Politica

Perfil: Teori era tido pelos amigos como o homem certo no lugar certo

Arredio com os desconhecidos, o ministro do Supremo Tribunal Federal era sistemático no trabalho

Denise Rothenburg
postado em 20/01/2017 06:56
Desde que assumiu a relatoria da Lava-Jato, em 2015, Teori se recolheu desses encontros com a gauchada. Os próprios advogados também evitavam constranger o amigoNo dia em que Teori Zavascki foi nomeado para o lugar de César Peluso no Supremo Tribunal Federal, políticos do PT se sentiram derrotados. Dilma Rousseff, ao contrário do que defendia o partido, escolhera um ministro do Superior Tribunal de Justiça, guindado a esse posto pelo tucano Fernando Henrique Cardoso em dezembro de 2002, seu último ano e mês de governo. O partido se surpreendeu. Mas não reclamou. Não imaginava que partiria dele a manutenção de Lula sob a batuta do Sérgio Moro, a prisão de Delcídio Amaral e ainda as autorizações para que Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, fizesse as gravações sobre seus colegas de PMDB do alto escalão do Senado.

Teori começou a aparecer na lista de indicados para tribunais superiores no século passado. Um de seus grandes amigos em Brasília era o ex-ministro Nelson Jobim, um jurista que transitou na política como deputado federal, relator da constituição de 1988, ministro de FHC e presidente do Supremo Tribunal Federal. Em comum, além da paixão pelo direito, Jobim e Teori tinham o churrasco. Quanto aos times de futebol, se dividiam. Jobim, inter. Teori, gremista, com cadeira cativa no estádio. Ainda era obrigado a ouvir o amigo Jobim dizer em alto e bom tom quando desfrutavam um churrasco ;gremista só faz bom churrasco quando erra;.

O amor pelo Rio Grande do Sul superava essa diferença. Teori tinha passado pelo Tribunal Federal da 4; Região, em Porto Alegre, pelo quinto constitucional, ou seja, de indicação dos advogados. Foi nomeado desembargador lá por recomendação do então governador Pedro Simon, outro político reverenciado por todo o Brasil. Quem assinou a nomeação foi o então presidente José Sarney, hoje citado na Lava-Jato.

Outro gaúcho que ontem estava chocado com a morte do amigo Teori e que acompanhou de perto a trajetória dele desde os tempos de advogado do Banco Central em Porto Alegre foi o advogado Eduardo Ferrão. Não por acaso, no ano passado, surgiu a notícia de que Renan Calheiros tentaria fazer com que Ferrão tentasse conversar com Teori. Os dois também costumavam degustar um bom churrasco, que o próprio Teori fazia questão de assar quando estava em companhia de amigos. Ela morava em apartamento e se prontificava para ;cuidar da carne; quando aqueles que moravam em casa promoviam os churrascos.

Recolhimento
Teori jamais negou os amigos, ainda que fossem advogados de investigados. Sempre recebeu a todos com respeito, mesmo quando procurado no gabinete. Mas, desde que assumiu a relatoria da Lava-Jato, em 2015, ele se recolheu desses encontros com a gauchada, e os próprios advogados também evitavam constranger o amigo, de conversa afável com quem ele conhecia bem e arredio com aqueles com quem não tinha muita intimidade. A relatoria da Lava-Jato foi o segundo recolhimento na vida de Teori. O primeiro foi a morte da segunda mulher, a juíza federal Maria Helena Castro, de câncer, em 2013.

[SAIBAMAIS]O advogado Sigmaringa Seixas, amigo a quem Dilma consultou quando da nomeação de Teori para o Supremo Tribunal Federal, era outro tão arrasado na tarde de ontem quanto Ferrão, Jobim, Simon, a ministra Cármen Lúcia e tantos outros amigos. Incrédulo, definiu o ministro como ;discreto, equilibrado e modelo de juiz que fala pelos autos;. Era visto pelos amigos como o homem certo no lugar certo.

Quando Teori foi para o STF, seu filho, Francisco, que ontem confirmou a morte dele no Twitter, citou o pai como alguém que encarava o papel de juiz com muita seriedade e que tomaria decisões ainda que fossem impopulares. Avesso a dar entrevistas, falava em seus votos. Sistemático, passou a maioria dos dias úteis de janeiro no Supremo, preparando o material para homologar a delação da Odebrecht, a mais esperada da Lava-Jato, que promete derreter boa parte do cenário político do país.

O perfil de Teori não era considerado o ideal por toda a classe política. O senador Romero Jucá, numa das gravações feitas por Sérgio Machado e divulgadas em maio, refere-se ao ministro como ;burocrata; e chega a mencionar que era preciso ;parar Teori;, segundo trechos divulgados de conversas captadas por Sérgio Machado. Teori, embora muitos reclamassem às vezes da demora com que ele agia, não demonstrava inclinação à paralisia jurídica. Era, como bem dizem seus amigos, o homem certo no lugar certo. Ontem, foi o homem errado, no lugar errado e na hora errada.

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