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Correio Braziliense

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"Esse é o cara"

Cunha, uma biografia autorizada (pela PF) - Capítulo 5

O ex-parlamentar obteve a relatoria de uma MP que mexia com o setor elétrico dois meses depois de emplacar apadrinhado em Furnas

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postado em 13/11/2016 08:01

Eduardo Militão

 Capítulo 5

Depois de emplacar um aliado na Presidência de Furnas e, ao mesmo tempo, impor um baque financeiro no caixa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Cunha não poderia estar mais vitorioso. “O deputado mais poderoso do Brasil” poderia ter sido até um título exagerado para a época, mas refletia o sucesso de seu grupo político. E econômico também.

Dois meses depois de a CPMF ser aprovada na Câmara — depois o Senado derrubaria — e conseguir emplacar Luiz Paulo Conde em Furnas, Eduardo Cunha foi brindado com a relatoria de medida provisória providencial para aliados dele no setor elétrico. Um dos beneficiários de modificações na MP 396/07 e, depois, na 450/08 foi o doleiro Lúcio Bolonha Funaro. Considerado pelo Ministério Público um “operador de propinas” do então deputado, ele é figura conhecida em Brasília.


Fez uma colaboração premiada no caso do mensalão, quando complicou gente do Partido Liberal, comandado por Valdemar Costa Neto (PR-SP). Ficou solto. Eram idos de 2006.

O mundo mudaria para Funaro dez anos depois. Na semana passada, na quinta-feira, ele estava numa sala com bom ar-condicionado no 4º andar da 510 Norte, em Brasília. À sua frente, o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, dono de uma caneta que poderia lhe render um alívio no maior drama que passa desde que resolveu ser delator do mensalão.

Mas o magistrado entendeu que não. O doleiro apontado como operador de Eduardo Cunha continuará numa cela do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Para lá, foi jogado por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavaski, que entendeu como suficientes os relatos de ex-executivos de indústria de alimentos e de um banco estatal. Nelson Mello, que trabalhou na Hypermarcas, e Fábio Cleto, que foi da Caixa, afirmaram que Funaro os ameaça. E tudo para proteger Eduardo Cunha. Desde julho, o doleiro está detido.
Um importante investigador de Brasília e que o conhece há tempos estava eufórico na quarta-feira passada:

— Este é o cara!

Para o juiz Vallisney, Funaro disse que vai continuar “colaborando” com a Justiça, mas nada de delação. Sua relação com Eduardo Cunha é pivô de várias acusações.

A Procuradoria-Geral da República mostra que havia mais que um bom relacionamento entre o doleiro e o deputado Eduardo Cunha quando ele saiu com um afilhado em Furnas e uma boa relatoria de medida provisória. Com a norma nas mãos, Cunha mudou a legislação do setor elétrico como quis.

Com as alterações feitas, uma empresa ligada a Funaro pôde, finalmente, comprar parte das ações de uma usina de Furnas por R$ 6,8 milhões. A mágica ocorreu enquanto a medida provisória era reescrita no Congresso até ser sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O espetáculo deu certo e não se tratou de nenhuma ilusão. Oito meses depois, as cotas da firma de Funaro foram vendidas para Furnas, mas por R$ 80 milhões. O prejuízo para a estatal foi de mais de oito milhões e meio de reais nas contas dos auditores da Controladoria-Geral da União.

No mesmo dia em que Eduardo Cunha disse não ter contas na Suíça, em 12 de março de 2015, o então deputado disse que nunca recebeu qualquer propina. E continua dizendo. Funaro, tão encarcerado quanto o deputado, não tem comentado esse tipo de assunto.


R$ 8,5
milhões valor do prejuízo tomado por Furnas com a operação do doleiro Lúcio Funaro

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