Temer luta para não deixar que aliados vejam Maia como solução para o país

Essa percepção é nítida no PSDB, DEM, PPS e PSB e pode contaminar outros partidos da coalizão

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postado em 07/07/2017 06:00 / atualizado em 07/07/2017 06:51

Evaristo Sá/AFP

 

Além de tentar garantir os votos para evitar que a Câmara aceite a abertura de processo por corrupção passiva contra o presidente da República, o Palácio do Planalto passou a lutar com todas as armas — emendas, cargos e até um discurso autodepreciativo — para evitar que os aliados passem a enxergar o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ) — e não Temer —, como a ponte segura para completar a travessia até 2019. Essa percepção é nítida no PSDB, DEM, PPS e PSB e pode contaminar outros partidos da coalizão.

 

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“Se vier a afastar o Temer, Maia é presidente por seis meses. Aí, ele tem condições, até pelo cargo que exerce como presidente da Câmara, de juntar os partidos ao redor de um nível mínimo de estabilidade do país”, disse o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissatti (CE). Para evitar a debandada, Temer abriu o cofre. Só em junho, foram liberados R$ 529 milhões, quando o total disponibilizado até então era de R$ 959 milhões. Também sinaliza uma redistribuição dos cargos, especialmente dos partidos que têm se mostrado rebeldes. O Ministério da Cultura segue sem titular desde que Roberto Freire, do PPS, renunciou ao posto.

Só o PSDB tem quatro pastas — Relações Exteriores, Cidades, Secretaria de Governo e Direitos Humanos. “Eu sempre defendi que tinha de demitir o PSDB do governo e dar os cargos para quem, de fato, é fiel”, resumiu, sem pudor, o presidente do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva (SP). O PSB ainda mantém o ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Filho, e o DEM, o Ministério da Educação.

Até mesmo o discurso de auto-humilhação serve neste momento. Aliados do presidente afirmam que os tucanos, ao estimular a mosca azul do poder diante dos olhos de Maia — eles reconhecem que há um enxame sobrevoando a cabeça do demista —, correm o risco de perder o bonde da história das eleições de 2018. “É preferível manter o Temer, que deve terminar o mandato fraco, administrando algumas conquistas, do que colocar no posto alguém que poderá concluir as reformas e se cacifar para concorrer à reeleição”, confidenciou um aliado do presidente.

A numeralha de base de apoio também é levada em conta. Estrategistas palacianos afirmam que a oposição, que agora se assanha para tirar Temer do cargo, não apoiaria a gestão de Rodrigo Maia. Os tucanos, na visão desses mesmos atores, acabarão por deixar o governo, mais cedo ou mais tarde, devido ao projeto próprio de poder nas próximas eleições. O PPS é uma legenda pequena, e o PSB vive em crise. “Quem vai governar com minoria parlamentar?”, desafiou um governista.


Desenvoltura

O discurso, contudo, está cada vez mais difícil de encaixar. Uma dificuldade é tachar Maia de traidor. Nas últimas semanas, o presidente da Câmara tem se sentido cada vez mais à vontade no figurino de alternativa a Temer. Circula com desenvoltura no plenário e compareceu à festa junina do desafeto Jovair Arantes (PTB-GO). Pessoas próximas admitem que agentes do mercado e forças políticas já indicaram que lhe dariam apoio na transição.

Qual é a saia justa do Planalto? Maia não faz movimentos explícitos. “Continuamos trabalhando pela neutralidade do presidente Maia, mas não podemos evitar que oportunistas queiram fazer chantagem política”, criticou o vice-líder do PMDB na Câmara, Carlos Marun (MS). “Maia está sendo absolutamente leal conosco. Ele não fez nenhuma reunião para derrubar o Temer, como as que fizemos para derrubar a Dilma. Nós conspiramos, ele, não”, reconheceu um aliado com livre trânsito no gabinete presidencial.


Eleições de 2018

Estrategistas do DEM lembram que, se de fato se tornar viável eleitoralmente para 2018, Rodrigo Maia (RJ) ocupará um terreno no campo liberal, que hoje tem como único postulante o prefeito de São Paulo, João Doria. “Com a vantagem de que ele já é mais conhecido do ponto de vista de gestão, ao contrário do prefeito paulistano”. Alguns aliados de Maia temem, contudo, que, se ele “colocar demais a cabeça para fora”, as denúncias vindas das delações da OAS e da Odebrecht sejam desenterradas. “Elas são caixa 2 puro, não propina. Além disso, são anteriores ao mandato de ‘presidente’, terão de ficar congeladas”, minimizou um parlamentar demista.
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