - - - - - Em brasilia donos de CARTEIS MANDAM E DISMANDO NA JUSTIÇA ! ! ! - - - - - Pelo menos até então ! ! !
 
FRANCISCO
FRANCISCO - 25 de Janeiro às 14:40
Não tenho medo da Justiça e sim da imputação objetiva
 
Leonardo
Leonardo - 24 de Janeiro às 17:58
A 9 anos o Brasil foi colocado a pique, e mesmo com especialistas de todo o globo alertando nada foi feito. Corrupção e liderança com ideias pessoais e o nosso lema. Soberba daqueles que querem o poder pelo poder imposta pela força e verdades mentirosas nos são forçadas, o que Gurgel nos mostra todos sabem, porem o povo Brasileiro nunca em sua historia mudou algo por pressão, todas as mudanças desde a sua proclamação foram ação unilaterais de um ou vários grupos com pequenas manobras afim de se colocar em um grupo civil a responsabilidade de tal mudança assim como nas diretas já e ou os caras pintadas. Sabemos que é os intocáveis legislativos permaneceram em suas realezas suntuosas recoberta por merendas escolares, petróleo, remédios, obras e tantos outros. Ao trabalhador comum, pessoas comum, vivente comum nos resta espernear como um cordeiro na fila do sacrifício !