Especialistas e parlamentares avaliam impacto do distritão na Câmara

Se aprovado, o sistema de eleger os mais votados pode favorecer as bancadas mais organizadas, como a religiosa e a ruralista, e comunicadores

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Minervino Junior/CB/D.A Press
 
 
A adoção do distritão, apresentada como destaque dentro da reforma política, vai fortalecer os grupos que representam interesses segmentados na Câmara dos Deputados. As bancadas da Bíblia, da Bala, do Boi e, em menor instância, os comunicadores de propagandas populares poderão se multiplicar pelo plenário, tornando a Casa mais conservadora e o debate mais acirrado. “Por esse modelo, não serão eleitos parlamentares que têm ideias, e sim aqueles que têm atitude”, resumiu o diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, Antonio Augusto de Queiroz.
 
 
Na Câmara, existem diversos parlamentares cujos interesses em comum formaram espécies de frentes, uma força de muitos em busca dos mesmos interesses. Hoje, as chamadas “BBBs” reúnem 290 deputados, mais da metade do total da Casa, hoje com 513 parlamentares ativos. O apelido é por causa das letras iniciais dos grupos, que agregam boi (bancada ruralista), bala (segurança pública) e Bíblia (evangélicos).

Elas cresceram em influência ao longo da gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como presidente da Câmara. “No caso dos ruralistas, a questão é a força do dinheiro. Muitos deles gostariam de se candidatar, mas as legendas pequenas não passam pelo quociente eleitoral e, muitas vezes, eles não conseguem espaço nos partidos mais tradicionais”, completou Queiroz.


Análises

O deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, acredita que o “distritão é uma travessia que precisa ser feita para melhorar o país, mas não do jeito que se está discutindo agora”. “Nesse modelo, é péssimo”, afirmou. Apesar de ter sido o mais votado de Mato Grosso para a Câmara em 2014, ele discorda do enfraquecimento dos partidos. “Eu não concordo com isso de fortalecer o candidato. Precisamos é equalizar tudo, dar as mesmas chances para aquele cara que tem boas ideias, mas não tem dinheiro nem é conhecido, tentar se eleger”, explicou.

Com o crescimento do sentimento de insegurança no país e a adoção de medidas extremas como o envio do Exército para combater a violência no Rio, a bancada da bala também aposta que colherá frutos no próximo pleito caso o distritão seja aprovado.  O PR, partido do qual o deputado Laerte Bessa (DF) faz parte, é contra o novo modelo.

Para o parlamentar, que conta com o apoio da Polícia Civil do DF — instituição que comandou antes de entrar para a política —, a implementação da medida traria mais conforto na hora de contar os votos. “A polícia é minha família, conto com o apoio deles e é por isso que estou aqui hoje. Se colocarem a ideia de fortalecer o deputado em vez do partido, também fico bem. Acredito que seria importante pra mim e mais confortável, com certeza”, contou.  “Se o distritão andar, eu acho que a bancada da bala tem força para colocar dois deputados distritais e dois federais para dentro no próximo pleito”, afirmou o delegado licenciado.

Na avaliação do professor Antônio Celso Alves Pereira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o distritão, do jeito que está sendo discutido hoje, vai acabar se tornando uma arma política para a bancada da fé. “Temos muitas igrejas no país e um punhado de bispos com fiéis que podem se tornar, também, seus eleitores. É claro que isso tem importância e é algo que deveria ter sido previsto antes”, disse.

Uma bancada influente no Congresso, mas que acha que não terá seu destino mudado, é a Frente Parlamentar da Saúde. Uma das coordenadoras da bancada, que tem 100 parlamentares atuantes, Carmen Zanotto (PPS-SC) explica que o grupo consegue se unir na defesa das pautas em plenário. “Na hora da eleição, contudo, não nos comportamos como outras bancadas temáticas”, reconheceu.


Grupos de pressão

Confira o tamanho de cada bancada na Câmara

 » Bancada da bala
Conta com 150 parlamentares na Câmara, entre ex-policiais, militares licenciados e empresários envolvidos com a indústria de armas. Apenas no DF, 
os parlamentares podem ter o apoio de quase 300 mil pessoas, número que corresponde à quantidade de integrantes da segurança pública, estimada pela pasta em 2016.

 » Bancada religiosa
Aproximadamente 70 deputados, a maioria deles representantes ou apoiadores de igrejas evangélicas, compõem a bancada da Bíblia. Nos últimos 10 anos, segundo o IBGE, a população evangélica aumentou mais de 60%.

 » Bancada ruralista
Outros 70 parlamentares unem forças para tentar resolver questões fundiárias, especialmente na área rural. Esse segmento reúne um PIB de R$ 162 bilhões, conforme o IBGE. Ainda assim, como há muita terra para pouco coronel, o ideal para ajudar a bancada ruralista seria a liberação do financiamento de campanha privado, e não o distritão.

 » Bancada da saúde
Aproximadamente 100 deputados fazem parte do grupo que defende a saúde pública, estatal e gratuita; interesses privados com fins lucrativos; e as santas casas, que fazem filantropia. O aumento de verbas para o setor é o maior dos interesses dos parlamentares. Existem cerca de 430 mil médicos no país, o que significa dois profissionais a cada mil habitantes, segundo o Conselho Federal de Medicina.
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