Palocci abre jogo em depoimento e entrega Lula a Moro

Ex-ministro implica o ex-presidente - já denunciado por formação de quadrilha e obstrução da Justiça - em depoimento ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Ele afirmou que havia um "pacto de sangue" entre o líder petista e Emílio Odebrecht

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postado em 07/09/2017 06:00

Reprodução/vídeo
 
Às vésperas do aniversário de 72 anos — que Lula comemora em 3 e 27 de outubro, a depender da data escolhida por ele —, o ex-presidente vive, definitivamente, um momento de inferno astral. Em dois dias seguidos, ele foi denunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao lado de outros companheiros de partido, como a ex-presidente Dilma Rousseff: na terça-feira, acusado de formação de quadrilha e, ontem por obstrução de Justiça. O cerco vem até do exército aliado. O ex-ministro Antonio Palocci afirmou ontem ao juiz Sérgio Moro ter participado de uma reunião na qual Lula pediu dinheiro, vindo de contratos do pré-sal, para abastecer a campanha de Dilma Rousseff em 2010.
 
 
A delação de Palocci tem sofrido idas e vindas ao longo dos últimos meses. Ele já havia denunciado, conforme antecipou o Correio, que o também ex-ministro da Fazenda Guido Mantega vendia informações privilegiadas para bancos privados na época em que comandava a economia brasileira. Na verdade, a prática começara quando ele ainda era ministro do Planejamento e presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), nos primórdios do primeiro governo Lula.

Mas o acordo de Palocci com o Ministério Público estava emperrado justamente porque ele resistia a entregar os companheiros de partido. Ao que parece, esse prurido caiu por terra. Em depoimento a Moro, Palocci disse que, dessa reunião com Lula participaram ainda a própria Dilma e o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli. O petista, chamado de Italiano pelos delatores da Odebrecht, foi o principal coordenador da campanha presidencial de Dilma em 2010.

Segundo ele, logo após a eleição, “pacto de sangue” foi firmado entre Lula e Emílio Odebrecht. “Ele (Emílio) procurou Lula nos últimos dias de seu mandato e levou um pacote de propinas, com esse terreno do instituto, que já estava comprado, o sítio para uso da família, que estava fazendo a reforma em fase final, e disse ao presidente que estava pronto e que tinha à disposição, para o presidente fazer a atividade política dele, R$ 300 milhões”, afirmou Palocci.

O ex-ministro foi preso na Operação Omertà, desdobramento da Lava-Jato, em setembro de 2016, e condenado pelo juiz federal Sérgio Moro a 12 anos e 2 meses de prisão. Palocci resolveu confessar os crimes em interrogatório no âmbito de processo relacionado à suposta compra, pela Odebrecht, do apartamento vizinho ao de Lula, em São Bernardo do Campo, e do terreno onde seria sediado o Instituto Lula. Segundo o Ministério Público Federal, os imóveis são formas de pagamento de vantagens indevidas ao petista por conta de contratos obtidos pela empreiteira, tanto no Brasil quanto no exterior, especialmente em países da África.

Intervenção incisiva


Segundo relatou Palloci a Moro, ele nunca tinha presenciado uma intervenção tão incisiva de Lula, apesar da longa convivência entre ambos, que incluiu a tarefa de coordenador do programa de governo do petista em 2002 e o exercício da função de ministro da Fazenda entre 2003 e 2005. “Ele disse: ‘Eu chamei vocês aqui porque o pré-sal é o passaporte do Brasil para o futuro. Ele que vai dar combustível para um projeto político de longo prazo no Brasil, ele vai pagar as contas nacionais, vai ser o grande financiador dos grandes projetos do Brasil, e eu quero que o Gabrielli faça as sondas pensando nesse grande projeto para o Brasil”, teria dito Lula.

Segundo Palocci, neste trecho da reunião, Lula citou o futuro chefe da Casa Civil de Dilma. “O Palocci está aqui, Gabrielli, porque ele vai o acompanhar nesse projeto, porque ele vai ter total sucesso e para que garanta que uma parcela desses projetos financie a campanha dessa companheira Dilma Rousseff, que eu quero ver presidente do Brasil”, relatou o ex-ministro a Moro.

Palocci ainda disse que Lula “encomendou” a Gabrielli que, “através das sondas, pagasse a campanha da presidente Dilma em 2010 pedindo, obviamente, às empresas os valores que seriam destinados à campanha”. Palocci, contudo, eximiu Gabrielli da prática de crimes. “Na terceira reunião que eu tive com ele, Gabrielli deixou claro que não iria viabilizar contribuição de campanha nesse projeto.” O petista ainda contou que as empresas nacionais que se envolveram em projetos de navios-sonda nunca pagaram propinas em esquemas da Petrobras, porque os contratos “não davam margem” a estes repasses.

Defesas


O advogado Cristiano Zanin Martins, defensor do ex-presidente Lula, declarou, em nota, que “Palocci muda depoimento em busca de delação. O depoimento de Palocci é contraditório com outros depoimentos de testemunhas, réus, delatores da Odebrecht e com as provas apresentadas”. Zanin lembra que o ex-ministro está “preso, sob pressão, e negocia com o MP acordo de delação que exige que se justifiquem acusações falsas e sem provas contra Lula”.

Em relação às denúncias de Janot, Dilma Rousseff afirmou ser “lamentável que o chefe do Ministério Público Federal, 24 horas depois de anunciar uma infundada denúncia contra dois ex-presidentes da República e dirigentes do PT por organização criminosa, venha propor agora a abertura de uma nova ação penal também sem qualquer fundamento”.

O que diz Palocci


» O ex-ministro aponta que Emílio Odebrecht, dono da construtora Odebrecht, ofereceu 
R$ 300 milhões ao ex-presidente Lula.

» Ao menos R$ 4 milhões foram repassados em espécie ao ex-presidente. A propina teria sido repassada ao fim do mandato de Lula, e destinada à construção da sede do Instituto Lula. Palocci também diz que ele recebeu 
R$ 200 mil por palestras.

» A verba ilegal era repassada para políticos e funcionários públicos por meio de caixa 1 e caixa 2.

» O esquema de corrupção teve como objetivo central desviar dinheiro, fraudar contratos e favorecer empresas por meio da Petrobras.

» Palocci está preso desde 2016, acusado de corrupção em contratos de navio-sonda firmados entre a Odebrecht e a Petrobras. Ele falou por duas horas ao juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, e afirmou que a reforma do sítio de Atibaia — que a Lava-Jato diz ser de Lula e ele nega —, a compra de um terreno de R$ 12 milhões para ser sede do Instituto Lula e de um apartamento em São Bernardo foram propinas pagas pela Odebrecht ao ex-presidente.

Na Justiça


» Palocci já foi condenado pelo mesmo juiz a 12 anos e 20 dias de cadeia, no âmbito das investigações da Operação Lava-Jato.

» O ex-presidente Lula foi denunciado em 15 dezembro de 2016 e a denúncia foi aceita pela Justiça Federal quatro dias depois. 
O petista foi acusado, na época, de receber 
R$ 12 milhões para a construção do 
Instituto Lula.
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Sonia
Sonia - 07 de Setembro às 08:27
Palocci não é qualquer um. É um homem extremamente preparado e teria sido o candidato natural do PT a presidência se não tivesse começado a ver ruir projetos a partir do mensalão. Lula nunca tratou, com exceção de Dirceu com cuidado e respeito os que estavam presos por sustentar o projeto de poder e político do PT ou mais claramente do Lula. Ele escarneou em alguns momentos da situação delicada e complexa destes presos seja de empresários, seja de colaboradores ou políticos. É bom lembrar que muitos empresários que se envolveram com o governo eram funcionários do alto escalão das empresas mas não donos e também seguiam regras rígidas de obediência as decisões tomadas pelos donos das empresas. Justamente porque o depoimento tem incongruências é que ela tem fundamento.