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Correio Braziliense

Economista que ajudou a fazer o real relata como era difícil rolar a dívida

Murilo Portugal enfrenta hoje, na Justiça, o fracasso dos planos anteriores ao Real

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postado em 03/07/2014 08:11 / atualizado em 03/07/2014 16:26

Paulo Silva Pinto , Enviado Especial

Marko Djurica
São Paulo — A construção do Real leva a assinatura de funcionários de carreira, conhecedores dos meandros da administração pública e das leis. Um deles é Murilo Portugal, carioca que chegou a Brasília em 1969. Como técnico do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), ocupou vários cargos até assumir a Secretaria do Tesouro no governo de Itamar Franco, em 1992.

Quando Fernando Henrique se tornou ministro da Fazenda, Portugal foi mantido no cargo. E participou do planejamento e da implantação do plano de estabilização. Ele guarda boas lembranças do período, mas conta que foi uma época das mais difíceis de sua vida, pelas jornadas de até 14 horas de trabalho e pela tensão das negociações.

Essa toada resultou em problemas de saúde, que levaram Portugal a deixar o cargo em 1996. Foi para os Estados Unidos, onde ficou por 13 anos. Hoje, como presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), enfrenta, nos tribunais, o fracasso dos planos anteriores ao Real.

Como era ser secretário do Tesouro Nacional no período anterior ao Plano Real?
A gestão do fluxo de caixa era muito complicada e a dívida pública tinha um perfil ruim em função da inflação que, além de alta, era crescente. Isso acabou levando a um atrelamento da dívida a índices de preços ou à taxa Selic, além do encurtamento de prazo. Nós conseguíamos colocar títulos com vencimento em sete e em 14 dias — esse era o máximo. Todo ano, o estoque inteiro era rolado três vezes. Hoje, são cerca de 20% por ano. As dificuldades eram agravadas pelo fato de que, como estavam suspensos os pagamentos da dívida externa, o Brasil não tinha acesso ao mercado internacional. Nós tínhamos que pagar juros mais altos.

Na gestão do caixa, o que dificultava?
Era difícil fazer estimativas. As despesas eram nominais e um modo de gerir o caixa era atrasar os pagamentos. Os próprios fornecedores já sabiam disso e acabavam colocando um sobrepreço. A institucionalidade fiscal era muito frágil. As greves, frequentes. Mas, apesar de todas as dificuldades, conseguimos fazer um superavit primário em 1994 de mais de 5% do PIB (Produto Interno Bruto) com um controle de caixa muito rígido e a criação de impostos. Na época do Real, foi criado o IPMF (Imposto Provisório sobre as Movimentações Financeiras), que durou só um ano.

Havia riscos?
Muitos. Houve um período de seis a oito meses de preparação do Real. Nos primeiros dois ou três fins de semana, nós viemos para São Paulo e fizemos um plano de curto prazo só para melhorar as finanças públicas. Depois, começaram as reuniões de preparação em Brasília, às terças-feiras. O Clóvis Carvalho (então secretário executivo da Fazenda), implantou uma disciplina do setor privado, de onde ele veio. Quem chegava atrasado pagava uma multa, já em URV. A cada 15 minutos, era uma URV (unidade real de valor). Cada um recebia uma missão para a próxima reunião: minuta de decreto, minuta de medida provisória. E as coisas foram começando a acontecer.

Ouça a entrevista na íntegra:


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