Em intervalo de sessão, Cunha sugere um "acordão" com outros acusados

Reportagem do Correio flagrou ex-presidente da Câmara dizendo que foi aconselhado a "pegar leve" com um dos delatores

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postado em 28/10/2017 11:24

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press


O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o doleiro Lúcio Funaro se encontraram novamente ontem durante uma audiência na 10ª Vara Federal de Brasília. Eles prestaram depoimento na ação penal da Operação Sépsis referente aos desvios que ocorreram no Fundo de Investimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FI-FGTS), gerenciados pela Caixa Econômica Federal. O empresário Alexandre Margotto, que é delator do caso, também foi ouvido na mesma audiência, por meio de videoconferência. Na sala de audiências, Funaro detalhou o esquema de corrupção, acusou Cunha de receber dinheiro ilegal e deu detalhes de como repassava propina para políticos.
 
 
Por conta do encerramento da sessão, o ex-deputado não prestou depoimento. Mas em um intervalo concedido pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, logo após a participação de Fábio Cleto, a reportagem do Correio flagrou o momento em que Cunha indicou para interlocutores que existe uma espécie de acordo com os demais acusados. A conversa dele com outros dois homens ocorreu fora da sala de audiências, em um rápido intervalo concedido pelo magistrado. Bastante irritado com as declarações feitas na audiência, Cunha comentou que foi orientado “a pegar leve” com Alexandre Margotto. “Me falaram para pegar leve com o Margotto, que o Lúcio assumiria a parte dele. F..., eu não vou pegar leve com ninguém. O Lúcio inventou um monte de coisas. Inventou reuniões que eu não tive, dinheiro que eu não recebi”, argumentou.

Em seguida, o ex-deputado voltou para a sala de audiências. Ele e Funaro já tinham se encontrado na quinta-feira, no depoimento do ex-vice-presidente da Caixa, Fábio Cleto. Por volta das 15h30, teve início o depoimento de Alexandre Margotto. Ele amenizou as acusações contra Lúcio Funaro, que é acusado de ter ameaçado Fábio Cleto, prometendo “atear fogo na casa dele com os filhos dentro”. Margotto afirmou que não acredita que o doleiro faria isso. “Eu nunca me senti ameaçado por ele. Eu realmente no íntimo sinto que ele não faria isso. É o jeito Lúcio de ser. A minha ótica do Funaro é uma, a da quem não conhece ele é outra”, afirmou o empresário, destacando que ele é autor do pagamento de propina para vários políticos.

Margotto afirmou que presenciou diversas ligações entre Cunha, Funaro e Fábio Cleto. “Presenciei ligações do Eduardo com o Lúcio Funaro, e do Lúcio com o Fábio Cleto. Já vi coisas ilícitas entre eles sim, falando das empresas envolvidas. O contato era diário entre o Eduardo Cunha e o Lúcio Funaro”, completou.

O doleiro Lúcio Funaro foi o último a depor, contou que diversas autoridades sabiam do esquema de propina pago com recursos do FGTS. “Políticos de diversos partidos receberam dinheiro do esquema. Teve gente do PMDB, PSC, PT. Receberam Henrique Alves, Lúcio Vieira Lima, André Moura, Manoel Júnior, da Paraíba. O deputado Eduardo Cunha tinha credibilidade com os deputados. Ele seguiu com todos esses deputados fiéis a ele, que foram aumentando cada vez mais. Eu o vi no almoço pedindo doação pro Vaccarezza, que é do PT. O presidente Michel Temer e o ex-ministro Geddel Vieira Lima também eram informados de tudo”, contou o doleiro.

Funaro também confessou que gravou vídeos de reuniões em seu escritório durante oito anos. Ele ressaltou que as imagens já foram apresentadas à Justiça por meio dos anexos de seu acordo de delação premiada. O advogado de Henrique Alves, Marcelo Leal, afirmou ter provas de que seu cliente não cometeu os crimes apontados por Funaro. O presidente Michel Temer informou que “contesta de forma categórica qualquer envolvimento de seu nome em negócios escusos, ainda mais partindo de um delator que já mentiu outras vezes à Justiça”.

Em seu depoimento, Funaro afirmou que perdeu contato com Eduardo Cunha ao ser preso. Mesmo preso, o ex-presidente da Câmara afirmou que vai falar com a imprensa “após seu depoimento, marcado para 6 de novembro”. Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que “mantém restrito contato com as autoridades e colabora com as investigações”.

Dilma e Moro

A ex-presidente cassada Dilma Rousseff (PT) afirmou ao juiz Sérgio Moro que havia uma “preocupação” em salvar as empresas alvos da Operação Lava-Jato. Segundo ela, os executivos deveriam ser punidos, mas as “instituições são produtos sociais”. Foi o primeiro depoimento de Dilma a Moro. Ela falou por cerca de meia hora, por videoconferência, de Belo Horizonte. A petista depôs como testemunha de defesa do ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras Aldemir Bendine, preso na Operação Cobra, deflagrada em junho. Bendine é réu em ação penal por suposta propina de R$ 3 milhões da Odebrecht.
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